Por que Filosofia? Você se recorda de como e quando escolheu o curso?
Primeiro quero agradecer, dizer do prazer que é poder estar aqui com vocês. Admiro muito a Camila e os projetos que ela tem desenvolvido, e esse é mais um deles que acho é muito importante para todas nós que sabemos filosofia e fazemos filosofia. E eu me recordo sim, eu sempre brinco com isso. Eu me lembro muito bem de, no primeiro semestre, ouvir todos os meus colegas falando sobre o quanto eles buscavam autoconhecimento e todas essas coisas bonitas. E eu lá com 17 anos, a verdade mesmo é que eu não sabia muito bem o que eu queria fazer da minha vida naquela idade. Eu sabia que eu gostava de humanidades, e que eu queria sair de Santo Ângelo. Esse era um objetivo bem importante. E aí, eu olhei lá na lista os pontos de corte dos cursos e filosofia era um dos mais baixos. E eu pensei, filosofia não tive na escola, mas parece ser uma coisa que eu vou gostar. Não tinha tido muito contato com filosofia até ali, mas eu sabia que meu negócio era humanidades. Aí, eu fui ver qual que era, e de alguma maneira deu certo. Com todos os atravessamentos que teve nesse caminho, com todos os percalços e dificuldades, eu sempre persisti, eu insisti, fui ficando e eu acho que foi mesmo um processo de resistência, sabe? Teve um pouco a ver com teimosia também, de continuar nesse espaço que, no fim das contas, eu sempre achei que não parecia muito ser um espaço para mim. Era um espaço com o qual eu não me identificava em muitos momentos. Várias vezes eu me perguntei o que eu estava fazendo nesse lugar que parecia não ser o meu, mas eu insisti em ficar, e hoje depois de tantos anos, 23 anos já, eu acho que eu consegui me encontrar nesse lugar. E me encontrar na filosofia tem muito a ver com todas essas iniciativas de mulheres, como a Camila, e várias outras, que tem tomado à frente para que a gente possa sentir que esse é um espaço nosso também.
Nos conte como foi sua experiência na graduação? Você consegue pensar em pessoas e autores que foram referências ou em algum momento marcante para sua trajetória acadêmica?
Eu acho que a minha experiência como graduanda em filosofia foi parecida com a de muitas outras mulheres. Foi uma experiência de não me sentir muito pertencente a esse lugar. E confesso que talvez na época, nem sabia identificar muito o porquê disso, mas percebia que não me enquadrava ali, parecia ser um espaço que não era para mim. E hoje eu consigo perceber que isso tinha muito a ver com o fato de ser um espaço muito masculino. Eu tinha uma professora mulher na graduação, que era a professora Elisete Tomazetti. Ela não estava no Departamento de Filosofia na época, mas ela migrou para o departamento para assumir esse desafio de trabalhar com os estágios. A gente está falando de 2003, que foi quando eu entrei na graduação, até 2008, quando eu concluí a graduação em filosofia, e eu acho que era bem complexo, sabe? Bem difícil. Eu tinha essa sensação de não pertencer àquele espaço. Eu não estudei filósofas mulheres na graduação. Eu me lembro de ter estudado uma filósofa, que foi a Susan Haack, a gente leu um texto dela na disciplina de História da filosofia contemporânea, com o Professor Robson Ramos. Mas não lembro sequer de ter lido textos de Hannah Arendt ou Simone de Beauvoir, que são as filósofas mais consagradas, digamos assim. Também via um departamento majoritariamente masculino, a maioria dos colegas eram homens, e talvez isso tenha feito com que por muito tempo eu pensasse em migrar para a educação, para fazer esse debate sobre ensino de filosofia, que era um espaço em que eu me sentia talvez mais acolhida. Foi uma experiência difícil. Hoje eu consigo perceber - na época não conseguia - mas em relação ao debate filosófico, principalmente, eu não me reconhecia naquele tipo de debate, em que eu tinha que refutar o outro. Eu sempre compreendi muito mais o debate como compreender o ponto de vista do outro. E foi só muito recentemente que eu me dei conta que esse também é um tipo de debate possível, mas na época não me parecia. Então, eu tentava ficar me enquadrando, e tudo isso tornava esse lugar um lugar difícil, um lugar de não pertencimento. Outra coisa é que eu sempre fui uma pessoa que me envolvi com lutas políticas e movimentos sociais. E isso também não era uma coisa bem vista, eu sempre escutava que o filósofo era neutro e que ele tinha que fazer a análise de fora, sem se envolver com os movimentos sociais. E isso tudo era algo que para mim não fazia o menor sentido. Então, também tornou essa trajetória inicial na filosofia complexa. Neste momento em que estamos buscando nosso lugar, e não sabemos muito bem que espaço vamos ocupar, eu tinha a sensação de que fazia tudo errado, que ia contra tudo aquilo que se esperava de um “filósofo”.
Como você se descreveria enquanto estudante?
Eu não fui uma estudante exemplar. Rss. E por isso talvez eu entenda muito as estudantes e os estudantes que eu tenho hoje, pois são as fases da vida. Acho que eu sempre tive essa relação de amor e ódio, então, eu não tinha a disciplina que eu gostaria de ter tido, sabe? Talvez tenha muito a ver com esse não pertencimento. Mas acho que fui a estudante que pude ser na época. E depois eu fui descobrindo alternativas, encontrando metodologias para pertencer de alguma maneira.
E quanto à sua entrada na pós-graduação, o que você achou do processo de se tornar pós-graduanda?
Então, eu comentei antes que eu tinha essa ideia de migrar para educação, e isso foi uma coisa que sempre me acompanhou. Inclusive, foi fundamental para me formar enquanto docente, porque foram questões que sempre fizeram parte do meu processo formativo, de acompanhar, buscar e pensar sobre a docência. O meu primeiro processo seletivo para ingresso na pós-graduação foi na Educação, e entrar no mestrado em filosofia foi um segundo momento. Eu não fui aprovada no primeiro processo seletivo, para o mestrado em Educação. E aí eu fui para a epistemologia. A epistemologia surge na minha vida como uma segunda opção, depois de não ter sido aprovada nesse programa de pós-graduação em Educação. Mas eu fui abraçando aquilo que foi surgindo, de certa forma já existia uma identificação com aquelas temáticas. Também não foi um processo simples. Foi complicado no sentido de ter essa questão do não pertencimento, de não me ver como fazendo parte daquele espaço. Eu acho que muitas de nós mulheres sentimos isso na filosofia, de estar ocupando um espaço que não é nosso e se sentir meio impostora. Sentia que estava sempre devendo, que nunca tinha lido o suficiente, nunca sabia o suficiente. Mas pensando ao longo da minha trajetória, é interessante que quando eu saio do mestrado e vou fazer o doutorado, eu vou trabalhar com a questão da confiança e da autoconfiança epistêmica. E aí, eu vou me dando conta do quanto isso é uma coisa que me atravessa de todos os modos, porque me falta essa autoconfiança. E quando eu saí do mestrado, depois de ter trabalhado durante esse tempo com epistemologia analítica, eu sentia que continuar nessa área, persistir na filosofia analítica, também tinha um um aspecto de resistência. Porque eram poucas mulheres na área, e era uma área em que o discurso da neutralidade e de um sujeito universal, de um sujeito descorporificado, era muito forte. Então, seguir na filosofia e na epistemologia analítica passou por esse processo, já mais consciente, de resistir a esse discurso, e produzir pesquisa, produzir conhecimento de um lugar, que é o lugar de uma mulher que quer fazer filosofia.
E quanto à sua entrada na Pós-Graduação? O que você achou do processo de se tornar pós-graduanda?
Passa por um lugar de saber um pouquinho mais dos percalços da filosofia analítica para filósofas. A graduação, na UFSM, tinha essa característica interessante de tu ir direcionando a tua formação para aquilo que te interessava mais, escolhendo as disciplinas. Era um currículo bem aberto nesse sentido, tinha algumas disciplinas obrigatórias, mas eram poucas, e aí tu ia direcionando para aquilo que pretendia pesquisar. E eu tinha essa questão da educação e do ensino de filosofia, eu sempre fui buscando disciplinas que iam ao encontro disso, mas também fui fazendo disciplinas que se voltavam para epistemologia. As questões da Educação continuam me acompanhando até hoje. Mas as questões da epistemologia analítica, também sempre fizeram parte da minha formação básica, dos diálogos na pesquisa, na Iniciação Científica, que eu fui desenvolvendo. E aí, no mestrado eu me direcionei mais para isso e me apaixonei verdadeiramente, mas ainda sentia essa sensação de não pertencimento, não encontrava exatamente o meu lugar ali. Mas, decidi seguir, e isso se tornou importante, se tornou esse sinônimo de resistência, de permanecer nesse espaço que era um espaço muito masculino, e que eu tinha dificuldade de permanecer. Então, eu entrei em contato com outros grupos, entrei em contato com o grupo de epistemologia da PUCRS através do professor Sartori, que tinha feito seu doutorado ali e que me apresentou o professor Felipe Müller, que foi meu orientador no doutorado. Ele me trouxe um artigo e disse assim: "Ah, eu vi que na sua dissertação o teu interesse se volta bastante para temáticas como essas aqui que essa autora desenvolve”. E a autora era Miranda Fricker, que é uma das autoras que eu estudo até hoje. Ali eu tive uma definição de que era por aquele caminho que eu queria seguir, porque eu vi a Fricker falando de feminismo dentro da epistemologia analítica. Naquele momento eu encontrei esse lugar que eu tanto buscava, e vi a possibilidade de desenvolver uma pesquisa que não era desenvolvida nos departamentos de filosofia brasileiros. Tinha uma resistência gigantesca para que esses temas adentrassem a epistemologia analítica. E acho que foi isso que me estimulou a seguir. Esse artigo foi um primeiro contato com a Fricker, era um artigo de 1998. Depois ela lança o livro Injustiça Epistêmica: o poder e a ética do conhecimento, em 2007, quase 20 anos atrás. E eu estava terminando o meu mestrado em 2010. Então, esse livro já tinha uns anos, mas ele era ignorado dentro dos debates em epistemologia analítica, e continuou sendo por um longo período ainda. Durante o tempo em que eu fiz o meu doutorado, ele foi ignorado, era um debate muito difícil de ser colocado, mas eu tinha muito esse interesse. A gente vai tentando, vai comendo pelas beiradas, inserindo esses debates da maneira possível. E é muito legal ver que hoje esse é um tema que adentrou a epistemologia analítica e a extrapolou, inclusive. Está sendo estudado no Direito, na Educação, na saúde, em várias outras áreas. Enfim, é uma experiência bem legal.
Qual sua pior experiência acadêmica?
Foram tantas! Rss. Mas de maneira geral a pior experiência se inicia na graduação com esse discurso de que filósofos seriam neutros. E aí, falando no masculino mesmo, porque eu acho que era muito restrito o espaço que as mulheres tinham. Então, durante a graduação eu ouvi coisas como: “não existem mulheres inteligentes no curso”. E ouvi durante toda a graduação que filósofos eram neutros e não deviam se envolver com política. Mas segui insistindo nessa ideia de que sim, somos políticas. E continuei escutando isso durante minha pós-graduação, que essas temáticas não eram interessantes para a epistemologia, porque o conhecimento seria universal, descorporificado e livre de influências políticas e sociais. Acho que essa foi a experiência mais difícil e me atravessou de vários modos, tanto num discurso teórico quanto em uma série de práticas que vamos vivenciando no decorrer da nossa vida de pós-graduandas em filosofia. Passei por muitos momentos de silenciamento e descredibilização. Tive uma experiência muito chata no encerramento de um evento internacional de filosofia, no qual a ideia era falar um pouco sobre a minha pesquisa em epistemologia feminista, e fui atacada abertamente por um professor que se sentiu ofendido quando eu disse que, enquanto mulher, eu vivenciava o silenciamento. E o que ele fez foi me silenciar naquele espaço. Ele reproduziu justamente aquilo que eu estava falando, deu um exemplo bem prático disso. Mas foram muitos momentos assim, e são momentos que ainda são difíceis de pontuar, porque ainda existe medo de retaliação. Se eu for falar aqui de momentos específicos, as pessoas podem se reconhecer como autoras dessas violências. E aí, a gente sabe que vão ter (mais) portas se fechando.
Qual foi a sua melhor experiência?
Teve muitas experiências boas, e todas elas têm a ver com esses espaços de resistência que fomos produzindo. Os encontros com outras mulheres que também fazem filosofia. A Rede Brasileira de Mulheres Filósofas foi um marco muito importante para todas as pesquisadoras em filosofia por consolidar esse espaço de segurança que tanto precisávamos. O encontro do grupo de estudos mulheres na filosofia, o GEMF, foi uma experiência muito interessante. Eu participei de dois eventos do grupo, em que a gente fez interlocuções só entre mulheres. E foi um espaço em que eu me senti muito mais à vontade, muito mais segura para dialogar. Encontrar a Camila (coordenadora do projeto) na PUCRS, falando sobre feminismo dentro de uma pós-graduação em filosofia. E depois, a Renata Guadagnin, a Anelise De Carli, a Marloren Miranda, que são colegas da PUCRS, que estão ali dentro do programa de pós-graduação, que foi onde eu fiz meu doutorado, e era outro espaço que não tinha mulheres até então. As trocas com minhas colegas Bruna de Oliveira Bortolini e Cinthia Roso Oliveira, na universidade onde trabalhei. Esses encontros foram os momentos mais interessantes, poder falar de feminismo e ver que o feminismo começa a adentrar a filosofia por uma luta constante de muitas mulheres, que proporcionaram esses espaços de pertencimento depois de todas essas décadas na filosofia.
Se você pudesse voltar no tempo e se dar um conselho naquela época, de estudante, qual seria?
Eu acho que eu diria para mim mesma que um dia eu ia me encontrar nesse lugar. Eu pensei muitas vezes em desistir, e se eu pudesse dizer alguma coisa para a Patricia, eu diria: “Segue firme, porque um dia o que tu ama estudar, o que tu acredita e aquilo pelo que tu luta, vai ser reconhecido como filosofia. Tu vai encontrar um espaço, tu vai encontrar interlocutoras, e tudo isso vai fazer sentido”.
Sua pesquisa se centra, de forma geral, na Epistemologia Feminista. Na sua visão, qual a importância da abordagem feminista para os debates em epistemologia?
Passa por tudo isso que eu falei. De maneira prática a gente percebe como as mulheres, não só na área da filosofia, mas na academia como um todo, sentem que aquele espaço é um espaço que elas não conseguem ocupar muito bem. Se sentem deslegitimadas nas suas falas, se sentem desacreditadas. A epistemologia feminista está aí para dar um embasamento teórico, e nos ajudar a compreender que NÃO, a gente não é louca, não está imaginando coisas; está realmente vivenciando isso. Mas é preciso resistir das formas possíveis e continuar lutando para que as nossas vozes sejam ouvidas, para que o nosso conhecimento seja considerado. E encontrar esses espaços em que possamos produzir conhecimento e sentir que ele é validado, junto com outras mulheres. Acho que isso tem uma importância fundamental para todas as mulheres que buscam ser pesquisadoras. E para além da academia, sentimos que a nossa voz não é ouvida em muitos outros espaços. Inclusive, quando denunciamos as violências que sofremos. E a epistemologia feminista vai dar um embasamento teórico pra compreendermos porque que isso acontece, e vai nos ajudar a pensar essas questões.
Em um artigo recente, você trata sobre a Epistemologia do Testemunho a partir do viés de gênero no caso de agressão sexual. Poderia comentar sobre como vê o impacto epistêmico de descredibilidade na vida de mulheres?
O impacto, inclusive, é difícil de ser medido, porque muitas mulheres acabam optando por não levar adiante denúncias pelo silenciamento e descredibilização que sofrem, fazendo com que uma série de agressores saiam impunes. Fazer uma denúncia é saber que você vai ser questionada. Pensar sobre essas questões, e embasar isso teoricamente, nos auxilia a perceber não só que essas coisas acontecem o tempo todo, mas pensar alternativas para isso. Pensar como poderíamos encontrar maneiras de corrigir essas injustiças. E eu acho que é fundamental, porque tem a ver com algo muito básico, que é o nosso direito de contar a nossa própria história e de narrar as nossas vivências. Fazer isso por nós mesmas, sem ser sempre desacreditadas em relação a essas situações. É um caminho muito difícil, é parte constitutiva da nossa luta.
Você realiza estágio pós-doutoral no Instituto de Ciência e Tecnologia Inteligência Artificial e Sustentabilidade da PUCRS. Na sua visão, como a filosofia, e especialmente, a epistemologia, contribuem no debate sobre os desafios e impacto da IA?
Eu olho principalmente para como as injustiças que a gente já vivencia em sociedade hoje são potencializadas a partir da inteligência artificial. O treinamento dos algoritmos reproduz uma série de vieses, que são parte constituinte da estrutura social, que é injusta com as mulheres e com grupos subalternizados, como LGBTs, negros e negras, pessoas não brancas em geral. Pontuar isso é essencial, porque o discurso majoritário sobre inteligência artificial tende a reproduzir a ideia de neutralidade, objetividade, da qual a gente falava lá no começo, de que o filósofo tem que ser neutro, o cientista tem que ser neutro. E daí, agora a inteligência artificial vai ser a solução para esse problema porque o algoritmo seria (supostamente) neutro e objetivo. Mas ele não é, ele reproduz todos esses preconceitos que estão na base da sociedade e, consequentemente, do conhecimento científico. E a epistemologia pode contribuir com esse debate pautando critérios epistemicamente mais justos para formulação e avaliação desses sistemas. Do contrário, eles vão reforçar uma série de injustiças epistêmicas.
Sabemos que as mulheres permanecem sendo minoria na filosofia, contudo, a Filosofia Analítica se destaca como um campo ainda bastante masculino. Como a participação e pesquisas de filósofas analíticas têm impactado essa área em específico?
Quase duas décadas de pesquisa na área me permitem perceber transformações significativas. Hoje temos mais mulheres dentro da filosofia analítica que se posicionam e se identificam como feministas, que pautam essas questões. Isso transformou o debate. Em epistemologia analítica, apesar de ainda termos uma série de epistemólogos tradicionais que negam que epistemologia feminista seja epistemologia, já se tornou até meio ridículo negar a relevância desses debates. De forma geral, as mulheres conseguiram transformar a pesquisa em filosofia analítica pautando questões referentes a uma filosofia mais aplicada, que abandone essa ideia de um sujeito universal descorporificado e neutro, que traga questões da prática vivida. Isso é fundamental para que a filosofia não seja só uma coisa de gabinete, discutida apenas entre homens sem consciência dos próprios privilégios e sem contato com a realidade. Eu penso que esse é o papel que as mulheres têm desempenhado na área. E, isso torna mais atrativo para as mulheres ingressarem no campo.
Dentre seus trabalhos, quais você indicaria para quem quer conhecer melhor sua pesquisa?
Difícil falar do que a gente produz. Mas, tem um texto chamado Mulheres na Epistemologia: Contribuições Feministas, que foi publicado no livro Filosofia por Elaes, organizado pela Renata Floriano de Souza e pelo Norman Madarasz, saiu pela Editora Fênix, no qual eu busco apresentar o desenvolvimento histórico da epistemologia feminista, que pode ser interessante para quem está querendo adentrar o debate. Tem um texto que eu publiquei na PRACS, uma revista da Universidade Federal do Amapá, que se chama “Breves considerações sobre a distinção entre sexo e estupro a partir da teoria do ponto de vista” (2023). E sobre Injustiças Epistêmicas tem o “Estereótipos Preconceituosos de Gênero e o Déficit de Credibilidade a Testemunhos de Mulheres em Casos de Agressão Sexual”, publicado na REVISTA OPINIÃO FILOSÓFICA.
Quais são seus projetos para o futuro? O que podemos aguardar?
Como eu estou nesse estágio pós-doutoral, olhando um pouco mais para essas questões da inteligência artificial, estou pensando em produzir algumas coisas sobre injustiça epistêmica algorítmica. É o que tem chamado mais minha atenção nos últimos tempos, e ali no INCT da PUCRS, a gente tem conseguido umas trocas interessantes. Então, a ideia é seguir nessa perspectiva das injustiças epistêmicas, mas pensando na reprodução via inteligências artificiais, em especial as inteligências artificiais generativas.
Para finalizar…. Como é ser uma Filósofa?
Uma vez fui numa comunidade indígena, e um amigo meu fez uma pergunta parecida com essa para o pessoal lá: como é ser indígena hoje? E a resposta foi tão significativa que eu vou transpor ela aqui, guardando as devidas proporções: é preciso resistência e resiliência! Eu fiquei muito com isso na cabeça. E eu penso que para ser filósofa também é preciso resistência e resiliência. Uma resiliência ativa e transformadora, sempre. Temos que estar sempre nos colocando nesses espaços dos quais querem nos tirar e entendendo que, como já disse Simone de Beauvoir, nossos direitos nunca estão garantidos. Não dá para pensar que os espaços que conquistamos até aqui estão ganhos. É preciso sempre reforçar que esse lugar também é nosso e ocupá-lo. Abrir cada vez mais o campo para que nós, e outras mulheres, possamos permanecer. E forçar as fronteiras, esgaçar os limites impostos. Ser filósofa é uma luta constante!