Foto de Veronica de Souza Campos

Veronica de Souza Campos

Nossa entrevistada é Professora Assistente no Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), pesquisadora de pós-doutorado júnior via CNPq na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pesquisadora colaboradora na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). Possui Bacharelado (2014), Mestrado (2018) e Doutorado em Filosofia (2022) pela UFMG, sob orientação do professor André Abath, com estágio sanduíche via programa Capes PrInt na University of Warwick/Reino Unido, sob supervisão do professor Quassim Cassam. Principais interesses de pesquisa incluem epistemologia analítica contemporânea, epistemologia de virtudes e vícios, epistemologia social e epistemologia da investigação. Também trabalha com temas ligados à filosofia da religião, filosofia da mente e fenomenologia, e filosofia da dor. Possui grande interesse pela área de metodologia e escrita filosófica, tendo publicado em 2022 o livro ''Penso, Logo Escrevo'', adotado atualmente como manual de metodologia por professores de diversas univeridades brasileiras. É membro da Sociedade Brasileira de Filosofia Analítica (SBFA). Faz parte do núcleo de sustentação do GT de Epistemologia Analítica da ANPOF. Participa dos grupos de pesquisa REDD (Rede de Estudos Democracia e Desinformação), sediado na UFMG; Observatório da Dor, sediado na FAJE; e CLEA (Cognição, Linguagem, Enativismo e Afetividade), de abrangência internacional. A entrevista foi realizada por João Gabriel Bitencourt, graduando do bacharelado em Filosofia na UFSM. Supervisão e revisão por Camila Palhares Barbosa, professora do Departamento de Filosofia da UFSM.

Por que Filosofia? Você se recorda de como e quando escolheu o curso?

Ótima pergunta. Eu sempre me interessei por filosofia. Eu sempre gostei das aulas de filosofia que eu tinha na escola, desde o ensino fundamental. Eu tive um professor no ensino fundamental que me cativou muito, mas eu nunca tinha pensado em fazer filosofia como carreira, profissionalmente. Essa ideia não tinha aparecido para mim até quando eu estava ali por volta de uns 18 ou 19 anos, quando eu já estava na faculdade, tinha entrado na universidade para fazer um curso de Design na Universidade Federal de Minas Gerais; eu sou de Belo Horizonte, Minas. E eu estava insatisfeita com o curso de Design, não estava gostando do andamento do curso, comecei também a não gostar das perspectivas profissionais que aquela área oferecia. E, paralelamente a isso, aconteceu um fenômeno na minha vida que é uma história até engraçada, mas que eu acho muito marcante para mim. Desde que eu tinha ali, acho que uns 16, 17 anos, estava no ensino médio, nós tínhamos uma rede social, o Orkut, e eu gostava muito de frequentar essa rede por conta de uns fóruns de discussão que ela oferecia. Aí eu entrava ali, me interessava por vários assuntos, entrava nos fóruns, e alguns desses assuntos pelos quais eu me interessei em filosofia e história antiga. E daí, num desses fóruns, eu estava mais como ouvinte do que como participante, mas acompanhando uma discussão, vi uma das pessoas que estava participando, e ela se expressava de maneira impecável, assim, maravilhosa. Todas as ideias eram concatenadas de forma impecável. Tinha uma eloquência que chamava atenção e, ao mesmo tempo, tinha aquilo que hoje eu chamaria de virtudes intelectuais, né? Na época, eu não tinha essa expressão para usar, mas, assim, era um discurso muito bem construído, muito virtuoso, e eu pensei: “Nossa, eu quero aprender essas habilidades! Seja lá o que for que essa pessoa estudou, que a levou a desenvolver essas habilidades, eu vou fazer a mesma coisa, porque eu quero aprender a falar assim, a escrever assim”. E aí eu procurei entrar em contato com essa pessoa. Eu a procurei e perguntei: “Como é que você consegue fazer isso?” E daí eu descobri que era porque ela tinha estudado filosofia, estava no mestrado. Nós nos tornamos amigos depois disso, mas aquilo ficou na minha cabeça: que eu precisava aprender, aquilo era o meu objetivo, eu tinha que aprender. E eu já estava num processo que levaria ao abandono da minha primeira graduação e, quando eu decidi abandonar aquele curso, eu não tinha dúvidas de que era filosofia que eu tinha que fazer, porque era isso que iria me levar a conquistar essas habilidades que me pareciam tão atrativas. Então, foi isso.

Nos conte como foi sua experiência na graduação? Você consegue pensar em pessoas e autores que foram referências ou em algum momento marcante para sua trajetória acadêmica?

Nossa, eu amei muito a graduação. Eu entrei no curso com todo o entusiasmo, e diferentemente da minha primeira experiência na universidade, que eu não tinha gostado, na filosofia eu já amei tudo, foi incrível. Eu fui aluna no curso noturno, era o segundo ano desse curso - o curso surgiu com o advento do REUNI -, e quando eu entrei em 2011, essa era a segunda turma, então o curso ainda era novo, era um curso de bacharelado. E eu tinha que trabalhar durante o dia. Eu trabalhava em banco, eu era bancária durante o dia, e frequentava o curso à noite. Hoje em dia, olhando para trás, eu nem consigo entender como é que isso foi possível, né? Trabalhar o dia inteiro e fazer uma faculdade à noite, uma faculdade que envolve uma carga tão alta de leitura. Eu acho que isso só foi possível porque eu estava realmente apaixonada por aquilo e muitas pessoas e autores foram importantes nesse processo. O professor André Abath, que posteriormente veio se tornar meu orientador, foi muito marcante durante a minha graduação. E ele foi uma das pessoas também que me provocou uma experiência quase que semelhante àquela do fórum do Orkut, pois eu via a performance dele dando aula e as coisas que ele eventualmente apresentava ou escrevia, eu falava: "Nossa, esse é o objetivo, quero me tornar como ele". Então, ele serviu de inspiração para mim em muitos momentos. Mas teve outras pessoas também. Eu tive um professor que eu admirei muito na graduação, o professor Marcelo Marques. Ele faleceu em 2016, mas ele dava aula de filosofia antiga, e eu acho que não não tem quem não tenha sido aluno dele, que não guarde um carinho muito grande, porque o estilo dele de trabalho era profundamente cativante. Ele tinha uma perspectiva de aproximar o texto antigo do aluno de hoje. Então, a gente ia para assistir uma aula de Platão com ele para ler os diálogos e ele ia ele lia os diálogos como se o diálogo tivesse acontecendo aqui, agora, entre a gente, sabe? Como ele transpunha a linguagem daquele texto, um pouco mais rebuscada que geralmente as traduções apresentam, para uma linguagem que é como se fosse de agora. E aquilo também foi maravilhoso. Mas eu tive muitos outros, eu poderia ficar aqui uma hora falando falando só exemplos de inspirações, mas acho que esses dois foram alguns dos mais marcantes.

Como você se descreveria enquanto estudante?

Eu acho que eu fui uma pessoa muito dedicada, muito caprichosa com tudo que eu fazia, muito interessada. Eu acho que eu correspondi à aquele estereótipo, da pessoa que chega mais cedo, senta na frente e tudo mais. Claro que eu não fui perfeita, ninguém é, mas eu me via como uma pessoa muito dedicada. O que, assim, nem sempre foi o caso, em outras coisas que eu fiz na minha vida, eu não fui assim. Eu, por exemplo, definitivamente não fui assim no meu emprego bancário, e eu atribuo o meu fracasso nessa carreira, em parte a minha falta de paixão pelo trabalho. E na filosofia eu era apaixonada, eu era deslumbrada, assim, eu adorava, como aluna de graduação. Acho que essa foi uma característica que era marcante sobre mim.

E quanto à sua entrada na Pós-Graduação? O que você achou do processo de se tornar pós-graduanda?

Ah, boa pergunta. Quando eu finalizei a graduação, eu não entrei imediatamente na pós, eu tive ali um ano de intervalo, e eu fiquei esse um ano preparando um projeto de mestrado. Eu acho que eu vinha de um processo de ter ficado um pouco cansada no final da graduação, porque eu embarquei numa, a gente tá falando sobre esse grande entusiasmo, essa grande paixão e tudo, então eu embarquei, eu acho, numa numa tarefa meio hercúlea. Porque eu me empolguei com o TCC da graduação, assim, eu me empolguei muito. Acho que eu escrevi um TCC que quase poderia ter se tornado uma dissertação, sabe? Foi um TCC gigante que eu escrevi, eu escrevi acho que mais de 100 páginas, e eu estava um pouco cansada. Então, eu decidi tomar esse tempo para me preparar e eu comecei a enfrentar os primeiros obstáculos ali durante esse processo de preparação, porque não é fácil, você escrever um projeto de pesquisa que vai ser julgado de uma maneira que é de competição. Você vai competir contra outras pessoas, diferente de uma avaliação de TCC, onde é você contra você mesmo. Ali você tá disputando vagas com outras pessoas. E eu encontrei as primeiras dificuldades, acho que justamente ali, mas esse processo de entrada na pós, apesar disso, ele não foi exatamente difícil, não foi traumático. Eu consegui passar na minha primeira tentativa e eu consegui passar com bolsa, o que foi muito importante, se não fosse por isso, acho que teria sido bem difícil desenvolver o meu trabalho de mestrado. Mas ali começou a ficar claro para mim que a vida acadêmica, ela vai sugar o meu sangue, né? Ela será uma vida difícil, ela será uma vida competitiva. Começou a surgir no horizonte para mim essa ideia de que, bom, a vida acadêmica é uma briguinha de cachorro grande. Possivelmente não haverá lugar para todos. E começa a surgir essa preocupação, ali naquele momento, para mim em 2016. Mas a entrada no mestrado, apesar disso, foi bacana. Eu me interessei muito pelas disciplinas. Eu tive a sorte de ter um professor que estava lá como visitante na época, que era o professor Simeão. Ele era um sartreano. Eu estava estudando Sartre, o Simeão não era meu orientador, mas ele me ajudou muito, ele me indicou materiais, ele me emprestou livros, ele foi bastante especial para mim naquele primeiro momento ali do mestrado. Então, isso foi isso foi um ponto bem marcante para mim. Outra coisa que eu acho que não tava óbvia para mim, mas ficou mais clara depois que eu entrei na pós, é o que é esperado de uma relação entre entre orientador e orientando. Porque durante o desenvolvimento do TCC, você tem um vínculo com um orientador, mas é um vínculo diferente, na pós, eu acho que eu não sabia, eu fui descobrir na prática, o que é você ser orientado. Quais são as coisas que eu posso esperar do meu orientador, que eu não devo esperar? O que que eu devo ser proativo e entregar? O que que eu devo esperar pela opinião dele? Acho que aprender o que que é esse vínculo é algo que eu aprendi no mestrado. E esse aprendizado foi importantíssimo para mim. Eu acho que muitas pessoas, infelizmente, elas não têm uma experiência acadêmica tão boa, porque a relação delas com os os seus orientadores não é tão boa. E a minha foi muito boa. E eu acho que o começo do mestrado foi justamente onde eu formei uma imagem do que é.

Como você se aproximou dos seus temas de pesquisa, do mestrado e do doutorado? Como foi a experiência de pesquisa na sua área?

No mestrado eu escolhi um tema de pesquisa que era uma espécie de continuação daquilo que eu já vinha fazendo no final da graduação. Então, eu continuei estudando o mesmo autor que eu tinha estudado no TCC. Eu fiz a minha dissertação de mestrado sobre o mesmo filósofo, mas escolhi um assunto diferente para estudar. Na graduação, no TCC, eu tinha estudado o assunto da autenticidade no Sartre, nos primeiros trabalhos de Sartre. E aí, no mestrado, eu continuei com os primeiros trabalhos de Sartre, mas eu fui estudar o tema do cogito pré-reflexivo. E escolher isso teve diversas motivações, diversas razões. Acho que a primeira era que eu queria ser enquadrada na linha de pesquisa de “Lógica, ciência, mente e linguagem”. Então, o programa de pós da UFMG, ele tem uma variedade de linhas. Algumas dessas linhas têm uma vocação mais histórica e outras têm uma vocação mais sistemática. Uma pesquisa em Sartre poderia, a princípio, ser enquadrada em duas linhas, poderia ou entrar na “História da Filosofia Contemporânea”, que é uma linha que tem a vocação mais histórica, ou ela poderia entrar nessa outra que eu falei “Lógica, ciência, mente e linguagem”. Eu queria entrar nessa por várias razões. A primeira para ser orientado pelo André tinha que ser nessa linha. E era muito importante para mim ser orientada por ele. Então, o trabalho tinha que ser um que se enquadrasse nessa linha. E porque eu estava começando a entender que o tipo de profissional que eu queria me tornar, o tipo de filósofa que eu queria me tornar, e era de uma filósofa que com foco em problemas, então não a partir de uma vocação histórica, mas sim a partir de uma vocação temática. Então, eu queria me colocar numa linha que fosse permitir a interlocução com outras pessoas que também estão trabalhando assim, e me afastar um pouco da linha mais histórica. Eu acabei frequentando vários eventos da filosofia contemporânea e foi legal também, mas eu queria entrar na linha de “Lógica”, como a gente chama para abreviar. E aí, o que que acontece? Eu tinha que escolher um tema que fosse possível de ser estudado dentro do Sartre, mas que também dialogasse com essa linha e que não fosse algo extremamente batido e já muito estudado, já meio datado, porque embora o mestrado não tivesse uma exigência de originalidade, eu tava tentando pensar a médio e longo prazo. Se essa minha pesquisa resultar em coisas que eu pudesse explorar no doutorado depois, ela tem que ter um um componente de originalidade, mesmo que ele seja ainda meio incipiente, senão o mestrado vai esgotar o que tem para dizer, e depois como é que eu fico para continuar minha trajetória. Eu fiz uma espécie de um levantamento lá de possíveis ideias que daria para estudar e essa ideia da consciência pré-reflexiva era uma que me pareceu a mais adequada. Então, o meu processo de escolha ali do mestrado foi bem estratégico nesse sentido que eu expliquei. E quando foi chegando na hora de desenvolver o projeto de doutorado, dois anos depois, eu já estava com outra perspectiva. Eu queria me afastar da filosofia da mente e eu queria entrar mais na epistemologia. Eu concluí que trabalhar com Sartre iria limitar meus horizontes, que aquilo iria restringir as minhas possibilidades na epistemologia e que talvez fosse o caso de procurar um assunto que não tivesse atrelado a um único filósofo, abandonar de vez essa ideia de focar num filósofo e trabalhar com algum problema. Então, ali eu fui procurar problemas que me atraíssem, que eu pudesse estudar. E aí, um dos problemas que eu achei, não surpreendentemente, era um problema que dialoga muito com Sartre. Acho que é um problema que certamente interessou a Sartre, interessaria a ele hoje se ele tivesse aqui. E é o problema da Akrasia, que pode ser um tanto um problema ético quanto epistêmico. A gente fala da falta de força de vontade, mas na epistemologia, se existe isso na epistemologia, existe um fenômeno que é mais ou menos isso na epistemologia. E eu escolhi essa discussão da akrasia epistêmica. Ela tem bastante a ver com Sartre, mas eu não queria mais focar no Sartre, eu queria um uma entrada direto na epistemologia. Na minha transição para isso, eu fiz uma manobra que é dentro das regras do jogo, né? É algo que você pode fazer, que é o seguinte, eu fiz um projeto, meu primeiro projeto, ele ainda envolvia o Sartre porque era aquilo sobre o que o melhor eu sabia falar naquele momento, era o assunto que eu melhor dominava. Se eu tivesse que passar por uma banca de seleção que fosse me fazer perguntas sobre o meu projeto, seria melhor para mim que que algumas dessas fossem sobre Sartre, porque assim eu poderia demonstrar mais o meu conhecimento, e talvez aumentar as minhas chances de êxito ali. Mas eu aí eu entrei lá, passei, fui aprovada com um projeto que envolvia o Sartre. Mas eu já fiz isso pensando em, à medida que o doutorado fosse transcorrendo, ir abandonando o Sartre, tal que ele não aparecesse mais na tese. E aí, quando foi a hora de apresentar o projeto definitivo, você apresenta, no PPG da UFMG, se não me engano, um ano após o ingresso, o projeto definitivo já não tinha mais o Sartre. O que significa que eu passei um ano estudando furiosamente os assuntos de epistemologia que estavam me interessando, e eu tive que aprender muitos deles do zero. Foi um momento bem desafiador, mas acho que foi muito construtivo. Eu progredi bastante nesse primeiro ano e, sem dúvida, foi um divisor de águas para mim. Foi uma decisão muito acertada.

Qual foi a sua pior experiência acadêmica?

Assim, eu nunca tive nenhuma experiência terrível, eu me considero uma pessoa de muita sorte, porque eu já ouvi coisas terríveis que aconteceram com outras pessoas na academia, e eu até agora passei ilesa. E eu nunca passei por nenhuma situação verdadeiramente terrível, que se compare com algumas que eu já ouvi de outras pessoas, mas eu já vivi algumas experiências que são desagradáveis. Acho que uma das experiências mais desagradáveis, que é corriqueira, na verdade, às vezes ela pode acontecer em pequenas doses, doses homeopáticas ali, mas está sempre presente. Eu acho que tem a ver com a relação com os alunos, em contextos onde existe uma dificuldade de reconhecimento da autoridade do professor. Eu não sei se isso tem a ver com ser mulher, se isso tem a ver com ter me tornado professora ainda relativamente jovem, e se não tem a ver com essas coisas. Eu realmente não sei. Mas eu já passei por experiências onde o aluno manifestou um comportamento opositor desafiador. Isso já aconteceu mais de uma vez. E eu tendo a atribuir isso a uma certa cultura que a gente tem no Brasil de haver grande abertura no diálogo, o aluno poder levantar a mão e discordar do professor, e às vezes fazer isso até de forma meio acintosa. Mas houve ocasiões em que eu senti que isso tinha excedido um pouco um certo limite, e tive que pensar como eu ia contornar essas situações. Acho que a minha saída para essas situações sempre é a diplomacia, mas são situações que, a longo prazo, com a repetição, acho que elas têm um pouco do poder de ir minando a confiança do professor, a autoestima. Então, eu enxergo ali nessas experiências uma espécie de semente para que possa se tornar de situações terríveis assim dentro da academia. Acho que essa é a que mais que eu mais me recordo, sabe?

E qual foi a sua melhor experiência acadêmica?

Eu tive muitas experiências acadêmicas, dignas de nota, que eu poderia listar, mas eu acho que a mais, se eu tivesse que selecionar uma para ser a mais, a mais interessante, foi ter tido a experiência de passar seis meses fora do Brasil, fazendo uma parte do meu doutorado na Inglaterra. No doutorado sanduíche, que eu fiz pelo CAPES-Print. Essa experiência, ela foi maravilhosa para mim por conta do meu supervisor lá, pois eu fui supervisionada pelo Quassim, né, pelo Quassim Cassam, que é uma grande autoridade. Eu acho que na ocasião ele era a principal autoridade no assunto que eu estava estudando, que era de epistemologia de vícios. Era ele a principal referência. E eu imaginava, quando eu decidi embarcar nisso, em concorrer a isso e me dispor a sair do Brasil, eu imaginava uma coisa totalmente diferente. Eu imaginava que ele, como um professor famoso, uma pessoa muito requisitada, ele seria pouco disponível, eu teria poucas oportunidades de estar com ele e aprender coisas com ele. E não foi isso que aconteceu, assim, ele foi maravilhoso. Ele era uma pessoa extremamente disponível, leu todos os meus rascunhos que eu enviei para ele, com poucos dias marcou reuniões para conversar, me deu feedbacks construtivos, ele queria saber a minha opinião. Então, a gente conversava de uma forma que era muito pedagógica, porque ele me pressionava para tentar formular os meus pontos de um jeito que fosse mais robusto. Ele me apresentou à cidade de Londres e foi comigo em vários lugares, me mostrou coisas em Londres para eu conhecer, porque isso é parte do intercâmbio também, o intercâmbio não é só acadêmico, ele também é cultural para você conhecer a cultura do outro país. Ficar imerso naquela cultura. E ele desempenhou um papel muito importante para mim naquele momento. Então eu considero essa uma experiência incrível que eu tive, talvez possivelmente a mais incrível.

Se você pudesse voltar no tempo e se dar um conselho naquela época, qual seria?

Poxa, eu eventualmente teria vários conselhos para mim mesma, se eu pudesse voltar no tempo. E eu não sei, eu tenho medo de soar muito dura comigo mesma e com as outras pessoas para quem esse conselho pode servir, mas eu acho que eu vou falar assim mesmo, porque é melhor pecar pela franqueza, né? Então, eu acho que o principal conselho que eu daria era de não perder tempo. Não perder tempo. Acho que o tempo é um recurso muito precioso para quem quer ser bem-sucedido na academia. Eu me considero uma pessoa bem-sucedida, né? Até agora eu fui bem sucedida nas coisas que eu me propus a fazer. E, é claro, que esse sucesso é para ser atribuído a vários fatores, e não só ao que eu vou falar, mas eu acho que parte do que contou muito para mim é o aproveitamento do tempo. E se eu pudesse, eu teria sido ainda mais radical, eu teria aproveitado de outra forma, eu teria sugado ali cada segundo e não perdido tempo. Às vezes a gente começa a fazer ali um trabalho, a fazer uma leitura, uma pesquisa, e se distrai com outras coisas, aquilo não rende ou você mesmo demora para traçar um plano de ação para conseguir visualizar o que que vai fazer. E demora para começar, ou começa e volta atrás. Eu tentaria eliminar o máximo possível os fatores que levam a isso, porque eu acho que eu fui cada vez mais ganhando clareza sobre sobre isso que eu vou falar agora. A academia é um lugar extremamente competitivo. O nosso objetivo, acho que o objetivo de muitas pessoas quando entram na academia, é conseguir se estabelecer profissionalmente, conseguir um dia vir a ter um emprego, um emprego acadêmico, que na maioria das vezes esse será um emprego universitário, será uma posição de docente efetivo numa universidade. E, infelizmente, não parece que haverá oportunidades para todos, né? Para todos que estão hoje estudando, na pós, para todos que estão buscando um diploma de mestre, de doutor, não parece que haverá oportunidades na docência para todos. Isso significa uma coisa muito cruel, mas muito importante de ser entendida, que é que as oportunidades que tem ficarão para aqueles que se destacarem, e partindo do pressuposto que os processos seletivos são justos, é como se eu tivesse dizendo que só o melhor que vai ser aprovado, porque quase sempre é uma só vaga. Quase todos os editais, é uma só vaga e você vai concorrer com muita gente. Então, é preciso tentar ficar no topo, e para isso o tempo, ele é importantíssimo, ele é crucial. Eu procuraria não perder tempo. Qualquer tempinho que eu tivesse que eu pudesse converter em entregáveis, eu faria de tudo para converter em entregáveis. Então, por exemplo, ao invés de dizer para mim mesma: "Não, eu vou passar os próximos, sei lá, vou passar os próximos 4 meses trabalhando nesse artigo”, eu não falaria isso, eu falaria, “essas são as etapas que eu preciso concluir para entregar esse artigo, para o artigo ficar pronto, em quatro meses”. Ou seja, eu me perguntaria: o que eu precisaria priorizar, e o que eu precisaria sacrificar, para ter uma coisa pronta em 4 meses? Porque se você disser para si mesmo, “eu vou passar quatro meses trabalhando num artigo”, você não está prometendo que ele vai ficar pronto. Num mundo onde a gente não estivesse competindo por vagas, e o mundo que não fosse cruel dessa maneira que eu falei, um mundo ideal onde você não precisasse se preocupar com entregáveis, isso não faria tanta diferença, mas essa não é a nossa realidade, né? A gente, para ter chance real, a gente tem que se preocupar com isso. Então, é isso, esse é meu conselho. Cruel, mas acho importante, necessário.

Sua formação inicial foi marcada pela filosofia de Jean-Paul Sartre. Como essa base fenomenológica se relaciona com seu trabalho posterior em epistemologia analítica?

Um dos assuntos que é um dos temas mais famosos que Sartre estudou é o tema da má fé. Ele chamava isso de má fé. É uma conduta que é bem parecida com o que a gente discute na epistemologia em termos de autoengano, quando a pessoa mesmo ela está enganada sobre si mesma, sobre algo que ela acredita ou que ela está fazendo. E, basicamente, o tema da má fé é uma discussão sobre maneiras de ser irracional, e isso era algo especial sobre o Sartre, o fato que ele se interessou sobre isso, naquele momento, anos 40, enfim. E eu descobri que existe uma grande discussão, uma boa parte da epistemologia contemporâneas é dedicada a estudar a irracionalidade sobre outros prismas, com outras ferramentas teóricas, mas estuda aquilo que, na prática, seriam fenômenos bem parecidos com o que o Sartre estudou. Acho que o interesse, o meu interesse, ele só foi sendo transformado e moldado por essa nova literatura que eu entrei em contato, mas no fundo, ainda era o mesmo interesse que é: vamos entender como é possível essas coisas, como as pessoas podem se comportar de maneiras que a gente está disposto a dizer que ela não está sendo racional.

Essa transição entre, se a gente quer se chamar assim, do continental para o analítico, em termos de leitura e pesquisa, isso também foi alguma questão marcante, ou do teu interesse na graduação? Você já transitava bem entre essas tradições? Porque são estilos textuais muitas vezes diferentes.

Ótima pergunta. Não, eu não transicionava bem, eu não sabia quase nada de filosofia analítica, porque a graduação não me ofereceu uma base muito robusta para isso. Eu fiz algumas disciplinas, mas foram poucas. Eu não tive predominância de disciplinas em filosofia analítica na graduação. E eu precisei ir aprendendo aos trancos e barrancos ali, aprendendo de forma não sistemática. Então, eu fui aprendendo um pouquinho sobre várias discussões diferentes e cada discussão nova que eu entrava em contato, eu aprendi alguma coisinha nova sobre o que que é fazer filosofia analítica. E acho que foi de forma muito cumulativa. Tive que participar de grupos de pesquisa em assuntos que, na verdade, eu não me interessava em pesquisar, mas que por estar presente no grupo de pesquisa e acompanhando a maneira como as pessoas falam, eu aprendi muito sobre como é que se fala, como é que se faz as coisas num ambiente analítico. Eu tive a oportunidade de participar de um grupo que era do professor Ernesto Perini. O Ernesto foi uma pessoa muito importante também na minha trajetória, e principalmente na pós. O Ernesto Perini, ele tinha um grupo de pesquisa que era para discutir semântica de situações. É um tema em filosofia da linguagem, algo sobre o que eu nada sabia, nada de nada, não tinha nenhum conhecimento. Eu entrei nesse grupo procurando adquirir algum conhecimento, qualquer coisa que eu pudesse ali absorver sobre o que é fazer filosofia de um ponto de vista analítico, seria proveitosa para mim. E foi muito difícil acompanhar as discussões neste grupo. Eu lembro que eu providenciei o livro, e eu tive momentos de angústia com aquele livro do Jon Barwise e do John Perry chamado “Situações e Atitudes”. Eu tive momentos de angústia com aquele livro, porque era tão diferente de tudo que eu tinha visto. Eu estava tão não familiarizada que eu cheguei a pensar que não era possível para mim entender o que estava sendo discutido. Mas aos poucos isso vai melhorando. Eu passei por um processo gradual de entrar na filosofia analítica, entender o que isso é, entender como é feito. E também, paralelamente a isso, um processo também gradual de abandonar os meus trejeitos sartrianos. Até na forma de escrever, eu tinha uma forma de escrita que era marcada, muito prolixa, com parágrafos muito grandes. Às vezes, fazendo uma coisa que o Sartre faz, porque a gente às vezes assimila alguns maneirismos do filósofo, que é de você explicar uma coisa e depois explicar ela de novo com outras palavras. Mas eu fazia tudo isso e que, em filosofia analítica, não se faz, e eu tive que praticar para ir abandonando essa coisa. E, ao mesmo tempo, um terceiro processo paralelo, foi o processo de ir treinando para conseguir escrever em inglês de forma um pouco mais natural. É isso também, eu cheguei à conclusão que isso era necessário, e isso faria diferença para a minha carreira, se eu conseguisse adquirir destreza para já escrever direto em inglês. Então, passei por esse processo de treinar essa escrita junto com o aprendizado da filosofia analítica. Foi uma loucura, mas aqui estamos, né?

Continuando no assunto da escrita, o seu livro “Penso, Logo Escrevo” é um manual de escrita. O que a levou a pesquisar sobre a escrita? Como a sua pesquisa especializada faz relações com a formação de estudantes em escrita filosófica?

Bom, esse livro, ele aconteceu porque eu gostaria de ter tido um livro como esse para consultar. Fez falta para mim. Eu vejo que o meu projeto de mestrado, por exemplo, teria se beneficiado muito caso tivesse à disposição na época um manual que ensinasse o que é fazer um projeto de mestrado. Na própria graduação, para fazer o TCC de graduação, teria sido muito mais fácil a minha vida se eu tivesse podido consultar um livro que explicava o que era fazer um projeto. Porque por mais que eu tenha tido a oportunidade de cursar disciplinas na graduação que tinham esse propósito, de ensinar o que quer pesquisar, ensinar o que quer pesquisar é um negócio tremendamente amplo, né? E cada professor conduzia aquilo à sua maneira. Então, eu nunca tive uma disciplina que dissesse: "Olha, existem várias maneiras”, em que um professor me falasse isso. Da forma como foi para mim, cada professor ensinava o que era pesquisa do ponto de vista dele. Então, eu demorei para poder “cair a ficha” que cada um estava falando do ponto de vista dele, e que, portanto, existem várias maneiras de se fazer, e não tinha muita organização quanto quais são as semelhanças e diferenças entre essas maneiras, qual delas é melhor para o quê? Não tinha isso. E quis que esse livro existisse para que as pessoas não precisassem mais queimar sanidade pensando sobre isso, ou pelo menos que tivesse ali uma pequena base, mas que tivesse pelo menos alguma referência ali que ajudasse naquele primeiro momento. Acho que essa foi a minha principal motivação para fazer o livro. E junto com isso, assim, esse livro sai no final do meu doutorado, e junto com isso, eu acumulei muitas reflexões sobre como é que foi esse processo de transitar entre dois universos, que é o universo da filosofia baseada em autores, e da filosofia baseada em problemas. E seria mais fácil a vida se existisse um guia para balizar esse trânsito. Eu não tive esse guia, então eu tive que ir por tentativa e erro, né? Eu usei uma parte ali do conhecimento que eu ganhei com essas experiências de tentativa e erro para fazer o livro.

Você também trabalha com desinformação em contextos sociais. Em que medida você acha que comportamentos individuais são suficientes para explicar esse fenômeno? Ou é necessário um nível mais estrutural de análise?

Eh, ótima pergunta. Eu não acho que as tendências individuais são suficientes para explicar, mas ao mesmo tempo, eu também não acho que as explicações estruturais são suficientes. Me parece que o mundo está dividido entre essas duas perspectivas, ou você vai explicar as coisas de um ponto de vista estrutural, e vai apontar para fatores sociais, econômicos de conjuntura, fatores ambientais, nutricionais, enfim, para as coisas que dizem respeito a esse universo, a esse mundo que a gente vive inserido; ou você vai dar uma explicação totalmente pessoal, assim, baseada nas tendências do indivíduo, nos traços de caráter, nas escolhas particulares. Parece que a gente tá polarizado. Eu percebo que muitas vezes as iniciativas de explicar fenômenos, elas são polarizadas entre essas duas tendências. E a verdade é que eu acho que não deveria ser assim. Eu acho que tem fatores estruturais que desempenham um papel importante na explicação, mas tem fatores pessoais também. Acho que uma explicação mais satisfatória, ela deve incluir, deve pelo menos, considerar fatores das duas espécies, das duas naturezas. Porque se fosse verdade que a estrutura explica tudo, você não veria grandes variações entre pessoas que estão submetidas a um mesmo contexto, a uma realidade semelhante, enfim, às mesmas mazelas. Então, não pode ser só o contexto, não pode ser só a estrutura. Por outro lado, se as escolhas individuais explicassem tudo, não era para você ver grandes tendências. Tendências de certas pessoas, de uma certa idade, de um de um certo background. Não era para você ver uma tendência de pessoas com essas características se envolverem e serem vítimas da desinformação. Então, acho que é uma explicação desconfortável, né? Porque geralmente os pesquisadores que exploram fatores mais estruturais, eles não exploram, eles não trabalham, com as ferramentas que te permitem explorar os fatores mais pessoais, e vice-versa. Então, isso é uma verdade desconfortável, mas eu entendo que uma explicação completa e mais satisfatória, ela deveria considerar os dois tipos de fatos.

Sua trajetória combina especialização em epistemologia analítica com diálogo com áreas como filosofia da mente, religião e investigação do fenômeno da dor. Como a articulação desses temas surgiu? Foi planejada ou surge a partir de problemas específicos encontrados ao longo da pesquisa?

Bem, como diria Milton Nascimento, “o artista deve ir aonde o povo está”. Uma parte da minha da minha reflexão sempre foi pragmática: o que é que dá para estudar, o que que tem espaço para estudar, o que ainda não está muito estudado, ou seja, que tem ainda trabalho a fazer, e aonde é possível fazer esses trabalhos. E que tem alguém que pode orientar, tá? Que tem como resultar em artigos, e que tem como fazer, por exemplo, eventos que vão ser importantes, que tem como dar alguma contribuição original, e, posteriormente, que alguém vai querer financiar. Essa última pergunta também é muito importante. Como escolher um assunto que alguém vai querer quer financiar a pesquisa, né? Enquanto eu estava no mestrado e no doutorado, eu pude fazer com bolsa, e pude escolher o assunto que eu bem quisesse dentro da epistemologia. Nossa, eu pude escolher um que eu bem entendesse. No doutorado, escolhi epistemologia e a minha escolha não foi constrangida de nenhum jeito, de nenhuma forma, por questões financeiras, como por medo da CAPES não querer financiar minha pesquisa dependendo do assunto que fosse. Mas aí quando eu entrei, quando eu finalizei o doutorado, eu passei por um certo momento de angústia ali sem saber o que vem depois. Eu poderia ter mencionado isso como uma das experiências negativas acadêmicas, a angústia de você não saber se ano que vem você tem emprego. Passei por isso ali no final do doutorado, e uma oportunidade que surgiu naquele momento era para fazer um pós-doutorado na Faculdade Jesuíta, que é um lugar muito legal, uma faculdade pequena em Belo Horizonte, que tem uma vocação religiosa, uma faculdade de Filosofia e Teologia. Estava com o processo seletivo aberto para pós-doutorandos e eles queriam alguém que fosse pesquisar na linha de Filosofia da Religião. Eu não tinha muito conhecimento nessa área, assim, meu conhecimento em Filosofia da Religião era bem limitado, mas eu pensei, se eu conseguir articular alguma pesquisa que conecte o que eu já vinha estudando com algum assunto ligado à religião, eu vou estar fazendo uma coisa que preenche aqueles requisitos lá. Inclusive, da última coisa que eu mencionei, é alguém que vai querer financiar, porque eles querem alguém que vai estudar religião. E foi isso que eu fiz. Então, a minha pesquisa sobre experiências místicas era o que eu propus para fazer lá durante dois anos, logo após o doutorado. Essa pesquisa estava muito conectada com o que eu já vinha fazendo em epistemologia. Então, foi uma espécie de investigação epistemológica, por assim dizer, sobre experiências místicas. Essa pesquisa foi uma parceria muito produtiva entre eu e o meu supervisor lá da FAJE, que é o professor Daniel De Luca. A gente deu muito certo nos nossos trabalhos conjuntos. E dessa interlocução entre a gente surgiu a ideia de estudar fenômenos da dor, porque os fenômenos da dor, assim como os fenômenos místicos, são experiências que a gente poderia chamar de experiências extraordinárias. As experiências de dor, pensando principalmente em dores provocadas por lesões físicas, são experiências especiais, no sentido de que elas têm características muito próprias, tem um conjunto de traços fenomenológicos que a experiência tem. E tem grandes perguntas sobre como a gente pode estudar esses fenômenos, que são as perguntas que propriamente interessam a epistemologia, como investigar a dor? Daí a gente teve várias ideias para pesquisas que poderiam explorar a filosofia da dor. Então, a pesquisa sobre dor, ela surgiu a partir da pesquisa sobre religião, e depois, ou mais ou menos em concomitância com isso, eu estava interessada num assunto que é da epistemologia zetética ou epistemologia do inquérito. Isso é o que eu estudo hoje em dia. Mas esse interesse surgiu ali justamente porque acho que ele é um assunto que meio que unifica tudo que eu vinha estudando até então. Em paralelo a essa pesquisa sobre dor, eu desenvolvi um interesse por estudar propriamente o que que é fazer uma investigação, o que são inquéritos, como a gente organiza uma investigação. Esse é o tópico da epistemologia zetética, a epistemologia do inquérito. Eu acabei enveredando por esse caminho e desenvolvendo uma pesquisa, que é a pesquisa que eu tenho hoje, sobre inquérito. Então, assim, é uma coisa que é uma realidade em que uma pesquisa vai surgindo da outra, as coisas meio que meio que vão desabrochando umas a partir das outras, sabe? Às vezes, de dentro de uma pesquisa, você tem ideias que vão te permitir desenvolver uma outra pesquisa. Acho que foi um pouco isso que foi acontecendo.

Dentre seus trabalhos, quais você indicaria para quem quer conhecer melhor sua pesquisa?

Ah, boa pergunta. Bem, eu acho que os últimos artigos, os artigos que saíram em 2025, são os que vão ter uma leitura mais agradável que permite a pessoa conhecer o que eu faço na melhor versão. Um deles é um um artigo que saiu na Manuscrito “Erotetic Knowledge and Deal-Breaker Propositions”, que é um comentário, na verdade, ao livro que o André Abath escreveu. É um comentário sobre um dos capítulos do livro dele. É um artigo que discute e que discorda dele, de algumas coisas que ele diz de um dos capítulos. Depois tem um que saiu na Princípios, “Competent inference and the (ir)rationality of level-splitting”, que tem a ver com as discussões sobre a akrasia. Esse foi um artigo que eu gostei muito também. Ele é uma espécie de assunto que eu não tive tempo de explorar na minha tese de doutorado, mas que eu explorei neste artigo. Tem um que saiu na revista Argumentos, que é “What is missing from analytic-inspired contemporary discussions of akrasia”, esse artigo também é uma ideia que eu tive pouca oportunidade de explorar na tese, mas que tá desenvolvida no artigo, acho que de forma bem legível, bem amigável pro leitor. Tem um na Aurora, “Improbable knowing and ambiguity: a case against rational epistemic akrasia”, esse também é um artigo bem técnico. Esses todos que eu falei são de epistemologia, mas tem outros ali. Tem um que que eu achei que eu fiquei bem satisfeita com o resultado dele, que é sobre religião. Foi um artigo que saiu na Sapere Aude, o “Mystical experiences and the MCI hypothesis.” Esse foi um artigo que o co-autor é o professor Daniel De Luca da FAJE, e ele é sobre experiências místicas. E tem um outro que também é em coautoria com ele, que saiu na numa revista estrangeira que é sobre injustiças epistêmicas envolvendo dor crônica. O artigo se chama “Misunderstanding Epistemic Injustice: The Case of Chronic Pain Reports”. Todos esses artigos que eu que eu falei o nome, eles estão em inglês. Isso é porque eu adotei essa política, de escrever predominantemente em inglês. Mas eu acho que são, se alguém quiser conhecer o trabalho, acho que seriam esses os artigos. Um que é um pouco mais antigo, mas pelo qual tenho grande carinho, é um que saiu na Epistéme, em 2023, “Doing Good with Words: The Virtue of Benevolent Persuasiveness”. Foi meu primeiro artigo publicado fora do Brasil, e é um texto sobre epistemologia de virtudes que eu gostei muito de ter produzido.

Quais são seus projetos para o futuro? O que podemos aguardar?

Uma das coisas que eu pretendo fazer é organizar uma coletânea em língua portuguesa sobre a epistemologia do inquérito. Eu acho que isso bate de novo num ponto que eu acho que ele é muitas vezes ele é mencionado, mas nenhuma solução muito concreta para esse problema costuma ser mencionada. Acho que o Brasil tem uma espécie de carência de acesso à graduação a discussões avançadas em epistemologia analítica. O aluno de graduação, ele entra em contato com uma epistemologia, com uma filosofia analítica muito básica. Essas disciplinas que tem uma abordagem mais temática, mais voltada, mais inspirada, no estilo analítico, elas têm pouco lugar nos currículos, o aluno tem poucas ocasiões de entrar em contato, e, especialmente, de entrar em contato com discussões atuais e um pouco mais avançadas. Não que o aluno de graduação tenha que conhecer coisas avançadas, mas não é isso. É que ele tem poucas oportunidades de entrar em contato com o que está sendo feito hoje, o que está sendo feito, assim, que está na ordem do dia, por assim dizer. E os assuntos de epistemologia do inquérito, eles não têm material algum em português. Então, como é uma discussão bastante nova, uma das ideias que eu tive foi a de tentar produzir uma primeira coletânea em português, com traduções de textos que já são, digamos assim, mais canônicos nessa área, e disponibilizar para o público brasileiro. Acho que essa é uma das ideias que eu tenho pro futuro. Eu também tenho a perspectiva de continuar desenvolvendo trabalhos e publicar coisas na na área da epistemologia do inquérito. Já tem algumas engatilhadas, mas acho que podem esperar de mim é que vão surgir mais coisas dentro dessa área.

Para finalizar…. Como é ser uma Filósofa?

Ah, poxa, eu nem sei se eu sei responder essa pergunta. Tem muitos pontos muito legais de ser uma filósofa. Acho que um deles é provar o ponto de que mulheres podem ser o que elas quiserem, e poder encorajar jovens, mulheres, adolescentes e meninas a pensarem que elas podem ser o que elas quiserem. E ser uma mulher filósofa que está numa área mais analítica, que é uma área predominantemente masculina, eu acho que é provar que a gente pode ser coisas que não esperam que a gente seja. É possível para as mulheres ocuparem espaços que a sociedade não espera que elas ocupem. E acho que tem um ponto muito legal que é isso, mas tem as dificuldades que são inerentes, a gente enfrenta desafios que acho que filósofos homens não enfrentam. Tem essa parte, mas a vida está aí, né? A gente pode lutar por melhorias, mas a gente precisa sobreviver ao agora também. Então, eu diria que os prós superam os contras. Eu gosto de ser uma mulher filósofa. Eu não mudaria para ser outra coisa. Eu não desejaria ser um homem filósofo, e nem ser uma mulher que não é filósofa.