Por que Filosofia? Você se recorda de como e quando escolheu o curso?
Quando eu tinha, sei lá, uns 15 ou 16 anos, eu li O Mundo de Sofia. Obviamente, como todo adolescente dos anos 90, eu li O Mundo de Sofia (risos). Porque eu sempre gostei de ler, né? Isso eu acho que é uma resposta padrão de todo professor e estudante de Filosofia. Mas eu fiz um ensino médio técnico porque eu tinha muito claro que eu tinha que me sustentar muito cedo. E eu queria estudar em Porto Alegre, mas meus pais não deixaram, porque eu tinha 14 anos quando saí do ensino fundamental. Então, fiz um técnico em Guaíba, que foi de 4 anos, um técnico de Processamento de Dados. Só que eu não tive Filosofia nesse momento, eu tive religião. Eu era aluna de uma escola luterana, então não tive Filosofia, eu tive Religião, História, Geografia, Química, Física só no primeiro ano e depois tive Português, Matemática e Literatura, acho que no segundo também. Bom, e daí o que acontece, eu comecei a trabalhar com 16 anos. Comecei a trabalhar, fazer estágio naquela área. E eu sentia que tinha algo que não era pra mim, talvez porque achasse que era um ambiente muito masculino, não sei. Então, eu trabalhava numa empresa, eu tinha a mesma formação que meus colegas, mas eu era secretária. Meus colegas estavam na rua fazendo as coisas e eu estava atendendo telefone, sabe? Depois comecei a fazer treinamento, porque a gente instalava impressoras fiscais, então fazia a programação específica para os estabelecimentos e tal. E foi aí que eu comecei a fazer o treinamento das pessoas que iam usar o sistema. E eu comecei a gostar daquilo de ensinar. Daí eu falei: "Tá, talvez eu pudesse ser professora". Porque a minha tia era professora e eu não via ela trabalhar final de semana; a minha mãe trabalhava final de semana, que sempre trabalhou no comércio, e assim, eu tinha certeza de que não queria trabalhar no final de semana. Então, eu queria sair da área de informática porque era domingo e tinha gente te ligando, tinha que sair correndo para fazer alguma coisa. Mas primeiro eu queria ser jornalista. Fiz o meu primeiro vestibular quando eu terminei o técnico, foi para jornalismo, mas também não me adaptei. E de novo pensei: “não, eu vou ser professora!” Tranquei o jornalismo no meio do ano, só que eu tinha que passar na UFRGS, porque, enfim, eu não ia conseguir fazer numa universidade privada. Então, se eu tenho que passar na UFRGS, quais cursos eu posso fazer? Daí eu fiquei entre literatura e filosofia. Como eu tinha lido O Mundo de Sofia, disse: "Não, vai ser filosofia", pois eu adorei aquela história de história da filosofia. Daí entrei na UFRGS. Mas cheguei lá e não tinha muita ideia do que ia acontecer. Só que eu peguei catapora (risos), eu descobri que eu estava com catapora. Porque meus irmãos pegaram, eu pensei “ah, estou imune”. Então, no primeiro dia de aula, eu peguei o ônibus de Guaíba e desci no centro de Porto Alegre, e eu estava pingando, passando mal. Daí eu pensei: “ah, não vou poder ir pra aula, vou ter que voltar para casa”. Eu cheguei em casa, estava com 40 de febre, eu estava cheia de bolinha. Tá, estava com catapora! Eu fui duas semanas depois pra aula. Quando eu cheguei na aula, eu dei de cara com a professora Sílvia Altmann dando a aula de lógica, fazendo tabela no quadro. Eu pensei: “Ah, é aqui que eu vou ficar”. Porque aquilo ali, para mim, era o que eu tinha visto no ensino médio inteiro. Então, lógica, para mim, sempre foi fácil por conta dessa formação que eu tinha. Então, muitos dos meus colegas tinham essa dificuldade quando chegaram na filosofia, comigo foi o contrário. Ali foi um pouco a minha entrada. Depois eu fui gostando das coisas. Eu tinha na minha cabeça que tinha que dar certo, porque aquela era a minha chance, eu já tinha trocado, trancado a faculdade, enfim, eu estava na universidade pública que era o meu objetivo, né? Então, eu tinha muito para mim que eu tinha que dar certo ali, porque senão eu não sei como eu ia justificar mais uma troca para os meus pais (risos), mais uma mudança radical, da Informática para Jornalismo para Filosofia. Daí foi assim que eu “caí” na filosofia. Eu entrei com 19 anos, mas quando eu decidi tinha um pouco menos de 18 anos. Eu tracei um plano para conseguir entrar na UFRGS, porque para mim não foi nada fácil fazer vestibular.
Nos conte como foi sua experiência na graduação? Você consegue pensar em pessoas e autores que foram referências ou em algum momento marcante para sua trajetória acadêmica?
Sim! Eu tinha noção que eu estava num espaço privilegiado e que eu tinha que dar certo. Então, eu sempre fui muito focada, assim, levei muito a sério a minha graduação, a licenciatura. A professora Sílvia Altmann foi minha maior referência durante a graduação, primeiro por conta dessa questão da lógica, né, que era uma coisa que para mim foi muito tranquila. Daí depois fui ser monitora de lógica, fui estudar, fazer grupo de estudos com ela e com o professor Gerson Louzado. Aí eu entrei no Kant por conta da Sílvia, não por conta do autor. Eu não escolhi o autor, eu escolhi a professora. Então, assim, sempre quando eu penso na graduação em especial, penso que foi uma época que eu estava muito focada. Mas, claro, que assim, também não é só estudo. (Risos) Eu estava em Porto Alegre, o mundo se abriu. Eu era de Guaíba, então nos primeiros anos eu ia de ônibus, levava 2 horas para chegar lá no Vale (campus da UFRGS), 2 horas para ir e 2 horas para voltar. Depois eu consegui convencer minha mãe e meu pai, e eu consegui uma bolsa, daí consegui dividir o aluguel de um quarto. Assim que a gente faz, né? Bom, eu me mudei para Porto Alegre, aquilo foi muito bom porque tive mais tempo. Antes eu podia escolher os dias que eu ia, pois era muito caro ir até Porto Alegre, então eu pegava as disciplinas para otimizar o meu tempo - manhã, tarde e noite - para ir menos vezes para a universidade. Então, sempre lembro de mim assim muito focada, tinha que dar muito certo. E de referências a Sílvia, minha orientadora. Mas eu tive ótimos professores lá, o professor Gerson Louzado também de Kant, professor André Klaudat, a professora Lia Levy, que era da história da filosofia, o professor José Pertille, que era da filosofia política, que foi também uma pessoa muito importante na formação. Então, eu tenho ótima lembrança da graduação. Mas uma outra coisa, esses tempos eu mexendo em papéis e caiu na minha mão meu histórico do ensino médio, do ensino fundamental. Eu achava que era super inteligente, que as minhas notas eram boas, mas não era assim, eu era uma aluna bem mediana no ensino médio (risos). Bem, eu não pegava recuperação, mas não tirava 9 ou 10, eu tirava 7,5. Então, eu acho que também tem uma coisa que na graduação, de certo modo, tu escolhe o que tu quer fazer. Então eu levava bem mais a sério e tinha uma consciência maior.
Como você se descreveria enquanto estudante?
Ai meu Deus (risos). Eu não sei. Eu acho que era bem focada, sobretudo na graduação, na pós-graduação, eu sempre fui bem focada, eu queria que as coisas dessem certo. Naquela época estudar era muito diferente de agora, porque a gente ia pra biblioteca, não tinha muitas coisas de PDF, a gente fazia xerox, a gente tinha que acessar os livros. Então, como eu fazia história da filosofia, a gente tinha uma grande dificuldade de conseguir os livros. E nossa pesquisa era realmente ir para a biblioteca e ficar lendo, fazendo leituras e anotações, usar os computadores compartilhados, pois não era comum ter laptop. Eu tinha um computador em casa, chegava no final do dia e estudava, fazia as fichas de leitura, mas era tudo mais à mão. Então tu tinha que ter, eu acho, um foco, uma atenção maior. Por que hoje tem mais recursos, assim, tu faz uma pesquisa e tu encontra pelas palavras, e antes disso tu tinha que fazer na mão. Eu lembro de, fazendo a dissertação, fazer as listas de citações sobre intuição em Kant, lista de passagens sobre não sei o quê, porque era assim que a gente estudava. Então, era uma habilidade diferente, as coisas mudaram bastante desde minha época de estudante. Mas se eu pudesse escolher uma palavra, diria que eu era bem focada.
E quanto à sua entrada na Pós-Graduação? O que você achou do processo de se tornar pós-graduanda?
Foi um momento bem intenso, porque ali em 2005 eu me formei, acho que não tinha sido ainda, aprovada a obrigatoriedade da filosofia no ensino médio. Acho que foi em 2011, 2012, que foi aprovada. Então, era meio que um limbo. Eu sabia que ia ter a licenciatura, mas um concurso não tinha muita perspectiva de imediato para atuar no ensino médio. Claro, nas escolas particulares tinha essa possibilidade, mas eu queria muito fazer pós-graduação. Queria muito! Então, meu último ano de graduação foi bem focado em fazer a prova. Naquele momento, no início do ano, os professores liberavam os quatro livros que iam ser exigidos na prova, daí na hora era sorteada uma questão sobre os livros e a gente tinha que estudar esses livros. Daí tinha que fazer a prova sobre filosofia e a prova de línguas. Então eu passei aquele ano estudando muito, porque queria muito entrar na pós-graduação e me cobrava muito para entrar em primeiro lugar para ganhar bolsa, né? Porque também de nada adiantava entrar na pós-graduação, se eu não tivesse bolsa. Então, foi muito importante, mas foi bem desafiador. O tema, para mim, assim, meio que eu já fazia grupo de estudos com a minha orientadora Sílvia e com o professor Gerson desde, sei lá, o segundo semestre da graduação. Então, eu já estava estudando. Já estava, digamos assim, gestando uma dissertação em Kant. A gente não tinha que fazer projeto naquela época, a gente fazia prova para o ingresso. Mas eu tinha um tema, né, que queria trabalhar e tudo. Depois tinha a entrevista, então tinha que se preparar em cima desse tema, mas não fazer um projeto. Mas foi um período bastante tenso. Depois para o doutorado, entre o mestrado na UFRGS e o doutorado, eu fiz um segundo mestrado. Então, no doutorado não foi tão, tão tenso, porque eu já tinha uma trajetória de pesquisa bem consolidada, digamos assim. Então foi mais tranquilo fazer a prova para entrar no doutorado, mas acho que ali naquele momento de sair da graduação e entrar no mestrado foi um período bem tenso.
Como você se aproximou dos seus temas de pesquisa do Mestrado e do Doutorado? Como foi a experiência de pesquisa na sua área?
Eu comecei a estudar Kant desde o meu segundo semestre, eu acho, com a Sílvia e o Gerson. A gente tinha esse grupo de pesquisa, que iam alguns alunos e os dois professores. A gente teve por anos. Depois eles continuaram, claro, mas quando eu estava na graduação, eu estava nesse grupo e isso me ajudou muito a entrar na História da Filosofia, em especial na filosofia de Kant. História da Filosofia é uma coisa que tu tem que quase aprender uma outra língua quando tu começa a estudar um filósofo ou uma filósofa. Por que, enfim, tradicionalmente, tu tem uma coisa muito exógena, tu usa o filósofo ou a filósofa discutindo com seus pares, né? E com a sua própria filosofia, tentando criar um sistema coerente que faça sentido. Então, eu acho que esse grupo de estudo que a gente teve foi muito importante, porque é impossível uma pessoa que nunca estudou Kant fazer um projeto de pesquisa para o doutorado, ou para o mestrado que seja, porque não é possível chegar na profundidade de um problema filosófico sem entender a língua daquele filósofo. Claro que eu acho que tem outras áreas, por exemplo, na Epistemologia, que é muito diferente, pois a gente trabalha mais um problema. Na História da Filosofia a gente trabalha muito uma determinada perspectiva sobre os problemas da filosofia. E, por conta disso, tem essa coisa de ter que ter um letramento. Para mim isso foi tudo muito natural porque foi feito aos poucos, foi feito organicamente dentro da minha formação. Então para mim, assim, eu acho que eu nem pensei “o que que eu vou estudar no mestrado?”. Para mim era claro que eu ia estudar Kant. No doutorado foi um pouco diferente, mas mesmo assim, eu achei que valia me especializar mais. Então pro mestrado, os dois mestrados, quando eu concorri para o Erasmus Mundus, eu concorri duas vezes. Na primeira eu fiquei na lista de espera, não ganhei bolsa, não cursei. Portanto, da segunda vez que concorri, e ganhei, eu fiquei em primeiro lugar, mas fiquei aquele ano inteiro trabalhando nesse projeto. Então, foi uma coisa bem, bem, bem trabalhada. Tem uma coisa também, quando chegou no final do doutorado, eu não aguentava mais pesquisar Kant (risos), em especial filosofia teórica. Eu, enfim, fiz outras experimentações da filosofia prática, até que eu caí nos temas mais ligados à renovação do cânone. E conheci a Emilie du Châtelet, né? E, assim, o mundo se abriu. Mas acho que também foi importante essa época de formação, eu acho que o mestrado ele ainda é formação. O doutorado é uma coisa diferente, porque tu tem mais tempo e está mais madura na pesquisa, digamos assim, para conseguir construir e entender os problemas com mais profundidade. Agora no mestrado ainda é muita formação, então ainda está tateando as questões, ainda é muito de formação. E uma última coisa, eu acho que o trabalho na História da Filosofiaele dá uma lente para olhar para as outras coisas. Então, é um pouco como a brincadeira da Camila (coordenadora do projeto), “como é ser uma kantiana?”. É um pouco assim: depois de tu ter estudado tanto tempo uma coisa, não tem como tu olhar para um problema e tirar essa lente, fazer de conta que aquela perspectiva não tem nenhuma influência sobre a tua visão. Claro, às vezes isso atrapalha, óbvio. Mas às vezes eu acho que ajuda também, porque tu sempre tem uma porta de entrada para um determinado problema, tu nunca vai ficar completamente perdido em alguma uma discussão, claro, dentro das suas limitações. Assim, consegue sempre uma porta de entrada, uma vez que tu te empenhou tanto numa determinada filosofia, no meu caso foi na filosofia kantiana. Mesmo que isso tenha levado, sei lá, uns 12 anos de estudo da filosofia kantiana, por mais que isso seja muita coisa - e no final eu tava querendo estudar outra coisa - eu acho que é o que foi válido, formativo e me deu um ponto de partida para olhar qualquer problema filosófico, assim para não ficar perdido, pelo menos.
Qual foi a sua pior experiência acadêmica e qual foi a sua melhor experiência acadêmica?
A minha pior experiência foi quando eu não ganhei a bolsa do Erasmus Mundus, eu acho. Porque eu fiquei muito, muito frustrada, porque foi um período muito difícil. Eu não tinha concluído ainda o meu mestrado, eu estava concluindo aquele mestrado e fazendo o projeto, fazendo muita coisa ao mesmo tempo. E estava com muita expectativa e a expectativa não se confirmou. Então, assim, academicamente aquela foi a pior, com certeza. Foi um momento “tá, vou fazer o que esse ano agora?” Vou, sei lá, tentar outra coisa, porque agora tenho que esperar. Uma vez que tu tenta e não se confirma, tem um prazo, um tempo de espera. Não é assim: “Ah, não deu nessa empresa, eu vou amanhã, e já posso conseguir em outro lugar”. Não, tem que esperar seis meses, um ano, para poder tentar de novo. Então, foi bem frustrante, mas foi importante também. Acho que a gente, às vezes, lembra bastante das coisas boas, mas às vezes precisa, até para a gente se dar uma situada, se colocar em perspectiva, assim: “olha só, tu não consegue tudo!”. Às vezes as coisas acontecem mesmo e tem que tentar de novo. E a melhor experiência acadêmica, acho quando eu defendi o doutorado. Foi assim uma sensação de “Tá, aprovei, agora vou poder estudar outras coisas” (risos). Cumpri o meu percurso, aquilo que é exigido para se tornar uma pesquisadora em filosofia. Eu tive uma vantagem, né, no doutorado, quando eu terminei, eu estava empregada. Quando eu comecei o doutorado, eu consegui o meu primeiro emprego, as coisas começaram juntas. Então, eu já dava aula, já era professora, já tinha uma experiência de quatro anos dando aula. Quando eu defendi a tese, para mim foi um grande alívio, mas também que cumpri aquilo que é esperado e agora tenho o carimbo no passaporte, digamos assim, para entrar no clube. Eu não vou ser mais questionada, né, quanto a isso. E foi um alívio também porque eu dava, sei lá, sete disciplinas e em outra cidade. Daí eu pude me mudar para Santa Maria. Então, uma série de coisas se desenrolaram. Eu podia fazer um concurso público, porque daí eu tinha chance de ser aprovada, né? Eu fiz, sei lá, uns dez concursos naquela época, uns cinco, talvez dez, concursos para IFS e universidades privadas. E depois, claro, quando eu passei aqui na UFSM também acho que foi um grande marco na minha carreira acadêmica. Eu pude ter a experiência de não só ser professora de filosofia, mas também poder ser pesquisadora, ter oportunidade de orientar Iniciação Científica, dissertação, de fazer parte de um grupo de pesquisa, não mais só como estudante, mas sim como professora. Para quem gosta de pesquisa é algo que eu acho que é bem importante, bem significativo.
Se você pudesse voltar no tempo e se dar um conselho naquela época, qual seria?
Deixa eu pensar. Assim, eu acho que as coisas acontecem no seu tempo. Eu fiquei agora pensando: “ah, sei lá, entrar antes na faculdade”, mas teria sido um desastre (risos). Talvez eu tivesse trancado e saído, porque eu acho, sei lá, eu olho pros meus alunos e acho que são tão novos, estão entrando com dezessete ou dezoito anos. Para decidir assim, né? E daí tem uma evasão grande também. Então, não sei, também tive esses períodos que eu fiquei esses anos, quando eu não ganhei a bolsa de Erasmus, fiquei um ano fazendo outras coisas e também foi importante. Então, às vezes a gente tem que dar o tempo da vida. Não sei se eu teria um conselho, assim, talvez não levasse as coisas tão a sério, acho que eu era muito séria, sabe? Eu sempre tive uma dificuldade, agora depois com a maturidade, quando a gente tem filho, também aprende que, por mais que a gente planeje, às vezes dá tudo errado, sabe? Então tu aprende que as coisas são assim mesmo, que o tempo da vida é outro do que o tempo da nossa vontade. Mas me cobrava muito, às vezes, quando era mais jovem, sempre tinha que fazer tudo certo, e não é assim. A vida não é assim. Tem que ter mais leveza para lidar com as coisas.
Recentemente você tem se dedicado à obra de Émilie du Châtelet. Como você conheceu a filósofa e por que decidiu estudá-la?
Então, eu conheci a filósofa do seguinte modo. Eu já era professora aqui e a Gisele Secco era professora da UFRGS. Ela me liga um dia e diz assim: “Estamos pensando em fazer um um evento Vozes (Vozes: Mulheres na Filosofia), o primeiro Vozes, e a gente queria te chamar. Nesse primeiro Vozes, cada uma escolhe uma filósofa para falar”. Daí vão ser só filósofas, cada um escolhe uma filósofa para falar, e, assim, o que que eu vou falar? Eu tinha acabado de defender a minha tese, né? E eu tinha estudado com a Hannah Ginsborg, que tinha lançado um livro sobre Kant, e eu disse: “eu vou falar sobre a Hannah, falar sobre a interpretação dela de Kant”. Dentro da minha cabeça, enfim, que era completamente ignorante da história da filosofia, já tinha ouvido de mulheres filósofas, da Elisabeth da Bohemia, né, mas também completamente ignorante. E daí a gente fez o Vozes, foi muito legal, foi lá na UFRGS e foi até onde eu conheci a Juliana Missaggia. Eu tinha acabado de passar no meu concurso e a Juliana no outro, aqui para o Departamento de Filosofia da UFSM. Eu não passei em primeiro lugar, passei em segundo, mas tinha perspectiva de ser chamada. Então, conversei com a Juliana, a gente trocou figurinha. E era esse momento. E nisso, também, foi junto com aquela pesquisa da Carolina Araújo de 2016. Isso foi em 2017, mas foi junto com a pesquisa da Carolina. A gente discutiu muito a pesquisa da Carolina “Quantas Filósofas?” no evento Vozes. Lá encontrei a Katarina Peixoto, que era minha amiga e disse: "Pois é, eu estou organizando um outro evento." Ela estava indo para o pós-doc na UERJ e pensando em outro evento que vai ser só sobre filósofas na modernidade. Eu pensei em falar sobre Elizabeth, né? Daí a gente ficou em contato, uns dois, três meses depois, a Katarina disse: "Olha, eu e o Pedro Pricladnitzky estamos organizando esse evento, Mulheres na Filosofia Moderna, e a gente decidiu que tu vai falar sobre a Émilie du Châtelet. E eu pensei “quem é essa pessoa?”. Nunca tinha ouvido falar. Eu fui atrás, já tinha lido em um texto de Kant uma referência à Châtelet, mas nunca tinha passado na minha cabeça que era uma mulher, enfim. E também era uma referência meio marginal, não era uma coisa importante para o que eu estava estudando naquele momento. Então, eu não dei nenhuma bola. Eu fui atrás dessa mulher, de saber quem era, e eu descobri o “Instituições Físicas” (1740), um texto imenso onde ela fala sobre todos os temas clássicos da modernidade, a existência de Deus, a causalidade, o espaço e o tempo. E eu tinha acabado de defender uma tese sobre Kant, né, que é imediatamente posterior a Châtelet. E eu nunca tinha ouvido falar dessa mulher. Então eu conheci a Châtelet porque a Katarina me ligou e disse: "Ó, tu vai estudar a Châtelet, porque a gente vai fazer um evento na UERJ sobre filósofas da modernidade”. E aquilo, de fato, foi o ponto de virada mesmo, porque a gente já tava discutindo aquelas coisas que a Carolina Araújo trazia da diferença de gênero dos Departamentos de Filosofia. E, enfim, quando eu vim para a UFSM isso ficou muito claro para mim, né? Isso é engraçado, na UFN (Universidade Franciscana) tinha mais mulheres, que é privada. Na UFRGS também, é um departamento que tem bastante professoras, então, assim, durante a minha graduação, mestrado e doutorado, não era uma coisa que me chamasse atenção o fato de não ter mulheres filósofas. Isso foi aparecer depois quando eu me tornei professora, e a partir também dessa provocação do texto da Carolina Araújo, porque as coisas não eram evidentes, não como são evidentes hoje para nós. Naquela época, dez anos atrás, quinze anos atrás, vinte anos atrás não eram. Então eu conheci a Châtelet ali, e eu realmente me apaixonei. Daí eu pensei “não, eu tenho que estudar essa mulher!”. Esse era o tema que eu queria. Esse é o que vai me dar motivação para continuar na área de história da filosofia. E enfim, foi daí que veio, foi totalmente devido a Katarina Peixoto.
Como é, para você, estudar uma mulher que foi apagada dentro da história da filosofia, no tempo atual?
Assim, tem duas coisas. Tem uma coisa que é um pouco esse espanto que eu passei ao descobrir que existia uma filósofa, e depois tu vai descobrindo as outras. Descobre uma e vai puxando, daí vem um monte de filósofas que tinham passado completamente fora do meu radar. Eu, fazendo duas dissertações de mestrado e uma tese de doutorado sobre aquele período, e, enfim… Aí brilha, né! Estudando, tu vai obviamente estudar um pouco de Leibniz, um pouco de Wolff, um pouco para frente, vai voltando para trás, mas isso nunca na minha vida tinha passado, em nenhum Departamento de Filosofia que eu passei como estudante ou como pesquisadora, eu tive contato com essa mulher. Então, para mim foi como “bom, tem uma coisa errada”. Esse desconforto nascente de que tem uma coisa errada com a formação quando uma pessoa que escreveu tanto, que foi tão importante e influente na sua época, não é reconhecida hoje. A gente, sei lá, com duzentos - duzentos e cinquenta anos de estudos sobre Kant, e, sei lá, tem trinta anos de estudos sobre a Châtelet agora. Enfim, lá nos anos 1970, 1980 que começou a se estudar mais sistematicamente a Châtelet, e agora, bem mais a obra dela. Então, isso mostra que tem um problema bem grande aqui. Então, em primeiro lugar, se sente muito espantada com a defasagem do nosso método para estudar a História da Filosofia hoje, na filosofia profissional, não apenas no Brasil. Mas é algo que já está mudando, eu acho. De uns 10 anos para cá, as coisas são bem diferentes do que foi, sei lá, nos anos 1990, nos anos 2000, no início dos anos 2000, muito por conta desse movimento da academia olhar para dentro, seus métodos etc. Por outro lado, eu acho que também, e essa é a parte negativa digamos assim, de quase se sentir uma completa idiota por ter estudado tanto tempo e não ter olhado. E eu não estou colocando a culpa nos meus professores, eu fui uma pesquisadora que achava que estava fazendo um trabalho muito, muito minucioso com as fontes. Mas na verdade, eu não estava. Eu não estava olhando para alguns lugares que eu deveria ter olhado. Então tu percebe uma falha no teu próprio método de pesquisa, o que para a História da Filosofia é bem ruim. Para contar algo, ela sempre é contextual. Quando tu só olhas para um lado, tu não estás fazendo o seu trabalho direito. Por outro lado, também tem uma parte positiva e legal, que é que a gente tem o mundo inteiro para pesquisar. Tem muita coisa para pesquisar, precisa de muito recurso humano para fazer esse trabalho, o que dá ótimas perspectivas para quem quer começar a estudar a história da filosofia. Se em Kant o problema era achar o problema de pesquisa, porque todo mundo parece que já estudou sobre tudo, a Châtelet é o contrário. Qualquer problema que tu pegue ali, tu vai ter que desbravar um mundo, em especial em língua portuguesa. Mas tu vai desbravar o mundo, o mundo novo. E isso, para as perspectivas de pesquisadores e pesquisadoras novos que estão iniciando a carreira, é ótimo. Eu acho que olhando para esses dois lados, podemos ser positivas quanto a perspectivas de carreira por algum tempo ainda.
Sobre a Olimpíada Nacional de Filosofia, seu mais recente projeto. De que forma você acha que a ONFIL pode potencializar a pesquisa e o ensino de filosofia no Brasil?
A ONFIL é um projeto pelo qual eu tenho completo amor e carinho. Eu não quero ser pretensiosa, mas eu acho que é um projeto interessante, primeiro porque ele é um projeto de extensão. Então, é algo para a universidade olhar para fora da universidade. E, segundo, que é um projeto de extensão que envolve as redes de ensino. Então envolve desde os professores e estudantes das escolas, até os professores e os estudantes da pós-graduação e da graduação, dentro dessa rede. Então eu acho que isso pode mostrar tanto a relevância social da universidade, mostrando de fato o que a gente faz aqui e que tem ressonância lá no ensino médio. Porque se pode ser lido pelo ensino médio, pode ser lido pelos estudantes que lá estão. Os problemas que a gente trata aqui podem ser compreendidos e enfrentados por estudantes que estão no ensino médio, essa é uma das lições da Onfil. Quanto o contrário, esses estudantes que estão lá no ensino médio, ao fazerem as provas e, ao envolver todos esses jurados de universidades do Brasil inteiro - na edição passada foram mais de 200 jurados, dos 26 estados da federação - ao lerem essas provas dos estudantes de ensino médio, eles também estão, de certo modo, absorvendo o que está acontecendo na escola. Então, é uma coisa que tem duas vias. Tanto a universidade se projeta, digamos assim, para os estudantes do ensino médio, ao colocar os temas das provas, quantos estudantes nos respondem, ao se proporem a escrever esses ensaios e analisar esses problemas ouvindo o que filósofas e filósofos escreveram ao longo da história da filosofia e de variadas tradições filosóficas. Então, eu acho que ela tem um potencial muito grande de mostrar que a Filosofia também é uma fonte de interesse para os jovens, que ela é uma coisa que os jovens querem. Na última edição, nós tivemos mais de 3.000 jovens fazendo a etapa escolar. Isso é muito bonito, porque a gente mostra que tem interesse em Filosofia por esses jovens que estão no primeiro, no segundo, terceiro ano do ensino médio. E isso não é induzido, é espontâneo desses jovens. Quando a gente lança o edital e esses jovens, esses professores, dessas escolas do Brasil inteiro, querem participar, querem dedicar uma tarde, pelo menos uma tarde, lá em junho para fazer uma prova de filosofia, onde vão ler quatro tópicos e vão reagir a esses tópicos. Então, eu fico até emocionada com a ONFIL, porque eu acho que é um projeto muito bacana, porque ele tem essa via de mão dupla. A gente mostra o que é feito aqui e a gente também ganha. E oferece o que a gente tem de melhor para esses estudantes.
Lindo projeto! Bom, na biografia do seu Lattes, você descreve ser mãe da Cecília e da Lorena - e tutora do cão Fritz. Para você, qual a importância do estudo da maternidade sob uma perspectiva filosófica?
Então, essa foi talvez a primeira vez que eu vi a minha vida pessoal influenciando em uma escolha de um tema de pesquisa ou abrindo para mim o horizonte de um tema de pesquisa. Quando eu fui mãe da Ceci (Cecília), achava que eu ia continuar fazendo as mesmas coisas. Porque, afinal, como que uma criança vai perturbar tanto assim a tua organização? (Risos). Antes de ter filho, eu trabalhava 24 horas por dia, 7 dias por semana, tu não tem final de semana, porque sempre que alguém te pede uma coisa, você pensa “ah, sábado de tarde eu consigo fazer… no domingo de manhã”. Tu sempre vai encaixando outras prioridades para além do teu lazer, do teu descanso, né? E quando tu tem filho, tu não tem isso. Simplesmente o teu horário, a tua vida, ela escapa. Não é tu que controla são as crianças, né? Tem crianças ali. Então, isso foi muito brutal para mim no início, porque eu achava “ah, vou ficar seis meses em casa, vou publicar vários artigos agora, vou entrar na pós-graduação, vou fazer e acontecer”. E eu levei um baque, porque não é assim que as coisas acontecem. Isso foi muito impactante para mim. Não só em resultados de carreira, porque ali no meu currículo tem o gap, o fundo do poço veio, deu um delay. Tu sempre prepara as tuas publicações de um ano ou dois anos na frente, então, quando a Cecília nasce no final de 2018, eu ainda tinha algumas coisas que saíram em 2019, em 2020. Mas em 2021, no meu currículo não tem nada, porque eu não consegui produzir em 2019 e 2020 o que eu publicaria em 2021. Então, tudo que eu publiquei entre 19 e 20, foi o que já tinha. O que já estava encaminhado e tinha sido entregue antes da Cecília nascer. E aquilo para mim foi muito assustador. Então, eu comecei a pensar “não, aqui tem uma questão filosófica para se tratar, tem questões que são filosóficas no que diz respeito às escolhas que a gente faz. E eu, como uma mulher branca, que tinha uma carreira mais ou menos estabelecida no serviço público, pude fazer o que outras mulheres da minha faixa etária, por exemplo, não puderam fazer. Então, essa questão da liberdade, da autonomia da mulher, começou a ficar muito presente, começou a me incomodar muito. Outras questões também começaram a surgir. Mas eu tenho, enfim, sorte de ter um companheiro que pegou junto com as minhas filhas, então que de fato divide as coisas, mas não é a realidade, assim. Então, tu olha na volta e tu vê as mulheres abrindo mão ou das suas carreiras, das suas perspectivas profissionais, ou abrindo mão de ter filhos. O que para mim também é uma questão, porque isso não acontece com os nossos colegas homens, né? Eles continuam decidindo se querem ou não ter filhos. E as nossas colegas mulheres, muitas vezes elas não decidem, elas simplesmente são levadas, ou pelas suas carreiras, ou pela sua vida pessoal. Então, eu comecei a pesquisar isso por um convite da Melina Duarte, que foi minha colega de graduação e é uma grande amiga que hoje trabalha na Noruega. Ela estava à frente de um projeto de pesquisa sobre questões de gênero na academia. E daí ela me convidou para escrever um verbete e eu pensei em escrever sobre maternidade. Então comecei a estudar mais esse tema. Acho que hoje, a maternidade é um tema de pesquisa porque foi a primeira vez que isso aconteceu, que a minha vida pessoal influencia aquilo que eu quero estudar. Todas as outras vezes foram ao acaso, a Châtelet foi uma coisa meio ocasional. Ao menos, foi o que a vida acadêmica me levou, diferentemente, por exemplo, de alguns colegas meus que dizem: "Ah, eu estudo tal coisa porque essa é a minha questão existencial, porque isso me motiva”. Eu nunca tive isso até chegar na questão da maternidade, que aí sim foi uma escolha de pesquisa motivada por uma situação pessoal. Na semana passada a Carolina Araújo me mostrou uma pesquisa na Dinamarca sobre o impacto da maternidade na vida acadêmica. E um dos achados é que lá na Dinamarca, onde não tem praticamente gap de gênero, que mulheres e homens estão praticamente no mesmo patamar, o gap acontece entre mães e mulheres sem filhos, que daí sim o impacto acontece. Mesmo estando na Dinamarca, que tem toda a proteção social, enfim, países nórdicos que são conhecidos por uma licença paternidade decente, por não ter obrigatoriedade da mulher apenas, lá o fato da mulher ser mãe na academia é o que traz mais disparidade salarial e de perspectiva de acesso à pesquisa. Então, de fato, é um problema filosófico e da vida real que a gente enfrenta na academia no mundo inteiro, não é só aqui no Brasil. Nisso se sobrepõe em todas as questões de gênero: aqui a gente ainda tem o gap mulher e homem, não só das mães. E ainda, quando tu vê pela perspectiva da interseccionalidade, tu já tem mais disparidade. Então, mulher e mãe, mais disparidade. Mulher, negra e mãe, mais disparidade ainda. E assim vai.
Dentre seus trabalhos, quais você indicaria para quem quer conhecer melhor sua pesquisa?
Esse sobre a maternidade, o capítulo Motherhood, no livro Gender Diversity, Equity, and Inclusion in Academia (2023), que é um ebook e está disponível pela Routledge, que é um projeto que foi capitaneado pela Melina Duarte da Universidade de Tromso, na Noruega, com outras colegas. E tem vários verbetes que trabalham com interseccionalidade na academia, e eu escrevi sobre maternidade. Acho que ali é um bom trabalho. Sobre o trabalho de Châtelet, tem um texto que eu publiquei no livro do 3º Vozes, A questão sobre a natureza do fogo: duas notas a respeito do primeiro escrito de Émilie du Châtelet (2024) um estudo sobre a natureza do fogo, que eu acho que é bem interessante, mas ainda é uma pesquisa em início. Os trabalhos que a gente fez no grupo Dataphilo. O Mulheres que Orientam Mulheres: A Filosofia em Perspectiva Comparada (2024), sobre os temas da pós-graduação em perspectiva de gênero. Esses mapeamentos da pós-graduação no Brasil eu acho que são trabalhos bem importantes. Ainda sobre Châtelet, talvez mais um trabalho é o que está no livro da Springer, que é sobre a noção de experiência, o Notes on Émilie Du Châtelet’s Epistemology: Experience as a Source of Knowledge (2022). Tem os trabalhos sobre o Ensino de Filosofia que eu adoro, como Entre os meus interesses e os interesses do mundo: os propósitos do ensino escolar (2020). Essa é uma parte mais de orientações que eu faço aqui no Departamento de Filosofia. Eu faço questão de orientar sobre o Ensino de Filosofia porque, enfim, eu acho essencial que a gente esteja vinculada à escola. Nós somos uma disciplina que precisa estar na formação dos jovens. Acho que tem uma defesa da Filosofia que é um pouco, assim, é algo que é tradicionalmente um interesse humano. Eu acho que o mundo em que a gente vive é mais do que isso que está aí. Mais pontos de vista. E eu acho que é uma necessidade urgente de sobrevivência da democracia, da sustentação dos direitos humanos, e isso envolve desenvolver o pensamento crítico. Isso tem que ser na escola. Não dá para esperar chegar na universidade, só para quem está no curso de Filosofia, pois daí a gente não vai conseguir. Tem que estar na escola, trabalhando esses temas, trabalhando o que é verdade, trabalhando a noção de direito, de justiça, de democracia. Acho que o Ensino de Filosofia tem que ser visto como um tema importante da Filosofia.
Quais são seus projetos para o futuro? O que podemos aguardar?
Bom, agora a gente está trabalhando, junto com o Pedro Pricladnitzky, que está lá no Chile, em uma edição bilíngue da Grammaire da Châtelet. É um projeto para 2027/2028. Algo que eu acho que é bem importante também é a entrega dos verbetes, da tradução dos verbetes, da Enciclopédia concisa dos conceitos de mulheres filósofas. É um convênio com o Centro para a História das Mulheres Filósofas e Cientistas de Paderborn. Isso deve sair, espero que até o final do ano. Bom, quero continuar trabalhando no Dataphilo, agora com o recorte da maternidade. Isso é algo que a gente tem na agenda e, obviamente, com o Ensino de Filosofia também. Só que agora eu estou na gestão do CCSH/UFSM (Centro de Ciências Sociais e Humanas). Então, nesses primeiros seis meses, o meu trabalho vai ser mais me atualizar da gestão e me sentir confortável nesse lugar. Agora, então, não estou só fazendo pesquisa, extensão, mas também envolvida na gestão, o que é outra dinâmica. Na gestão, a gente tem uma dimensão de tomada de decisão, de gestão de pessoas, de entender o orçamento, os caminhos da universidade. E, de fato, nada prepara para esse lugar. Então, o primeiro momento, é tomar pé e tomar conhecimento. Mesmo já tendo sido Chefe de Departamento, os números e o modo operacional de um centro como o CCSH, é algo muito maior, muito mais desafiador. E com desafios, assim, muito próprios.
Para finalizar... como é ser uma filósofa?
Bom, por muito tempo eu não me chamava de filósofa, porque, na minha formação sempre, não é que sempre me foi dito, mas sempre foi algo implícito que a gente fazia aqui no Brasil é história da filosofia. Então, assim, nunca me senti muito confortável de usar esse título de filósofa até começar a ler um pouco mais, até começar a me inteirar sobre essas questões de gênero, do cânone e do gap que há nos departamentos de filosofia. E isso me levou de certo modo a me enxergar também num papel de filósofa mesmo. Isso é uma coisa interessante, quando a gente começa a questionar “tá, mas o que é filosofia? O que que eu tô fazendo, afinal? E por que que não tem mulher aqui? Por que que a gente vai nos congressos, a gente vai nos departamentos e só tem homem?”. A gente começa também a questionar o que é filosofia, o que que é ser filósofo. Eu sou só historiadora da filosofia? Por que estudar a história da filosofia, não pode significar também ser filósofa? Então, ultimamente eu tenho me apresentado como filósofa e tenho tomado para mim essa palavra, mas eu diria que é um aprendizado. E ser filósofa, no Brasil, é um pouco ser olhado com desconfiança por quem tá de fora. Porque, em primeiro lugar, tem o questionamento: mas o que que faz uma filósofa, o que você faz? Fica sentada pensando (Risos), sempre aquela piada, né? E de dentro também esse questionamento, que a História da Filosofia não é bem filosofia, mas eu acho que a gente tem que assumir um pouco o poder das palavras para si e dizer “Não, nós somos filósofas, sim! E a gente está aqui. A gente tem o direito de estar aqui e a gente tem o direito de questionar o por que não tem mais de nós aqui.” Então, eu acho que faz um pouco parte assim desse processo de autoconhecimento, de amadurecimento, de agora se apresentar como alguém que faz filosofia. É difícil, claro que é, porque tem todas essas coisas. Nós somos minoria nos departamentos, nos programas de pós-graduação, nós vemos as mulheres, e não só as mulheres, mas também as pessoas racializadas, as pessoas Trans, deixando os cursos, e a gente vê que essas pessoas não chegam até a pós-graduação. É um processo muito doido. Muito doido para nós que estamos aqui, mas também é um processo que a gente está cada vez mais buscando ferramentas para lutar contra. Então, é se apoiando umas nas e nos aliados. Essa luta tem que ser de todo mundo. Então é difícil, mas agora eu tenho muito mais consciência de que eu não estou sozinha, tem um monte de gente legal que está junto nessa e que tomou para si esse esse título e tudo que tá envolvido com sustentar esse título.