Para começar, por que Filosofia? Você se recorda de como e quando escolheu o curso?
Eu lembro perfeitamente quando escolhi, porque foi uma coisa assim: sair do ensino médio, escolher uma graduação. É um momento muito difícil da vida, né? Você pensa: " O que é que eu vou fazer?”. Você tem que ter um compromisso. Você vai para faculdade, você vai se tornar um profissional. Então, você tem que se comprometer pro resto da vida com uma determinada coisa. Isso é um pouco assustador quando você não sabe bem o que eu quer fazer na vida, né? Então, eu lembro muito dessa fase de “o que eu vou fazer?”. E, por um lado, eu poderia fazer várias coisas, no ensino médio sempre fui muito bem nas disciplinas, não tinha dificuldades, mas por outro lado não tinha nada que me brilhava os olhos: “Isso eu quero fazer!” mais do que as outras coisas. Então, eu não sabia mesmo o que fazer. Era uma grande incógnita. Só que eu tinha que fazer faculdade perto da minha casa, não tinha outra opção. E a faculdade que tinha perto, tinha um um leque de cursos. E aí eu fui ler o guia de estudante em que tinha os curso que eu poderia fazer lá. Aí, eu fiz, assim: “aqui não, isso aqui não, isso aqui não” (risos). Foi uma eliminação. E aí, eu olhei Filosofia. Eu nunca tinha estudado Filosofia, não tinha Filosofia no ensino médio. E eu li a descrição ali do guia do estudante e falei: "Isso aqui eu acho interessante!”. Não lembro exatamente o que a descrição dizia, mas era uma coisa sobre questões fundamentais da realidade, da existência. Falei: "Ah, acho que é aí que eu vou, vou ver sobre o que se trata". E foi assim que eu escolhi a Filosofia!
Nos conte como foi sua experiência na graduação? Você consegue pensar em pessoas e autores que foram referências ou em algum momento marcante para sua trajetória acadêmica?
Foi muito difícil a graduação. Foi assim, um período da minha vida que… juro por deus (risos)! Nossa, eu quase larguei. Todo ano eu pensava em largar a graduação, fazer outra coisa. Todo ano eu falava: “eu não aguento mais!”. Eu tinha bastante dificuldade na graduação, tinha dificuldade de entender o ponto, o que era aquilo que estava sendo feito, qual era a relevância daquilo que estava sendo discutido, como aquilo ia servir para alguma coisa, dificuldade de me apropriar dos debates, sabe? Eu não larguei a graduação porque eu não sabia o que mais eu faria. Aí eu voltaria para o mesmo ponto que eu estava ali antes de prestar vestibular, né? O processo de eliminação nas opções do livro do estudante. "Bom, então tá, então vou ficar por aqui" (risos). E aí terminei a graduação. Comecei a ler várias coisas, foi muito difícil, eu estava triste. Eu meio que comecei a flertar com questões de ética na época da graduação, porque era o que parecia ser mais diretamente relevante pro dia a dia, né? Mas eu também tive bastante dificuldade, porque muitas das questões de ética, eu tenho a sensação de que não tem resposta certa, não tem solução ideal. Têm diferentes visões. Hoje eu falo de um modo minimamente mais articulado, têm visões utilitaristas, têm visões deontológicas e outras, e qual que é o valor último ali é um pouco difícil de dizer. Então eu me senti meio perdida, embora eu achasse que era o que mais se aproximava ali do que eu achava que poderia ser relevante pra mim, fora daquelas discussões que eram ultra abstratas já no início da gradação. E aí eu terminei a graduação e falei: "Bom, vou trabalhar, né?" E aí fui dar aula no ensino médio. Fiquei três anos dando aula no ensino médio. Tive várias experiências diferentes, porque em cada semestre você tinha uma atribuição de aulas. Então eu dei aula em escolas muito legais e tive turmas muito legais. Fiz exercícios sobre Epistemologia e brincadeiras com sensibilidade; visão e erro; conhecimento, várias coisas. Foi muito legal, mas também tive experiências muito difíceis dando aula em escolas que não eram muito bem organizadas. O próprio funcionamento da escola era uma questão. Eu também sentia que eu não tinha tanto preparo para aquilo, sabe? Então, depois de um certo período dando aula no ensino médio, eu achei que queria voltar a estudar. E aí falei: "Então a solução é ir pro mestrado!" Eu peguei algumas coisas que eu tinha escrito lá na graduação, que era um pouco sobre Schopenhauer,. E eu comecei a assistir uma disciplina da pós-graduação antes de fazer de fato o projeto. Fiquei acho que quase um ano, dando aula no Estado e frequentando pós-graduação. Aí que eu conheci o Wittgenstein, e pensei “tá, aqui tem uma coisa que me interessa mais estudar!” E aí o meu projeto foi mais ou menos uma ponte entre umas coisas que eu tinha lido do Schopenhauer, eventuais influências do Schopenhauer no Wittgenstein, era mais ou menos esse o projeto. Também foi uma fase bastante difícil. Eu fiz um projeto, isso tudo na mesma universidade, que era ali perto de onde minha família morava. Eu acho que um professor não gostava muito de mim, na verdade. Tem isso, eu dava risada, as pessoas não gostavam muito do meu comportamento, era meio “inapropriado”, né? (risos). Com isso, eu falei: "Bom, aqui não vai rolar então, né? Que é que eu vou fazer? Ou será que eu vou mudar de área?" Eu tinha me interessado pelo Wittgenstein, certo? Então, fiquei pensando se teria que mudar de lugar? Eu falei: “será que esse projeto de fato é tão ruim que não tem condições? Pelo menos vou mandar para outro lugar para ver se eu tenho um outro parecer, né?” E aí eu mandei para outra universidade, que foi para a USP, e aí o projeto foi selecionado lá. Eu falei: "Ah, então não tá tão ruim” (risos). E aí eu falei: "Bom, então vou ter que me mexer, vou ter que ir para São Paulo!". E aí fui dar aulas no Estado em São Paulo, me mudei para lá e comecei a fazer mestrado. Demorou um tempo para sair uma bolsa, eu acho que foi quase um ano, que eu ainda dava aula e fazia mestrado, até que saiu uma bolsa. Foi aí que eu pude parar de dar aula e me dedicar só ao mestrado.
Como você se descreveria enquanto estudante?
Eu tinha dificuldade na graduação, não era uma boa aluna, não (risos). Tinha muito uma questão de decoro acadêmico, sabe? E eu nunca sintonizei muito com isso, em lugar nenhum. Então, por exemplo, em uma aula seríssima sobre Kant, eu muitas vezes não entendendo muito bem, levanto a mão para tentar fazer uma pergunta e começo a falar, mas aí dou risada. Então, sinto que todo mundo me olhava assim, “o que essa pessoa tá fazendo aqui?” (risos). Então, foi difícil. Eu não era uma aluna muito dedicada porque eu me sentia mal, ficava meio perdida e a motivação também era baixa. Então,eu não era uma aluna exemplar.
E quanto à sua entrada na Pós-Graduação? O que você achou do processo de se tornar pós-graduanda?
Pois é, foi assim meio errático também. Eu tive que mudar de cidade porque não tinha muito espaço na instituição em que eu estava. Então, já foi um processo um pouco difícil porque eu tive que me mudar para uma cidade grande. Meu Deus, São Paulo é uma loucura, né? E eu sempre fui do interior, então foi bem difícil. Mas foi relativamente tranquilo ali na USP, começar o mestrado. Em geral é meio difícil começar uma pesquisa assim, você tem um projeto, mas mesmo assim não é fácil. Eu também tive que trocar de orientador lá na USP, porque ocorreram alguns contratempos, mas aí depois o negócio engatou e fiquei fazendo a pesquisa. Era assim uma pesquisa sobre o que era aceitável dentro daquele contexto teórico, então, era pesquisa exegética, sabe? Era bem no sentido de debater o que foi dito, explicitar o que foi dito no parágrafo tal, sabe? Ver o que é que o comentador falou, o que o outro comentador falou, qual é a diferença de interpretação. Então, era bem massante. Eu fazia aquilo ali, e foram passando anos fazendo aquilo ali, e aí terminei o mestrado. Então também não foi uma fase muito boa assim, foi um período difícil, morando numa cidade grande, a bolsa não era lá essas coisas.
Qual sua pior experiência acadêmica e qual foi a sua melhor experiência acadêmica?
A pior eu acho que foi no primeiro seminário que eu dei na pós-graduação. Ai meu deus, eu estava tão nervosa, mas tão nervosa! Eu preparei tanto aquele seminário, estava tão preocupada que eu ia me perder, que eu preparei os slides e preparei o texto. E aí na hora de apresentar eu não conseguia alinhar o slide com o texto. Então você imagina como é que saiu a apresentação. Eu saí arrasada, não fui reprovada, pois eu acho que o professor viu o meu esforço ali. Mas eu lembro nitidamente até da atmosfera da sala, foi um dia difícil. Então, meu primeiro seminário foi bastante difícil. E uma disciplina de lógica também foi muito difícil. Nossa, como eu estudava. Eu pensava “ah, vou dividir, vou fazer a representação em cores diferentes”. Aí calculava tudo, fazia em cores, fazia demonstração e tal, “o que eu tô entendendo, o que eu não tô entendendo, por que eu não tô entendendo, o que é que falta”, etc. E aí, na hora de eu apresentar, eu cheguei com aquele negócio colorido e o povo também já, né, me olhando assim, que que essa daí está colorindo (risos). Ai, ai. E acho que minha melhor experiência foi quando eu fui fazer o doutorado sanduíche. Foi muito, muito, muito legal. Porque, assim, esse negócio de todo ano eu vou largar, isso ocorreu até o final do meu doutorado. No final do ano eu pensava “ah, não vou conseguir fazer isso”. E quando você tem bolsa já fica um pouco mais difícil, você não pode abandonar o negócio. Então, tem que terminar. Eu fui fazer o doutorado sanduíche e tive uma experiência maravilhosa, porque o professor que me recebeu lá era impecável, não tem o que falar. Ultra paciente, ultra atencioso, sabe? Metódico, no sentido positivo da palavra. E eu meio perdida, fazendo as coisas mais no feeling do que na metodologia. Até que ele “não, vamos lá, vamos passo a passo. Isso aqui, assim. Isso aqui, não”. Então, a gente tinha reuniões frequentes, eu com aquele inglês bem parco, macarrônico, pois foi a primeira vez que eu saí do país e que eu estava de fato falando. Eu demorei para aprender o inglês. E eu estava na Inglaterra. Então, imagina? Cheguei na Inglaterra com aquele inglês bem mais ou menos, assim. Claro, você tem que fazer um exame, passei no TOEFL. Era isso aí. E na hora que você chega no lugar para de fato conversar, com quem tem sotaque local, é difícil de entender. Então foi muito interessante porque de fato eu me senti respeitada, vista e ouvida nas minhas questões, inclusive nas minhas limitações, o que incluía um inglês meio macarrônico ali, né? Foi muito legal, foi muito bom. E aí que a minha pesquisa também começou a tomar direções que eram mais significativas para mim. E aí eu comecei a ter contato com o trabalho que ele desenvolveu a partir do Wittgenstein, em Filosofia da Mente e das Neurociências, e trabalhei com temas que eram do meu interesse, ali naquele nicho. Isso começou no final do doutorado e a minha atitude também começou a mudar nesse sentido. “Ah, isso aqui me interessa mais”, então eu vou sair de um nicho e vou percorrer outros caminhos. E aí foi o que comecei a fazer no pós-doutorado. Eu terminei o que eu tinha compromisso de fazer, e aí comecei a fazer pesquisas em temas que de fato me interessam mais.
Se você pudesse voltar no tempo e se dar um conselho naquela época, qual seria?
Eu diria para Nara, desistindo todo final de ano, “acredite, minha filha, você vai conseguir” (risos). Talvez um pouco isso, e também de não se apegue tanto aos momentos de dificuldade e de crise, né? Porque eles passam, eles vão passar. É estranho falar isso, porque quando você está no momento em crise, pode ser uma crise existencial, aquilo é muito intenso. Então, qualquer um que chega e fala: "Ó, não se apegue que isso vai passar". Você fala: "Ah, a pessoa não tá entendendo a profundidade do meu problema, né?” Então, eu me imagino falando comigo mesma, penso que eu ia responder para mim mesma: "Minha filha, você não sabe, você esqueceu já? Volta aqui na minha pele para você ver" (risos). Mas eu acho que tem uma verdade aí, nesse sentido de que a gente se apega muito aos nossos pensamentos, muitas vezes pensamentos tóxicos. E, também, aos nossos estados afetivos, assim, isso vale tanto para quando estamos tristes quanto alegres. Não adianta se entusiasmar demais, que isso também vai passar!
Como foi mudar de São Paulo para Rio Grande do Sul?
Ah, foi muito bom, muito legal. Gostei muito de vir para Santa Maria, eu gosto muito daqui! Eu morava no interior já, né? Eu já tinha voltado pro interior de São Paulo. Morei muito tempo na capital, cidade muito grande e tal. Então, era meio demais para mim, eu não sou uma pessoa de capitais. O trânsito.... muita coisa, sabe? Isso me sufoca um pouco. Então, o meu período morando em São Paulo, foi difícil. Quando eu vim para a UFSM, eu estava fazendo pós-doc na Unicamp, então já tinha voltado a morar em Campinas, que é menor um pouco, né? Mas mesmo assim. Eu vim para cá logo depois da pandemia também, e teve aquele momento longo de reclusão. E, enfim, foi muito bom vir para cá por várias razões, eu gosto muito do tamanho da cidade, ela é uma cidade acolhedora, as pessoas são acolhedoras. É difícil em São Paulo que ninguém olha na sua cara. Aqui todo mundo fala bom dia. Isso é muito legal! E, assim, ninguém olha na sua cara mesmo, até nos corredores da universidade, não é só na calçada, não, viu? Só amigos se cumprimentam. Então, pra mim, a universidade aqui também é muito acolhedora. O nosso departamento. Então, foi muito bom, não sei nem o que falar. Sou muito feliz aqui!
Falando em mudanças, como foi fazer a transição de tema de pesquisa após a conclusão do doutorado? Por que abandonou Wittgenstein?
Foi libertador, para falar a verdade, foi libertador. Eu estava ali trabalhando com as Investigações, um pouco com o Sobre Certeza e tal, mas o meu tema de doutorado era sobre o papel da filosofia. E aí eu fui para questões em Filosofia da Mente, em Filosofia das Ciências, Filosofia das Neurociências. Eu fui migrando. E aí, um mundo de possibilidades se abre, porque você tem mais conceitos, mais formas de ver, mais possibilidades de questões. Quando você está trabalhando na obra de um autor, você está de um certo modo limitado àquela obra, os seus recursos teóricos e conceituais, eles também são limitados, né? Você fica “Ah, isso é o que fulano entende por gramática, isso aqui é o jogo de linguagem, isso aqui…”, né? É como o Wittgenstein fala: "Os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo". Você fica naquele mundo limitado por aquele núcleo teórico. Então, foi libertador nesse sentido de, olha só, tem “n” outros conceitos, ferramentas e modos de fazer Filosofia. Aí eu fui migrando para Filosofia das Neurociências, Filosofia da Mente, mas sempre na intersecção com a Filosofia da Linguagem. Sempre foi mais ou menos o meu foco ali. É engraçado que quando a gente tá vivendo, a gente não tem clareza sobre o que tá acontecendo, mas quando a gente olha pro passado “ah, olha só, essa sementinha, ela já existia”. Eu sempre estava ocupada com questões relacionadas ao significado. Por que as coisas adquirem um significado determinado num determinado contexto? Por que há tantos mal entendidos? Por que tanta confusão? Por que há tanta briga? O que está acontecendo entre as pessoas? Então, essas questões sempre me interessaram, e eu fui de fato começar a trabalhar com isso de uma maneira mais empoderada já no pós-doutorado, já no segundo pós-doutorado, se eu não me engano.
Você se lembra do seu primeiro contato com o Enativismo? O que a motivou a torná-la o seu tema de pesquisa?
Eu estava fazendo pesquisa em Filosofia da Mente, e agora eu não me lembro se foi num evento, onde que foi, mas eu lembro que foi Eros Carvalho, que estava dando uma palestra, e que falou: "Olha, tá saindo esse livro aqui, eu acho que isso pode te interessar". Tinha acabado de sair o Linguistic Bodies: The Continuity Between Life and Language (2018), recém publicado. E aí eu comecei a ler o livro, e aquilo me capturou! Eu fiz um grupo de estudo, isso no meu segundo pós-doc, e comecei a ler sobre Enativismo, muito por causa da influência do Linguistic Bodies. Fui lendo outras coisas, um monte de artigo e aí minha pesquisa se voltou para aquilo, porque, enfim, é riquíssimo!
Poderia nos falar um pouco sobre o que significa ser um corpo linguístico?
Boa pergunta! Isso é muito legal, muito interessante, porque no livro eles falam sobre isso: a gente não está falando de “linguagem corporificada”. Quando a gente diz corpo linguístico, a gente não está falando “Olha, existe um sistema de comunicação e regras que é incorporado em nós e que nós assimilamos”. Não é isso que a gente tá falando. A teoria da linguagem corporificada é bem isso, que existem noções que são importantes porque o significado da linguagem depende do corpo, e o corpo assimila. Depende em que sentido? Ah, o meu senso de justiça, por exemplo, ele estaria de algum modo vinculado a um equilíbrio, que é um equilíbrio, esse mesmo, que a gente fica em pé, em uma perna só, e se equilibra, né? A linguagem corporificada é um pouco isso. O significado depende do corpo e a linguagem como um sistema, ela ocorre também no corpo. Isso é uma versão. Agora, o Enativismo linguístico, ele aprofunda isso a ponto de inverter, no sentido de que não é que a linguagem é corporificada, é que nós somos essencialmente seres linguísticos. A nossa ação no mundo, ela é ação de relevância: a gente age em virtude de tais e tais coisas. As coisas têm sentido para nós, as nossas ações têm sentido para nós. Então, a linguagem está na base, ela está na essência da vida, na verdade. Tem essa noção de valor, de relevância em cada ato, cada ação. Então, nós somos corpos linguísticos num sentido muito forte, no sentido de que nós somos seres significativos. Viver é produzir sentido, é produzir significado. E a gente faz isso automaticamente, naturalmente, ao agir.
O projeto Enact reúne pesquisadores de várias instituições e nacionalidades. Como o Enact surgiu?
Nossa, excelente essa pergunta. Ah, eu acho que ele surgiu nessa hora que eu comecei a ler o livro e depois de eu ter o grupo, né? Fiquei um ano lendo o livro, debatendo, escrevi o resumo do livro, e aí pensei “Vamos fazer um simpósio do livro, vamos fazer um debate sobre o livro”. E aí nós fizemos um evento em que convidamos os autores do livro para participar desse debate e eles acharam muito legal. Falaram: "Olha, tem gente no Brasil que leu nosso livro!". Eles não puderam vir, óbvio, porque a gente não tinha dinheiro, não tinha recursos, mas eles participaram remotamente desse simpósio sobre o livro. Isso foi antes da pandemia. E foi aí que a gente se conheceu. E esse simpósio resultou num artigo. Cada uma das pessoas que debateu o livro, escreveu um artigo e os autores se comprometeram em responder. Então, tem um artigo de crítica, do livro e a resposta dos autores para cada artigo de crítica. Depois a minha pesquisa foi se aprofundando naquela direção. O meu projeto, pro último pós-doc, foi um projeto direcionado ao Enativismo, que era sobre linguagem e que se chamava Enativismo Linguístico. E tinha umas intersecções ali, se eu me lembro bem, com artes e com improvisação. Tinha também algumas questões sobre realidade virtual, e, depois, tiveram as publicações em parceria com Giovanni Rolla (UFBA) e com o Guilherme Vasconcelos da UFMG. Esse era o foco da minha pesquisa, então, um pouco antes de eu vir para cá (UFSM). Quando eu cheguei aqui, eu fiz uma versão atualizada do meu projeto, com foco no Enativismo Linguístico, que chamei de “Enativismo linguístico, desdobramentos e desenvolvimentos”. Então, a ideia desses desdobramentos é: para onde, para quais áreas isso pode se desdobrar. E desenvolvimentos é sobre como é que a gente especifica, melhora questões que ainda tem espaço para desenvolvimentos digamos assim, na teoria. Então, esse era o objetivo. Quando eu cheguei, várias pessoas gostaram do projeto, se entusiasmaram. E o interesse pelo Enativismo tem se espalhado bastante. É uma teoria, eu acho, que é interessante, é complexa, ela tenta abarcar uma série de fenômenos, e isso é de certo modo, sedutor, porque oferece muitas ferramentas. Então, acho que tem um grande interesse pelo Enativismo e o interesse tem crescido. Chegando aqui, várias pessoas se interessaram, e então começamos a fazer um projeto juntos. E aí, já tinha outras pessoas que eu tinha contato, de outras instituições, e também tinha estudantes que já estavam trabalhando comigo na Unicamp. E foi muito interessante, porque as coisas de fato convergiram nos núcleos de pesquisa, assim, foi muito em volta de uma tese central, que é a tese enativista de continuidade entre vida e mente, de que todo ser vivo ele tem um grau de cognição e depois de continuidade entre vida, mente e linguagem. Aí surgiram questões mais específicas da Fenomenologia, da Lógica e da Ética e da Linguagem, e como que elas dialogam com essa tese central. E isso se tornou um projeto, um grande projeto, com bastante gente. Nós entramos em um edital e fomos contemplados. Foi muito interessante, foi muito legal. Estamos terminando esse ciclo agora, encerrando esse projeto. Temos um site (https://enact.cl.net.br/) e uma página no instagram (Enact C&L) em que os resultados do projeto têm sido divulgados, e tem conteúdo que todos podem acessar.
Dentre seus trabalhos, quais você indicaria para quem quer conhecer melhor sua pesquisa?
Depende. Depende do perfil. Se a pessoa nunca ouviu falar de Enativismo, tem um livro que vai sair agora de Introdução ao Enativismo. Vai sair em breve, pela EDUFU. É um livro editado e organizado por mim, pelo Eros de Carvalho e pelo César Meurer. Ele tem vários capítulos falando desde o cognitivismo, que é a visão à qual o Enativismo se contrapõe, vai falar da evolução ali desde a psicologiaecológica, de como isso influenciou, até chegar ao último capítulo sobre o Enativismo Linguístico. Então, eu acho que é um livro introdutório interessante, em português. Tem alguns artigos novos também, saiu um agora sobre a emergência do simbolismo, que é resultado de uns seis anos de pesquisa, o The enactive continuity between life, language and symbol: working within a paradox (2025), em co-autoria com a Elena Cuffari. Tem um mais recente, em coautoria com o Giovanni Rolla: It Doesn’t Mean a Thing (If It Ain’t A Living Thing) (2026),, que é sobre inteligência artificial. Enfim, depende do interesse. Se a pessoa lê inglês tem também o Review do livro. Di Paolo, Ezequiel, Jaegher, Hanne & Cuffari, Elena. Linguistic bodies: The continuity between life and language (2020), que é introdutório. O nosso site (https://enact.cl.net.br/) tem conteúdo teórico também disponível. Tem os Zines que nós fizemos, de divulgação científica, que estão no site. E agora temos um Instagram @enact.cl
Quais são seus projetos para o futuro? O que podemos aguardar?
Vai ter o lançamento do livro, não sabemos ainda exatamente como vai ser o lançamento, nem onde, mas isso está nos planos. Temos um Podcast que a gente começou a fazer. Tem pesquisas em diversos temas no nosso grupo de pesquisa. Temas em saúde mental estão bastante ativos no nosso grupo. Eu continuo a minha pesquisa na intersecção entre linguagem e ontologia, atualmente. A realidade e a natureza do significado é minha pesquisa mais direta. E, tem outras pesquisas em intersecção com outras pessoas.Tem colaborações sobre a metodologia Prisma, que é uma metodologia de pesquisa da experiência intersubjetiva. A gente tá trabalhando muito isso, que também é um resultado do projeto. Um dos principais objetivos do projeto era começar a trabalhar com essa metodologia. Estamos fazendo a análise dos dados do que a gente já obteve aqui. É uma análise bastante lenta, tem muito conteúdo, né! E a gente tem reuniões toda semana para fazer essa análise. Então, nos próximos anos vai ter algum artigo resultado disso.
Para finalizar… como é ser uma filósofa?
Ah, é muito bom ser uma filósofa. Eu acho que, de fato, foi muito difícil a minha trajetória. Foi realmente muito difícil, mas eu acho que hoje eu estou muito realizada. Eu faço o que eu acredito e eu acredito no valor do que eu faço. Acho que, dentro do limite do possível, eu faço e eu dou o meu melhor. Então, tem um senso, assim, de que eu gosto do que eu faço, tenho orgulho do que eu faço, fico feliz com o resultado, eu fico feliz com as coisas e com os desafios que eu consigo superar. Sempre é um processo difícil, tem muita frustração em tudo que a gente faz, mas é também libertador. Eu sou uma pensadora, eu tenho contribuições a dar e, de fato, hoje olhando para trás, para aquela menina que viu o livro do estudante lá, que bom que eu escolhi esse caminho! Acho que tem uma convergência na nossa realização pessoal e profissional que é bastante importante, no sentido do que eu quero da vida e tal. Então, eu faço o que eu acredito e eu me dedico, dou o meu melhor no que eu faço, e acho que eu tenho coisas a contribuir!