Por que Filosofia? Você se recorda de como e quando escolheu o curso?
Sim, eu me lembro bem. Na verdade, comecei a ter um primeiríssimo contato com a filosofia no curso clássico. Na época, havia três cursos, terminando o ginásio: o clássico, o científico e o normal. E eu optei pelo curso clássico. Nós tínhamos aula de filosofia - tivemos durante 3 anos aulas de filosofia. E o professor, naquela ocasião, era um professor muito ruim, de fato. Ele se limitava a ler notas de aula que ele havia tomado em 1950, ou seja, décadas atrás. Estou falando de muitos anos atrás, eu estou falando de 1966. Foi nessa ocasião, portanto, eu tinha 15 anos, que me deparei com a pergunta: existe o mal? E foi essa pergunta que me levou a me interessar por filosofia. Essa pergunta, e também o fato de ter tido, veja que curioso, um péssimo professor de filosofia no curso clássico. Então, imaginava que filosofia não podia ser aquela baboseira, que devia ser outra coisa mais interessante, porque uma questão como “existe o mal?”, me parecia tão interessante que merecia, a meu ver, um tratamento mais criterioso, mais rigoroso, mais aprofundado. Foi assim que entrei em contato com a filosofia.
Nos conte como foi sua experiência na graduação? Você consegue pensar em pessoas e autores que foram referências ou em algum momento marcante para sua trajetória acadêmica?
Sim, especialmente autores. Em 1969, o primeiro ano da graduação de filosofia lá na USP, nesse momento havia, por um lado, Sartre, que foi muito importante. Eu li muito Sartre, eu estudei muito Sartre. E havia também alguns filósofos franceses, como Foucault, já de uma certa forma. Porque Foucault tinha vindo ao Brasil e tinha apresentado um curso, na época era na Maria Antônia, a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Na verdade, Foucault deu um curso sobre “As palavras e as coisas”, antes da publicação do livro na França. Então, Foucault também estava ali muito presente entre nós, mas igualmente Derrida. Esses eram os autores mais presentes. E a ocasião que fez com que eu me voltasse para Nietzsche foi a seguinte. Eu estava já no segundo ano, 1970, e tinha de apresentar um seminário no curso de história da filosofia moderna. Fui para a biblioteca e me caiu nas mãos “A Genealogia da Moral” de Nietzsche. Fiquei absolutamente encantada com o livro, porque era uma maneira de lidar com a culpa, ou seja, era uma forma de suprimir a culpa da nossa própria existência. Acho que esse foi um dos grandes méritos do pensamento nietzschiano. A partir daí, eu me interessei por Nietzsche e até hoje me interesso por Nietzsche. Imaginem vocês, desde 1970, faz um tempinho.
Faz de Nietzsche um companheiro irrevogável de sua trajetória acadêmica.
É que na verdade, naquela época, a filosofia e, de uma certa maneira, os cursos de pós-graduação eram muito incipientes. A pós-graduação em filosofia foi implantada em 1971-72. Então, pertenço a uma geração que contribuiu justamente para a construção da pós-graduação em filosofia no país. E a nossa geração, nós fomos enviados para o exterior justamente para nos aprimorarmos lá. E eu obtive uma bolsa do departamento. O Departamento de Filosofia da USP atribuía uma bolsa por ano a um estudante. E quando eu terminei a graduação, me atribuíram uma bolsa de 3 anos e alguma coisa. E fui pra França. Lá eu fui completando a minha formação. E era um momento em que a especialização se fazia de maneira muito forte, porque era necessário, não é? Era necessário de fato construir uma pós-graduação que tivesse uma viga mestra. E o departamento de filosofia da USP era muito ligado à Universidade Francesa, que sempre tomou como viga mestra a história da filosofia. Então, nós fomos de alguma maneira requisitados para levar isso adiante. E como eu já vinha estudando Nietzsche, continuei a estudar Nietzsche.
Como você se aproximou dos temas de pesquisa, de mestrado e doutorado? Como foi a pesquisa na sua área?
Então, quando estudante na graduação, sempre tive uma curiosidade muito grande. Tenho uma curiosidade praticamente inata. Inata, entre aspas, claro, mas uma enorme curiosidade. E não me contento com soluções de facilidade. Eu preciso aprofundar muito para ficar minimamente satisfeita com as respostas que encontro. Então, foi na verdade uma decorrência de algo que havia se iniciado em 1970, quando eu estava no segundo ano da graduação. Foi uma decorrência. A partir daí, eu me interessei por diferentes temas em Nietzsche, como por exemplo, o primeiro artigo que publiquei, eu publiquei numa revista do próprio departamento de filosofia, de nome Discurso, era “Por uma genealogia da verdade” (1978) e foi o primeiro capítulo do meu mestrado. Eu me interessei pela crítica da noção de verdade que Nietzsche faz na sua obra. Depois no doutorado as coisas se passaram de outra maneira, porque acabei voltando para o Brasil depois de 5 anos na França, e chegando aqui dei um outro rumo à minha pesquisa. E achei que era absolutamente fundamental construir uma visão de conjunto da filosofia nietzschiana. “Nietzsche, cosmologia e genealogia” foi o título da tese de doutoramento que defendi em 1988, e que se transformou no livro “Nietzsche: das forças cósmicas aos valores humanos”, publicado em 1990. Chegou a uma terceira edição em 2010, ele está esgotado. E acho que foi a minha primeira obra, por assim dizer, realmente o primeiro livro em que desenvolvi uma pesquisa de fôlego, e como dizia, sobre a filosofia de Nietzsche no seu conjunto.
E é bem interessante, porque essa noção, esse pensar em conjunto a filosofia de Nietzsche, parece que perpassa a sua trajetória. Inclusive nos livros que você publica, que agora são mais de 25, muitos versando sobre Nietzsche. Precisa ter fôlego para fazer um trabalho dessa natureza.
Sem dúvida, mas só acrescentando algo em relação aos 25 livros. O 25º deve sair nos próximos dias, mas entre esses 25 houver também livros que organizei. Não são livros autorais, mas foram livros que organizei, porque sempre me pareceu muito importante também colocar o público brasileiro em contato com o que está sendo feito fora do Brasil. E foi assim que organizei Nietzsche na Alemanha, Nietzsche na Itália, Nietzsche na França, Nietzsche na Espanha e assim por diante. Comentadores, evidentemente, desses diferentes países com quem estabeleci contato a partir do momento em que passei a atuar fora do Brasil.
Qual a sua pior experiência acadêmica?
Eu acho que as piores experiências acadêmicas que tive foram durante a graduação no departamento de filosofia da USP, porque lá, na verdade, era realmente misógino. Penso que só mais recentemente deixou de ser, e não sei também em que medida deixou de ser, mas foi um período, esse da década de 70, realmente muito misógino. Então, foi a pior experiência acadêmica. Na verdade, quando eu tomava a palavra, era uma palavra já desvalorizada, era uma palavra já rebaixada, já colocada num nível que não era o nível da palavra masculina.
Qual a sua melhor experiência acadêmica?
A minha melhor experiência acadêmica se deu em vários momentos e acho que continua a se dar, no reconhecimento pelo meu trabalho. É um reconhecimento que se fez primeiro fora do Brasil, eu diria. E estou percebendo esse reconhecimento agora aqui no Brasil. Isso foi muito positivo, tenho a impressão. Na verdade, a partir do ano 2000, de uma certa maneira, o meu eixo foi se deslocando do Brasil e para a Europa, e entrei em contato com os colegas nietzschianos de vários lugares, da Alemanha, da França, da Espanha, alguns em Portugal, isso é mais recente também, mas da Itália, da Holanda, etc. E nessa interlocução foi possível também levar para lá os meus estudantes, porque entendo - e isso é muito importante e fico muito satisfeita de ter oportunidade de frisar - entendo que a internacionalização é uma via de mão dupla. Não é nós recebermos o professor, o professor estrangeiro, convidado que vem e faz uma palestra, um ciclo de palestras, que nós publicamos aqui, etc. E não temos nada em troca. Então, para mim foram várias as experiências muito positivas, não só no que diz respeito ao reconhecimento do meu trabalho de pesquisa, mas também no que diz respeito ao reconhecimento do meu trabalho de formação. Eu me dediquei muitíssimo ao trabalho de formação. E no trabalho de formação, tive a oportunidade de criar um grupo de pesquisa que está espalhado pelo Brasil e com duas sucursais, digamos, uma na Itália, outra na França. É o GEN, é o Grupo de Estudos Nietzsche, que enfim está situado nesses vários lugares e está completando agora 30 anos de existência. Então, aqueles que foram os meus orientandos, na verdade, estão levando adiante esse trabalho com uma revista, Cadernos Nietzsche, que continua a existir, já reconhecida pelo Scielo, nível A1, e tudo mais. É uma revista que não é uma igrejinha de forma alguma. Nós sempre nos pautamos, e aqueles que me sucederam também respeitam, por aquilo que nós chamamos de coordenadas cartesianas: é uma revista que leva em conta, por um lado, em termos horizontais, a apresentação das mais diferentes formas de se ler Nietzsche. E em termos verticais, várias gerações, promover a interlocução entre várias gerações, desde o pós-graduando, doutorando ou mestrando, até os especialistas estrangeiros. Fico muito satisfeita com isso. Acho que, de fato, essas foram e continuam sendo as minhas melhores experiências acadêmicas. Agora, por exemplo, nós vamos organizar o 55º Encontro Nietzsche em várias universidades durante duas semanas para festejar os 30 anos do GEN. Então, vamos estar na USP, na UNIRIO, na UnB, na Federal de Pernambuco, vamos estar no Paraná, enfim, é isso.
Se você pudesse voltar no tempo e se dar um conselho naquela época, qual seria?
Fiquei sempre muito interessada, não só pela filosofia, mas pelas manifestações culturais em geral. Acho que filosofia e cultura caminham juntas. Se você se ativer apenas à leitura, à exegese do texto filosófico, você estará fazendo um trabalho técnico que é redutor, e, portanto, que não recupera o espírito do pensamento, do pensamento do filósofo com que você está trabalhando, por exemplo. Então, a sugestão que eu daria seria a seguinte, não só entrar na parte relativa à filosofia nas bibliotecas, mas também na parte relativa à literatura. Ler os mais diferentes autores, literatura nacional, literatura estrangeira, se interessar pela música, pela música erudita, pela ópera. Sou absolutamente fanática por ópera. Por exemplo, se interessar pelas artes plásticas, pela pintura, pela escultura, enfim, tudo isso é muito vibrante. A vida cultural é sempre muito enriquecedora, e ela enriquece também a nossa leitura do texto filosófico. Queria apenas dar um exemplo, Camila. “O nascimento da tragédia” de Nietzsche, que é o primeiro livro publicado por Nietzsche nos últimos dias de 1871. Para entendermos esse livro, precisamos conhecer muito bem “Tristão e Isolda”, porque há um diálogo muito próximo com essa ópera do Wagner. Há trechos de Tristão e Isolda que são citados no livro. Isso é apenas um exemplo, porque os filósofos não estão numa redoma de vidro, eles estão inseridos num tempo e num espaço. Então, é preciso também tentar respirar os ares, não é, do momento em que os diferentes textos filosóficos foram elaborados. Falo da cultura de um modo geral, mas penso na história também, história factual mesmo. Preciso saber o que está acontecendo naquele momento, como está o mundo naquele momento.
No livro “Nietzsche e as mulheres”, você demonstra que Nietzsche tem sido utilizado como exemplo de um filósofo misógino e antifeminista, e ao mesmo tempo, retomado como um referencial para algumas análises feministas. No livro, você propõe uma investigação sistemática dos temas centrais do pensamento de Nietzsche que estão relacionados às mulheres. Na sua visão, qual a relevância das figuras femininas no pensamento filosófico de Nietzsche? Há uma perspectiva comum sobre as tipologias dessas figuras?
Muito obrigada pela sua questão, Camila. Ela me faz voltar a um livro que me é muito caro, que publiquei no Brasil. Na verdade, gostaria até de contar algo curioso. Esse livro eu escrevi na Biblioteca Nacional de França, lá em Paris. É curioso, é uma biblioteca que tem dois níveis, e tem um nível, que eu chamava de “ventre da terra”, que fica lá embaixo; é uma biblioteca dedicada aos pesquisadores. E foi lá que passei um bom tempo escrevendo em francês o livro. Ele saiu primeiro na França e, depois, passei por uma experiência interessantíssima que foi traduzir do francês para o português. Nessa tradução do francês para o português, fiz algumas alterações, e talvez eu tenha forçado um pouco mais nas tintas, o que me parece bom. Já falo a esse respeito. Sim, de um lado, Nietzsche é tomado realmente como uma referência para os estudos feministas, em particular, para as feministas norte-americanas. E a razão, há uma razão para isso, é que Nietzsche faz um questionamento permanente do essencialismo. Então, assim como se revolta contra a ideia de natureza humana, ele vem combater a ideia de uma identidade feminina. E isso é muito interessante, porque ele permite, na verdade, diferentes configurações do feminino, permite que se pense em uma pluralidade de figuras femininas. Por outro lado, Nietzsche é extremamente conservador quando se trata do papel que a mulher tem de desempenhar na sociedade, na família, etc. No entender de Nietzsche, a mulher deve procriar, antes de mais nada. Belos corpos que serão, é o ideal grego aí na verdade, que deverão ter um espírito do pai. Então, a mulher é procriadora do corpo e apenas isso. A mulher deve se submeter inteiramente ao homem, a tal ponto que Nietzsche vai dizer que os homens devem tratar as mulheres como posse, assim como, no entender de Nietzsche, os orientais faziam. Bem, esse aspecto conservador foi durante muito tempo esquecido, não se levou em conta aqui no Brasil um Nietzsche conservador. Assim como ele tem essas posições em relação às mulheres, tem posições favoráveis à escravidão, tem, enfim, posições extremamente conservadoras mesmo. E esses aspectos não foram levados em conta porque, aqui entre nós, a imagem de Nietzsche que foi preponderante a partir, eu diria, do final da década de 70, meados da década de 70, foi o iconoclasta que chegava com a leitura dos franceses, a leitura de Foucault, de Deleuze, etc. E por essa razão não se levava em conta, nem mesmo se aventava a possibilidade de haver também um Nietzsche conservador. E foi muito interessante para mim fazer esse trabalho, porque o que procurei fazer foi justamente, como você bem notou, um estudo sistemático e passar em revista todos os livros de Nietzsche, a partir de “Humano, demasiado humano”, que é o primeiro em que há um capítulo específico sobre a mulher, até os últimos textos de 1888, tentando repertoriar todas as considerações ou reflexões de Nietzsche sobre as mulheres. Se há uma tônica ou uma perspectiva em comum entre as figuras femininas, não. Acho que nós temos diferentes tipos de mulher em Nietzsche, não é? Temos as emancipadas, e as emancipadas serão o seu principal alvo de ataque. E dentre as emancipadas, as mulheres que escrevem. Por isso gosto de brincar que as mulheres que escrevem livros são perigosas, no entender de Nietzsche. Mas temos também as figuras maternas que, enfim, nada mais devem fazer do que cumprir o papel que lhes cabe. E temos ainda as personificações femininas de entidades abstratas. O que quero dizer, por exemplo, em “Assim falava Zaratustra”, a vida é uma mulher, a sabedoria selvagem de Zaratustra é uma mulher, e daí por diante. Então temos diferentes tipos de mulheres. Por isso mesmo não há uma perspectiva em comum. Quanto às mulheres humanas, demasiado humanas, tenho a impressão de que, em relação a elas em particular Nietzsche é conservador.
Você mencionou que, na sua visão, parte dessa visão nietzschiana, principalmente aqui no Brasil, está vinculada com a recepção francesa. Na medida em que você escreve originalmente no francês, eu fiquei curiosa sobre como foi a recepção, ou seja, sobre esses aspectos misóginos ou essas problemáticas sobre o papel das mulheres no pensamento de Nietzsche.
Na verdade, estamos falando deste livro que foi publicado na França, se não me engano, em 2020. Tenho a impressão de que ainda não se percebia Nietzsche dessa maneira. Por outro lado, houve uma boa recepção do meu próprio livro nas discussões feministas que estavam ocorrendo na França.
No artigo “‘Educar os educadores!’ Nietzsche e o problema da educação”, você desenvolve a concepção de Nietzsche sobre a educação filosófica, demonstrando as críticas do filósofo ao ensino de Filosofia universitário voltado para a manipulação de sistemas filosóficos e suas críticas, em detrimento da reflexão e do espírito críticNa sua visão, como Nietzsche nos ajuda a pensar a educação filosófica universitária hoje?
É uma questão muito instigante, Camila. De fato, tenho a impressão de que a educação, o ensino da filosofia na universidade deveria visar, antes de mais nada, o desenvolvimento do espírito crítico. Deveria visar a ensinar aos estudantes, antes de mais nada, a ler nas entrelinhas, não o que está claramente exposto, mas aquilo que o texto dá a entender. E para tanto, é fundamental um corpo a corpo com o texto do filósofo. Antes de passar em revista os comentadores, a bibliografia secundária, etc. precisamos ter de nos haver com os textos filosóficos eles mesmos. E levando muito em conta as traduções, as edições. Fico abismada quando eu passo aqui pela Avenida Paulista e olho as bancas de jornal. Já falei a esse respeito, mas aproveito a oportunidade para voltar a falar. Vejo várias capas de textos que, em princípio, deveriam ser de Nietzsche ou que se apresentam como sendo de Nietzsche enfileiradas ali. A pessoa vai, compra e acredita que está lendo Nietzsche, mas não está, porque são traduções de 18ª categoria. Então, não é Nietzsche que está ali. Esse critério em relação à tradução ou às traduções dos textos filosóficos é fundamental também no ensino da filosofia na universidade. Bem, além disso, há toda uma técnica, por assim dizer, que precisamos aprender. É a articulação lógica das ideias e o uso rigoroso dos termos filosóficos. Se tomarmos um termo qualquer, intuição, sabemos que em Descarte ou em Kant, tem sentidos distintos. Então, começamos a ficar desconfiados, e a desconfiança é uma atitude filosófica por excelência. A desconfiança em relação ao texto, que vai fazer com que você leia o texto nas filigranas, a desconfiança em relação à sua própria escrita, em que você vai estar atento para a articulação lógica das ideias, para o uso rigoroso dos termos, enfim, é esse desenvolvimento do espírito crítico. A meu ver, esse seria o ponto fundamental.
Recentemente você tem trabalhado com o pensamento de Lou Andreas-Salomé. Como foi o encontro com o pensamento de Salomé? Poderia comentar sobre como Salomé desenvolveu uma filosofia do feminino?
O encontro com Lou Andreas-Salomé, na verdade, se deu na França, porque fui convidada para participar de uma banca de doutoramento sobre Lou Andreas-Salomé. E justamente para poder participar da banca, eu me dediquei a ler Lou Salomé. Claro, era o mínimo que eu podia fazer. Uma tese de doutorado muito bem-sucedida. Enfim, espero vivamente que a autora da tese venha a publicar pelo menos uma parte dela. E a partir daí, eu me interessei muito pela Lou Andreas-Salomé. Fui convidada também a escrever um artigo que foi publicado lá numa revista francesa, participei de um colóquio lá, vou participar de outro agora em abril, e fui aprofundando cada vez mais o contato com Lou Andreas-Salomé. E é muito interessante, porque Nietzsche num determinado momento vai escrever para uma amiga que ele e Lou têm em comum; a Malwida von Meysenbug, vai dizer que espera ter em Lou uma discípula e uma herdeira do seu pensamento. Naquele momento era só Lou von Salomé, ela não tinha se casado ainda, depois ela assumiu o sobrenome do marido. Mas Nietzsche esperava ter em Lou von Salomé uma discípula e uma herdeira do seu pensamento. Mas de forma alguma. Tenho a impressão de que Salomé levou muito adiante algumas questões em relação às quais, como já observamos aqui, Nietzsche assumiu posições conservadoras. Ela era um espírito, uma mulher germano-russa, absolutamente independente. E na Rússia, onde nasceu e foi educada, era comum que as mulheres tivessem grande independência e liberdade em relação aos costumes. Foi assim que Lou se apresentou na Europa. O encontro entre Nietzsche e Lou se deu em 1882. Lou tinha 21 anos e Nietzsche 38 anos. Tiveram uma breve convivência, intensa, mas breve. E a partir daí, Lou seguiu o seu caminho, e de uma maneira absolutamente extraordinária; escreveu muitíssimas peças de teatro, histórias infantis, textos de psicanálise, se formou com Freud, foi uma das primeiras mulheres psicanalistas na época, frequentando os congressos de Viena, enfim. E sempre com uma independência de espírito e uma liberdade invejáveis. E enquanto se falava da sexualidade masculina e apenas da sexualidade masculina, quando eu digo que Lou na verdade desenvolve uma filosofia do feminino, é porque ela passa a falar também da sexualidade feminina e se recusa, por exemplo, a entender a maternidade como uma recepção passiva, assim como se recusa a considerar a mulher como um apêndice do homem. Ideias que estavam em voga ainda no início do século XX.
Era a verdadeira mulher emancipada.
A verdadeira mulher emancipada, sem sombra de dúvida, tanto do ponto de vista intelectual quanto do ponto de vista pessoal.
Vou fazer uma pergunta talvez difícil agora, mas dentre os seus trabalhos, quais você indicaria para quem quer conhecer um pouco melhor a sua pesquisa?
É, de fato, difícil essa pergunta. Diria que para alguém que fosse entrar em contato pela primeira vez com a filosofia de Nietzsche, sugiro “Nietzsche, filósofo da suspeita”, que republiquei agora há 2 anos, em 2024, pela Editora Autêntica. O primeiro foi “Nietzsche e as mulheres” pela Autêntica. O primeiro foi em 2022, o segundo em 2024. Em geral, a gente pensa que um texto introdutório é um texto de maior facilidade na elaboração. É um engano, porque é um texto que não pode perder o rigor, mas que, por outro lado, tem que ser bastante acessível. “Nietzsche, filósofo da suspeita” foi o meu quarto livro introdutório; eu já tinha feito três antes e decidi proceder de uma outra maneira. Decidi desconstruir os preconceitos que se tem ainda hoje em relação a Nietzsche, como por exemplo, Nietzsche tomado pela loucura, Nietzsche precursor do nazismo, enfim, todos esses preconceitos, procurei desconstruir por dentro, para mostrar um tanto da filosofia de Nietzsche. Então, para mim foi um exercício muito interessante, foi realmente muito interessante fazer esse processo. Ao invés de contar “bom, Nietzsche pensava assim e assado”, dizer: "Vejam só as diferentes imagens de Nietzsche que foram criadas, e vamos tentar nos desfazer desses preconceitos”. A partir do exame do próprio texto de Nietzsche, claro. Então, seria esse. Agora, a minha pesquisa, como resultado de pesquisa, “Nietzsche: Das Forças Cósmicas aos Valores Humanos” (1990), que está esgotado, chegou a uma terceira edição. Também “Nietzsche e a arte de decifrar enigmas: treze conferências europeias” (2014), de que gosto muito. Gosto desse livro, porque na verdade trago uma interpretação de cada uma das obras publicadas por Nietzsche ele mesmo. Então, cada capítulo traz uma reflexão sobre uma das obras publicadas pelo filósofo desde O nascimento da tragédia até os textos de 1888. E esse livro é justamente o resultado também das conferências que dei na Europa. Então, esses textos são textos que já submeti à apreciação de outros colegas de lá, não é? E isso também é interessante, é importante, porque houve diálogos, muitos diálogos para eu chegar à elaboração desse livro.
Quais são seus projetos para o futuro? O que podemos aguardar?
Tenho um novo livro, daqui uma semana já deve estar nas livrarias. Na verdade, eu gostaria de falar desse livro e gostaria de falar dos meus dois projetos futuros. Acredito que a cada dois anos, se tenho a oportunidade de passar dois ou três meses recolhida, só pesquisando, portanto 6 meses por ano, é possível apresentar um novo livro. Tenho essa possibilidade agora, como não tenho mais exigências de caráter administrativo na universidade, então é possível fazer pesquisa e difundir os resultados de pesquisa, como estamos fazendo hoje para minha grande alegria. Bem, então o título é “Nietzsche e a obra por fazer: Zaratustra”. Eu comecei a trabalhar sobre Assim falava Zaratustra em 1989, faz muito tempo. Tinha um projeto, comecei fazendo encontros com alguns estudantes, enfim, fomos lendo o livro. Depois de ter lido o prólogo, me pareceu viável um estudo filosófico do livro. Dos livros de Nietzsche me parece que esse é o mais hermético, o mais controvertido, o de mais difícil acesso. Mas depois, esse projeto passou, abandonei em vários momentos, retomei, pensei fazer uma edição comentada, achei que não havia público para isso, que não era o caso. Enfim, até que tive a oportunidade de passar um ano fora nesse tal ventre da terra, como eu disse agora há pouco, na Biblioteca Nacional da França. E saiu o livro. Então, por que “Nietzsche e a obra por fazer: Zaratustra”? É que defendo uma tese diferente da maioria dos comentadores do livro. Em geral, os comentadores do livro pensam que a ideia central é a ideia do eterno retorno do mesmo. E eu defendo uma outra ideia. A mim me parece que o problema filosófico com que Nietzsche tem de se haver ao escrever o seu Zaratustra é a transvaloração de todos os valores. E montei o livro em oito capítulos. Mais um posfácio, a introdução, claro, em que eu procuro passar em revista o estado da arte, a fortuna crítica e, depois, oito capítulos. Os três primeiros dizem respeito à elaboração de Assim falava Zaratustra, que foi interrompida, retomada, é um livro em três partes ou em quatro partes, como isso funciona, etc. Depois outro capítulo sobre quem é Zaratustra. E um terceiro capítulo sobre a relação de Zaratustra com os seus discípulos, o que é muito importante, porque isso tem a ver com a relação de Nietzsche com seus leitores. Depois desses três capítulos, que são preparatórios, a partir daí, os cinco seguintes são uma tentativa de esmiuçar esse problema filosófico, de que maneira ele vai se dando, não só nas transformações da personagem central, que é a do próprio Zaratustra, mas também na transformação do que ele tem a dizer para desembocar, no oitavo e último capítulo, que é precisamente a obra por fazer. Porque, no meu entender, Nietzsche não realizou aquilo que ele esperava realizar com Assim falava Zaratustra, a transvaloração de todos os valores. Meu livro, Nietzsche e a obra por fazer; Zaratustra, está saindo agora juntamente com uma nova tradução de Assim falava Zaratustra, com a minha revisão técnica, publicado também pela Autêntica. E os dois livros vão sair juntos num box e ainda com capa dura, realmente vai ficar muito bonito. Tenho acompanhado muito de perto toda essa gestação. E vai sair ainda, eu estava vendo agora com o designer gráfico, que é excelente, vai sair ainda um caderno com imagens. Ele pediu que eu escolhesse, e escolhi as imagens do momento em que Nietzsche elaborou o seu livro para colocar o leitor um tanto em contato com a atmosfera dos lugares por onde ele passou, dos hotéis em que ele ficou hospedado, as pensões, etc. É isso. Quanto aos meus projetos, eu teria dois. tenho um projeto que já está em curso, eu diria. Preciso de mais um tempo, mas está em curso, que é “Nietzsche e a ideia de religião. O Anticristo, Zaratustra, Dioniso”. Zaratustra, considerado pelo próprio Nietzsche como um quinto evangelho. O Anticristo, a crítica ao cristianismo. E Dioniso para verificar se há uma religião dionisíaca ou algo dessa natureza. E um outro projeto, e não sei na verdade sobre qual deles vou me debruçar primeiro, um outro projeto que é Lou Salomé. Nietzsche e Lou Salomé, claro. Sairá em livro, porque trabalhei muito a respeito e tenho muita coisa acumulada aqui, mas não sei ainda o que eu vou fazer antes, qual vem primeiro vai depender de onde estiver o meu coração.
Para finalizar…. Como é ser uma Filósofa?
Camila, ser uma filósofa, na minha maneira de ver, como sinto, como vivencio, isso não é de forma alguma receita. É a minha vivência, a minha vivência em toda a minha singularidade. Ser uma filósofa é ter consciência de que pertenço a uma família que é a humanidade, que moro numa casa que é o planeta Terra, que, enquanto tal, dadas as escolhas que fiz em toda a minha vida, sou um canal de difusão de conhecimento, porque se guardasse só para mim o conhecimento, ele seria estéril, de nada serviria. E que eu continuasse a procurar conhecer o mundo em que vivo e, se possível, ter forças para combater as injustiças que nele existem.