Por que filosofia? Você se recorda de como e quando escolheu o curso?
Bom, eu sempre tive um maior interesse pelas ciências humanas de modo geral. Então, eu entendo que o meu interesse pela filosofia seja, de certo modo, uma extensão dessa preferência. E no meu caso, eu não tive contato direto com a filosofia no ensino médio. Na minha época, nós não tínhamos ainda filosofia, ou seja, eu acabei não tendo um contato direto com a filosofia propriamente, mas indireto às vezes, por meio de outras disciplinas, principalmente história. E eu sempre gostei muito de história, de geografia, por vezes eu não sabia distinguir propriamente qual era a especificidade da filosofia como uma ciência humana, especialmente, no contraste com a história. Então, essa distinção foi algo que eu aprendi ao longo da graduação. E pensando retrospectivamente, creio que foi uma escolha autônoma, porque eu não tive nenhuma orientação especializada. E tentando relembrar quais foram os fatores que me fizeram escolher propriamente a filosofia, eu me recordo, então de algumas leituras amadoras que eu fiz antes de escolher o curso para prestar o vestibular. Então, a minha escolha pela filosofia foi determinada com base principalmente em três autores, que foram importantes para mim nessa fase de iniciante. O primeiro autor foi o Descartes, eu lembro de ter lido o Discurso do Método, e eu achei bastante interessante os relatos autobiográficos, onde ele fala de uma certa descrença em relação aos saberes consolidados da tradição filosófica. Eu não sabia muito bem o que era essa tradição, né? Hoje eu sei que essa crítica do Descarte dizia respeito aos filósofos da antiguidade e da escolástica principalmente, mas eu gostei muito da postura que é apresentada pelo Descarte como sendo a postura propriamente filosófica nesse livro. Que, então, você deve fazer filosofia a partir da sua própria individualidade, que é um pressuposto do método cartesiano. Eu lembro de ter achado isso muito interessante. Então, considero o Descarte um autor importante para mim nessa fase. A segunda autora foi a Simone de Beauvoir. Apesar de eu ter lido alguns livros dela que na verdade são caracterizados como literatura, e claro que aqui a gente precisa reconhecer que há muita filosofia em textos literários, mas eu faço esse comentário porque essa foi a minha aproximação com o texto. Eu lembro de ter lido primeiramente A Mulher Desiludida pensando que se tratava de um texto literário. Então, é claro que na época eu não tinha a maturidade filosófica o suficiente para compreender a profundidade conceitual dos temas que são abordados por ela, mas eu lembro de ter ficado impactada pelo teor. Foi uma auto identificação imediata com algumas das personagens, especialmente no que se refere à relutância na aceitação do seu destino social, que aqui esse destino social diz respeito às mulheres, ao feminino. Então, foi uma autora bastante importante para mim, que foi já me direcionando para leitura de textos propriamente filosóficos, e que me fez buscar o curso de filosofia. E o outro autor é o Nietzsche. É claro que na época eu nem entendia diversas das acusações que acadêmicos gostam de fazer a ele, até mesmo no sentido de que ele não seria um filósofo. Mas na época, eu lembro também, de ter lido, especialmente, o livro Além do Bem e do Mal, que é o meu favorito. Li vários livros do Nietzsche. E lembro de na época ter ficado maravilhada com a leitura dos seus aforismos, foi como um encontro com uma nova referência, que eu acho que é bem aquela fase ali do início da nossa vida adulta, em que a gente começa a desconstruir valores e crenças. Então, o Nietzsche funcionou bem para mim como uma propedêutica à filosofia nesse sentido, dessa filosofia da desconstrução, e que também, de certo modo, a gente pode dizer que é o paradigma nietzschiano de fazer a filosofia. Então, lembro de ter achado o máximo a crítica que ele faz, especialmente à moralidade. Nietzsche também é colocado nessa minha lista de influências para eu ter de fato tomado uma decisão mais objetiva de seguir o caminho da filosofia.
Como foi sua experiência na graduação? Você consegue pensar em pessoas e autores que foram referências ou em algum momento marcante para sua trajetória acadêmica?
A experiência da graduação me deu um panorama mais geral e sistemático da filosofia, obviamente, e foi quando eu comecei a entender quais são as especificidades técnicas e metodológicas da filosofia. Na graduação eu pude conhecer mais autores e situar os meus interesses de pesquisa na tradição. Inicialmente, na Iniciação Científica, eu trabalhei com a hermenêutica filosófica de Gadamer. Foi algo até quase que inconsciente, não foi algo que eu tivesse propriamente escolhido, objetivamente, mas eu lembro do professor Luiz Rohden me fazer o convite com “Verdade e Método” em mãos, dizendo que seria interessante eu ler o livro. E eu aceitei o convite, me tornei então pesquisadora de Iniciação Científica e esse foi o primeiro autor com o qual eu me engajei de modo mais detido, com essa abordagem mais acadêmica. E as minhas pesquisas tinham como objeto as considerações gadamerianas sobre a arte e a experiência estética. E posteriormente, ainda na graduação, eu comecei estudando Gadamer, e eu elaborei um trabalho de conclusão sobre Husserl. Eu fiz um pouco o percurso de voltar na linha histórica da filosofia. Então, eu me interessei pela fenomenologia de Husserl a partir de certos comentários, que o Gadamer faz, especialmente, no que diz respeito à questão da experiência estética, de como a fenomenologia foi importante para nós compreendermos a profundidade do ser estético, do modo como o sujeito se relaciona com o objeto. Então, a fenomenologia trata sistematicamente dessa questão. Gadamer e Husserl são autores que guardam uma relação histórico-conceitual que sempre me interessou, ainda hoje por vezes eu me pego pensando em alguns paralelos entre eles. Esse foi um pouco o meu percurso já na graduação. E sobre a questão das minhas referências, eu posso talvez desmembrar essa questão em uma divisão conceitual. Daí eu posso falar de algumas referências bibliográficas, o Gadamer e o Husserl se enquadram nesse aspecto, mas também posso pensar em algumas referências para a vida e para a profissão docente propriamente. As minhas referências dessa época, que de certo modo ainda se mantém as mesmas, bibliográficas especificamente, são os autores da filosofia contemporânea em geral. Eu sempre gostei muito de filosofia contemporânea e, de modo mais específico, da tradição fenomenológico hermenêutica. Então, menciono aqui Husserl, Gadamer, Sartre, Beauvoir. Essas referências bibliográficas são parte do meu repertório acadêmico. As minhas referências para a vida e para a profissão são os bons professores do meu percurso formativo. Então, eu acho que nessa etapa inicial da graduação eu lembro de algumas referências. E eu gostava muito das aulas dos professores Álvaro Valls, Castor Ruiz, Inácio Helfer e a professora Sofia Stein. Infelizmente a disparidade de gênero sempre foi evidente no quadro docente do programa da universidade onde eu me formei. Então, quando eu olho para o meu percurso formativo, eu reconheço apenas uma professora que integrava o corpo docente. E então, basicamente, a maioria das minhas referências eram professores homens. São os nomes que me vem à mente em resposta a essa questão.
Como você se descreveria enquanto estudante?
Eu fui uma estudante esforçada, especialmente no início da graduação, pois eu precisava conciliar trabalho e os estudos. Eu trabalhava com algo que não tinha relação com a filosofia e essa é, na verdade, até mesmo uma rotina comum para muitos universitários. Essa questão de você conciliar os estudos com uma rotina de trabalho é desgastante. E nessa época eu nem mesmo me via como uma futura professora, era algo que estava fora das minhas perspectivas de futuro. Tanto é que eu ingressei primeiramente no bacharelado em filosofia, e depois eu migrei para a licenciatura. E lembro também de que eu fui uma estudante que foi aos poucos assimilando as possibilidades profissionais da filosofia. Acho que isso também é bem comum. E isso foi, obviamente, fonte de muita angústia, porque havia muita dúvida sobre como eu poderia conciliar os meus interesses pessoais e intelectuais em filosofia com as demandas profissionais e perspectivas de atuação. Então, pensando retrospectivamente sobre essa fase da graduação, eu percebo que as coisas foram se encaixando, na medida do possível. Na graduação eu obtive duas bolsas que me ajudaram, então, a conseguir me dedicar melhor às pesquisas e as leituras. Foi uma bolsa de Iniciação Científica e uma bolsa de Iniciação à Docência. Então, o meu perfil de estudante era ser uma estudante bolsista, que tem uma peculiaridade. Obviamente, essa experiência como estudante bolsista foi decisiva para me reconhecer profissionalmente na filosofia. Foi quando eu comecei a entender as possibilidades de atuação profissional. Então, eu era - e sou - uma estudante interessada. Eu digo sou, porque mesmo na docência, nós ainda somos estudantes de certo modo. Acho que o interesse pelos assuntos filosóficos foi um elemento facilitador da minha trajetória. Eu sempre tive uma certa facilidade no engajamento com textos filosóficos e que, obviamente, eu fui aprimorando com o tempo.
E quanto a sua entrada na pós-graduação, o que você achou do processo de se tornar pós-graduando? E como foi a experiência de pesquisa na sua área?
Uma continuidade dos estudos realizados na graduação. A minha dissertação foi um desdobramento da temática do meu TCC. As minhas pesquisas seguiram um caminho bastante natural. Eu acho que é também bastante comum você aprofundar as questões trabalhadas na monografia da graduação como um projeto no mestrado. Então, na graduação eu tratei de desdobramentos husserlianos na estética fenomenológica a partir de nuances mais gerais. No mestrado, eu pude aprofundar esses aspectos a partir de conceitos mais específicos, como percepção, imaginação, imagem e fantasia. E o meu propósito era reconstituir as origens conceituais da estética fenomenológica no pensamento de Husserl. Muitas vezes, os principais autores da chamada estética fenomenológica estão na tradição filosófica francesa, como Merleau-Ponty e o Dufrenne, justamente porque, de fato, esses autores articularam de modo mais ostensivo as relações entre fenomenologia e estética. Mas o meu propósito na dissertação foi tentar reconhecer alguns indicativos já no pensamento de Husserl. No doutorado eu continuei trabalhando com a fenomenologia husserliana, mas por meio de novas perspectivas. O meu objetivo da pesquisa nesse momento foi a naturalização da fenomenologia, onde eu explorei aspectos da contemporânea tentativa de aproximação entre fenomenologia e as ciências cognitivas. E um aspecto importante sempre de mencionar é que nessas etapas da pós-graduação, eu fui aprovada nas seleções para as bolsas da CAPES, tanto no mestrado como no doutorado. Então, eu considero que a pós-graduação foi o momento em que eu pude me dedicar mais às pesquisas, em razão de ter esse suporte financeiro das bolsas. Tanto no mestrado quanto no doutorado, eu tratei de desdobramentos dos meus temas de interesse da graduação, as minhas pesquisas seguiram, então, uma linha temática contínua. A aproximação ocorreu por meio do contato, né, com textos de fenomenologia husserliana, especialmente, a “A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental”, que eram textos lidos em disciplinas específicas da graduação. E eu lembro de ter lido, de ter tido um primeiro contato com o pensamento do Husserl justamente na disciplina de Fenomenologia e Hermenêutica, lecionada pelo professor Luiz Rohden, que como eu mencionei anteriormente, foi meu orientador na graduação e mestrado. E eu inclusive fiz o meu estágio de docência obrigatório, posteriormente, nessa mesma disciplina. E eu lembro de ter inicialmente assimilado a fenomenologia como uma disciplina difícil, mas ao mesmo tempo instigante, filosoficamente sofisticada. Então, eu achei que eram razões suficientes para aprofundar os meus estudos nessa área da filosofia. E de modo geral, as minhas experiências de pesquisa foram sempre satisfatórias. Eu tive bons orientadores, o professor Luiz Rohden no mestrado, os professores Marcelo de Aquino e a professora Sofia Stein no doutorado. Embora eles não fossem especialistas no autor, eles sempre me incentivaram, me deram muita autonomia para desenvolver as minhas pesquisas.
Qual foi a sua pior experiência acadêmica?
Bom, essa é aquela pergunta que a gente, por vezes, se questiona se você consegue acessar conscientemente todas essas experiências. O que me vem imediatamente à memória é o sofrimento psíquico vivido na pandemia. Eu estava no doutorado em processo de escrita da tese, apesar de não ser uma situação acadêmica propriamente, todos nós fomos afetados pela pandemia naquilo que nós estávamos fazendo quando ela ocorreu. Então, foi como se a vida acadêmica perdesse o sentido diante de todo o cenário tenebroso que foi. E, claro, que também houve consequências mais imediatas para os doutorandos da época, como a impossibilidade de realização de pesquisas no exterior, porque muitos de nós acadêmicos consideramos que o doutorado é um ótimo momento para você fazer isso, uma experiência de internacionalização. Então, a pandemia foi um balde de água fria, mas é claro que, diante de todo o contexto que nós passamos, esse foi o menor dos problemas. Porque nós chegamos até mesmo em uma situação em que a sobrevivência era mais importante do que as questões conceituais da vida acadêmica. Então, nesse sentido, eu considero quase como se as atividades realizadas nesse período não tivessem nenhuma finalidade. Foi realmente um sofrimento psíquico.
E qual a sua melhor experiência acadêmica?
Eu não consigo pensar em apenas uma. Eu entendo a experiência acadêmica como um percurso cumulativo. Creio que todo o processo na sua completude foi uma boa experiência. Mas é claro que é um processo constituído por pequenas vitórias. Então, nessa perspectiva de aspectos mais pontuais, as melhores experiências para mim foram as obtenções das bolsas de mestrado e doutorado, que foram bolsas integrais da CAPES. Elas foram imprescindíveis, certamente. Voltando para a questão da pandemia, me senti até mesmo privilegiada, por ter essa fonte de renda num período onde as pessoas estavam sendo demitidas e tendo redução de salário. Mas, somadas, então, a essa questão da obtenção das bolsas, eu considero também que as conclusões das etapas do mestrado e do doutorado. E aqui eu entendo que o momento das defesas dos trabalhos foram experiências bastante importantes para mim. Eu lembro das satisfações que eu senti, de igual intensidade, nas finalizações da graduação, do mestrado, do doutorado. No aspecto específico do doutorado, eu entendo que a finalização dessa etapa foi muito significativa, porque era como se eu estivesse encerrando o ciclo de todas essas experiências ruins que aconteceram. Então, foi uma grande realização, apesar das incertezas acerca do futuro profissional.
Se você pudesse voltar no tempo e se dar um conselho naquela época, qual seria?
Acho que eu reproduziria um clichê, mas que parece realmente amenizar boa parte da carga de sofrimento da vida acadêmica, que é: aprenda a lidar com ansiedade. Claro que a vida acadêmica pressupõe organização e planejamento, mas muita coisa acontece fora do nosso controle. Então, objetivamente, o meu conselho seria uma sugestão de desapego mental do que está nesse nível do circunstancial e do fortuito. Acho que o controle da ansiedade pode nos ajudar a aproveitar melhor as etapas acadêmicas e às vezes eu penso que eu poderia ter aproveitado melhor cada momento do meu percurso acadêmico e, talvez, me dedicado com mais paciência a certas questões, E esse conselho vale para quem eu sou hoje, né? Eu acho que eu ainda não cheguei onde eu almejo chegar profissionalmente, mas é preciso talvez não se cobrar tanto. Eu acho que o segredo parece ser o meio termo entre a disciplina que é necessária - pois não é querer dizer que não é preciso você seguir uma dinâmica, uma rotina - e a compreensão dos seus limites. Você precisa achar um meio termo entre esses dois níveis, para preservar a sua saúde mental também. Então, às vezes a gente faz o que é possível fazer naquele momento. Esse seria o meu conselho.
Uma de suas temáticas de pesquisa na fenomenologia aborda a naturalização da fenomenologia. Quais são as contribuições que a fenomenologia pode oferecer ao campo das ciências cognitivas?
Bom, essa foi uma das questões que norteiam a minha tese, uma pergunta que ainda tem sido muito debatida nos campos especializados. De modo geral, essa aproximação se dá, tanto na tentativa de aproximar a fenomenologia clássica com algumas discussões no campo da filosofia analítica da mente. E também você tem a tentativa de aproximar a fenomenologia das ciências cognitivas, que são um campo interdisciplinar, constituídos pela psicologia, pelas neurociências, etc. E essa aproximação é justificada pela dificuldade das ciências cognitivas resolverem alguns problemas difíceis do seu campo de pesquisa. E há uma lista de problemas que interessam aos neurocientistas, tais como o que é a consciência, em que consistem os estados mentais, como eles se relacionam com a matéria - a matéria aqui entendida como estrutura cerebral - se existem estados mentais privados? Então, a questão que se impõe, é que muitas dessas perguntas já foram de certo modo abordadas pela tradição fenomenológica. E o conceito de fenomenologia é majoritariamente utilizado para se referir ao pensamento filosófico de Husserl, do Heidegger, Merleau Ponty, e de vários outros fenomenólogos. E esse sentido é muitas vezes definido como um sentido especializado, mas há, no desenvolvimento da própria tradição analítica da filosofia da mente, um uso mais específico do conceito de fenomenologia. É só nos relembrarmos, por exemplo, da heterofenomenologia, que é um conceito elaborado pelo Daniel Dennett, neurofenomenologia, utilizado pelo Varela, né? Então, nesses casos, o conceito é utilizado para tratar dos dados fenomênicos ou das experiências de primeira pessoa. E parte do interesse filosófico de cientistas da cognição na fenomenologia se dá por ela ser, justamente, uma análise sistemática das experiências de primeira pessoa, embora ela não seja só isso. E essa aproximação entre fenomenologia e ciências cognitivas é também pensada de modo a viabilizar a formulação de uma teoria completa da consciência, porque quando nós falamos do problema da consciência - o que é a consciência? - que ainda suscita muitos debates, nós precisamos considerar a consciência a partir de dois níveis complementares. O primeiro é o de que as realizações cerebrais e dados observáveis em terceira pessoa são importantes, esse é um nível privilegiado pelas teorias naturalistas do campo da filosofia da mente. Mas também nós precisamos considerar os eventos mentais descritos em primeira pessoa, e esse último nível é privilegiado na fenomenologia, se a gente define aqui a fenomenologia como análise da constituição de nossas experiências a partir da nossa subjetividade e de como os fenômenos se manifestam. Então, meu ponto de partida foi a fenomenologia husserliana, e talvez eu nem tenha convencido a minha orientadora, que é uma naturalista. Mas a minha perspectiva parte dessa modalidade de fenomenologia originária, ou seja, os pesquisadores e leitores de Husserl sabem que ele defendia uma posição anti-naturalista, então parece que o meu problema era maior na tentativa de pensar essa aproximação. E, principalmente, porque na fenomenologia a consciência não é redutível às estruturas materiais do cérebro e a realizações mentais. Isso, justamente, porque a condição da consciência na fenomenologia é ser intencionalidade, a consciência está sempre direcionada para a objetividade, para o mundo. Então, justamente por isso, ela não pode ser totalmente reduzida à estrutura física cerebral. E a abordagem da consciência sobre a perspectiva da fenomenologia, ela não é, portanto, aquela que pensa os fenômenos mentais como fenômenos causais, como se eles fossem compostos por diferentes realizações cerebrais. E, claro, que esse nível existe, mas a orientação da fenomenologia é outra. O que está em questão na fenomenologia é a constituição perceptiva da realidade a partir da constituição da experiência através de seus diferentes momentos, de seus estratos constitutivos. Então, essa foi um pouco a linha geral da tese que eu pretendia desenvolver.
Recentemente você tem se dedicado a questões do ensino de filosofia, como por exemplo, no projeto “Filosofia Criativa: desenvolvendo uma didática disruptiva para o ensino filosófico” e o “Filosofando em múltiplas linguagens”. Como o interesse pelo ensino da filosofia surgiu? Porque pensaram na filosofia em didáticas disruptivas?
Os dois projetos mencionados estão interligados. Na verdade, o projeto “Filosofando em múltiplas linguagens” é um projeto de extensão vinculado ao projeto de pesquisa “Filosofia criativa”. Ambos são coordenados por um colega da área de filosofia da UEFS, o professor Alexnaldo Teixeira Rodrigues, que gentilmente me convidou para participar das atividades como professora colaboradora. Na minha condição atual de professora substituta, eu não posso ter um projeto de pesquisa vinculado ao meu nome. Então, essa tem sido uma experiência bastante interessante. O meu interesse pelo ensino de filosofia vem desde a graduação, desde o momento em que eu migrei do bacharelado para a licenciatura. Recentemente eu até fiz uma especialização em ensino de filosofia EAD na UFPEL. Foi um curso interessante, e eu creio que todo licenciando ou licenciado tem interesse nesse tema, especialmente quando nós nos damos conta de que as técnicas e metodologias de prática docente não estão dadas nos conteúdos filosóficos que aprendemos na graduação. Muitos de nós nos reconhecemos como pesquisadores em conceitos e filósofos da tradição. Isso não guarda muita relação com a vida em sala de aula, por vezes nós até temos um choque de realidade quando começamos as atividades em sala de aula, especialmente na educação básica. O projeto de pesquisa “Filosofia Criativa” explora essa lacuna formativa dos graduandos em filosofia da UEFS. Nós temos muitos estudantes vinculados ao projeto que são PIBIDianos, ou seja, estão justamente iniciando as suas atividades em sala de aula. E nessa extensão, nós realizamos alguns laboratórios de criação pedagógica, que são voltados para o ensino de filosofia, e os graduandos realizam atividades baseadas em metodologias ativas que estimulam as chamadas “didáticas disruptivas”. E disruptivas aqui, porque elas rompem com modelos tradicionais de abordagens didáticas. Então, nesse sentido, a gente passa de um modelo mais hierárquico, centralizado na figura do professor e que funciona talvez no contexto mais acadêmico, mas, no contexto da educação básica, por vezes, você tem uma configuração mais problemática em adotar esse modelo mais tradicional. E uma didática mais disruptiva é justamente aquela em que você não utiliza mais essa perspectiva de uma transmissão passiva do conhecimento e adota uma dinâmica de invenção de conceitos compartilhada. Você utiliza uma reflexão mais dialógica, de escuta, tentando justamente fazer com que o ensino de filosofia seja mais efetivo, especialmente no contexto da educação básica.
Em um artigo recente, você desenvolveu as concepções sobre a “natureza feminina” em Stein e Beauvoir. Na sua visão, como a abordagem fenomenológica pode nos auxiliar a pensar questões de gênero?
Eu gostei dessa pergunta porque foi um texto que eu gostei de escrever. Esse artigo é parte de um projeto pessoal e recente de explorar aspectos conceituais nas obras de fenomenólogas e fugir um pouco da fenomenologia de Husserl, um autor que foi objeto das minhas pesquisas ao longo dos últimos anos. Então, como acadêmica, eu tenho interesse em me situar nas discussões sobre revisão do cânone e nos debates sobre epistemologias feministas. A Stein e a Beauvoir são autoras razoavelmente conhecidas, talvez aqui não seja o caso de pensar por uma perspectiva de revisão do cânone, de certo modo, elas já têm uma certa aderência em pesquisas acadêmicas, possivelmente Beauvoir muito mais. Porém, o seu reconhecimento histórico não é equiparável a de seus pares homens, Stein certamente não alcança a mesma influência de Husserl e Heidegger, por exemplo. A Beauvoir, embora seja uma das filósofas mais conhecidas, por vezes ela é até mesmo conhecida por ser uma escritora, ela própria se autodefinia desse modo, e ela ainda assim é muitas vezes considerada como uma autora satélite em relação ao pensamento de Sartre. Há quem diga que ele escreveu parte da sua filosofia. Então, você sempre tem essa questão, dessas mulheres estarem nesses contextos de uma constante autoafirmação. E o meu propósito na escrita desse texto foi inicialmente problematizar a noção de natureza feminina, que não é uma expressão científica ou neutra - esse é o meu pressuposto - , mas é historicamente carregada de estereótipos, como se eles fossem disposições psicológicas intrínsecas às mulheres. E claro que essas supostas disposições naturais, em verdade, são marcadores sociais do papel feminino. A partir dessa definição de natureza feminina, eu inicio a minha argumentação, mas também considero que a fenomenologia é fundamentada por uma orientação anti-naturalista desde as suas origens conceituais em Husserl. Nesse sentido, a fenomenologia é a crítica dos reducionismos fisicalistas e metafísicos à natureza. Então, você já tem uma certa abertura para nós pensarmos a fenomenologia por essa perspectiva, mas é claro que não há uma articulação ostensiva entre fenomenologia e gênero em Husserl, mas nós podemos considerar que em Stein e Beauvoir nós temos uma aplicação mais ostensiva, na medida em que as duas autoras submetem à análise fenomenológica esse conceito de natureza feminina. Isso porque as duas - embora haja diversas diferenças entre as duas, e isso eu considero também no meu texto -, mas eu entendo que as duas partem de uma perspectiva fenomenológica, porque as duas, de certo modo, estão respondendo a pergunta: "O que significa ser mulher para mim?" Então você parte das suas próprias experiências, e ambas, com as suas particularidades existenciais, tiveram essa questão como um pressuposto ao analisarem a situação social das mulheres na sua contemporaneidade. E claro que ambas fazem isso a partir de suas próprias vivências corporificadas. Então, a partir dessa caracterização, é que eu trato também das evidentes diferenças entre as duas, porque a Stein, ela tem, na verdade, uma posição que me parece ser um tanto ambígua quando ela trata dessa noção de natureza feminina, porque ela de fato considera que a natureza feminina não deve ser um condicionamento para o destino social da mulher, mas ainda assim ela defendia uma perspectiva pedagógica específica para mulheres e para homens. E aí, parece que ela tenta se desvencilhar de um certo determinismo, dizendo que não há uma natureza determinante, mas se a mulher for educada para ser a companheira do homem, ela estará de acordo com a sua natureza. Então, o modo como eu entendo a perspectiva da Stein é nesse sentido de ela adotar uma posição ambígua, ainda que ela tenha no seu contexto, de uma freira, que posteriormente foi até mesmo canonizada pela Igreja Católica. Ela conseguiu uma certa mudança de perspectiva importante no que diz respeito a uma releitura do mito fundacional da cosmogonia bíblica, de Adão e Eva, no sentido de que ela pretende dizer que as mulheres não estão condenadas pelo pecado original, justamente em razão da figura de Cristo. Então, é claro que eu não chego a desmembrar o artigo a partir dessa perspectiva mais teológica, religiosa da Stein, mas a minha ideia é situá-la como uma fenomenóloga, explicitando o significado de natureza feminina para sua fenomenologia e apresentando, por fim, um contraste com a fenomenologia de Beauvoir. Evidentemente, nós entendemos que o conceito de natureza feminina indica, na verdade, as dinâmicas históricas de naturalização da subjugação feminina. Então, para Beauvoir não há nenhum tipo de ambiguidade nesse sentido, né? O artigo tem essas nuances, uma definição de fenomenologia como uma orientação antinaturalista, uma definição geral do quão problemático é esse termo de natureza feminina. E, então, eu utilizo os conceitos das duas autoras mencionadas para pensar esse problema.
Você esteve no comitê editorial de diversas revistas científicas. Como foi essa experiência? Quais são, na sua percepção, os principais desafios enfrentados por revistas científicas na área de Filosofia?
Na verdade, essa é uma experiência ainda vigente. Eu ainda atuo como editora em alguns periódicos. Eu adoro trabalhar com editoração, possivelmente porque é um trabalho bastante técnico, mas que também nos dá a oportunidade de interagir com outros pesquisadores da filosofia, sejam eles pareceristas ou articulistas. Como editores, nós temos um panorama geral, um panorama das pesquisas realizadas em filosofia, principalmente no contexto nacional. E há muitos trabalhos interessantes e de qualidade, isso é muito interessante. Eu nunca atuei como editora chefe, mas como editor adjunto e assistente, então eu não conheço as dificuldades de todas as etapas da editoração. Mas eu creio que as principais dificuldades das revistas de filosofia são basicamente as mesmas de periódicos em outras áreas. Por exemplo, o uso demasiado de inteligência artificial é certamente um desafio, especialmente no que se refere a questões graves como plágio e má conduta acadêmica. Então, você tem aí uma questão ética no que se refere à difusão do conhecimento em filosofia. Como editora, eu entendo que esse é um problema que nós precisamos tratar com muito cuidado. E o outro ponto que me parece problemático é uma outra percepção, que talvez seja muito pessoal, a partir das minhas experiências até o momento como editora, que é que me parece ser uma falta de consciência por parte de alguns acadêmicos sobre a importância da atividade de revisão, ou seja, a atividade de fazer pareceres. Porque essa é também uma etapa importante para a difusão do conhecimento. E às vezes me parece que muitos acadêmicos acabam priorizando a etapa que é obviamente importante, da publicação. Você publica o seu texto, ou seja, você submete o seu texto em periódicos e, obviamente, você espera que haja pareceristas disponíveis para avaliar enquanto pares, especialistas na sua área. E por vezes, esse mesmo acadêmico acaba não estando disponível para realizar pareceres. Então, essa pode ser uma percepção bastante pessoal, porque você também não pode dizer que todas as pessoas que recusam pareceres é porque não tem nenhum interesse. Claro que a pessoa pode ter uma questão pessoal de disponibilidade, mas por vezes, eu percebo isso até pela observação dos currículos das pessoas. Muitos têm vários artigos publicados, mas poucas atividades em revisão de periódicos. Não sei dizer por que isso acontece de fato, mas eu entendo que isso pode ser um pouco problemático, né? Então acho que a etapa da publicação e da revisão de artigos é uma via de mão dupla, para a difusão do conhecimento de filosofia no nosso contexto nacional.
Você fez toda a sua formação na Unisinos, em São Leopoldo. Hoje você leciona na Universidade Estadual de Feira de Santana, na Bahia. Como é a experiência de docência em outro estado, em outra cidade, às vezes com pessoas as quais você não conhece?
Obrigada pela pergunta, achei que foi bem sensível da sua parte, porque eu tive uma certa dificuldade de adaptação. Eu vivi a minha vida inteira no Rio Grande do Sul, sou do Rio Grande do Sul e eu estou aqui faz um pouco mais de um ano. Há quem diga que para você conseguir a cidadania baiana, você precisa estar aqui há uns 10 anos. Então, ainda tenho muito tempo pela frente. E não foi um processo fácil, porque de fato tem muitas diferenças em relação ao clima. A Feira de Santana é uma cidade muito quente. E a questão da alimentação é muito diferente também, a comida. Acho que essa parte da comida talvez eu não tenha ainda me adaptado totalmente. E eu acho que é um desafio lecionar filosofia no interior da Bahia, apesar de ser um contexto universitário, onde você espera que os alunos tenham um maior nível de preparo, e como eu leciono não só pro curso de filosofia, mas para outros cursos também, você tem uma certa dificuldade muitas vezes de engajar os alunos, né? E talvez aqui não seja um aspecto regional. Acho que nacionalmente eu ouço colegas falando disso, especialmente no que se refere à questão das redes sociais, do modo como os estudantes estão fazendo pesquisas. Para nós da filosofia, essa questão da relação do estudante com o texto é muito importante. E eu considero que os meus alunos da filosofia, os que têm interesse se engajam com os textos, mas por vezes os estudantes dos outros cursos falta um pouco dessa dinâmica de um interesse mais objetivo nos textos da filosofia. Então, claro que nós professores precisamos muitas vezes achar modos de despertar esse interesse. Acho que esses são os principais desafios assim da docência atual.
Dentre seus trabalhos, quais você indicaria para quem quer conhecer melhor sua pesquisa?
Essa eu achei uma das perguntas mais difíceis, porque eu acho que todos os nossos trabalhos são parte da nossa trajetória. Mas de imediato, eu diria que a minha tese e a minha dissertação são os primeiros trabalhos que me vieram à mente. E, talvez, porque em geral a gente considera que dissertação e tese são os nossos trabalhos mais consolidados. Mas eu indico, na verdade, três artigos. O primeiro é “A personalidade orgânica: o materialismo pós-fenomenológico de Catherine Malabou” (2024), no qual eu trato de alguns aspectos da filosofia da mente da Malabou, é sabido que as discussões no campo da filosofia da mente são de orientação fortemente analítica. E eu acho que a Malabou é uma autora bastante interessante, porque ela trata de questões relacionadas ao cérebro, a questão da elasticidade, mas por uma perspectiva mais continental. Continental porque as referências dela são Hegel, Heidegger, Derrida. Então, ela tem uma abordagem bastante interessante, eu chamo essa abordagem de materialismo pós-fenomenológico, porque ela evita essa crítica ao reducionismo, que é uma orientação da fenomenologia clássica, mas ela também não adere às teses materialistas mais radicais. Então, é um pouco esse o panorama geral do meu artigo. Outro texto é “Gadamer e as mulheres: a epistemologia feminista como práxis hermenêutica” (2023). Eu gostei de escrever esse texto, ele está publicado em um dossiê sobre Gadamer. E nesse texto, eu situo as minhas pesquisas, que ainda me interessam na hermenêutica filosófica de Gadamer, nesse contexto das discussões mais contemporâneas e muito necessárias das epistemologias feministas. Então, eu tento um pouco aplicar alguns conceitos do Gadamer, especialmente a relação que o Gadamer tem com a tradição filosófica, né? Discutir epistemologia feminista, por vezes nos leva a interagir com a tradição. E o Gadamer, ele tem já na sua hermenêutica alguns indicativos dessa relação com a tradição que eu acho que são interessantes. Então, isso que eu pretendi desenvolver nesse texto. E, por fim, eu indicaria o artigo “Teoria da consciência em Simone de Beauvoir” (2023), onde eu exploro alguns aspectos da fenomenologia da Beauvoir na tentativa de caracterizar a originalidade de sua fenomenologia propriamente em detrimento do Sartre, do Bergson, do Merleau-Ponty, que por vezes são até interlocutores da própria Beauvoir, ela menciona e explicitamente diz que tem uma certa influência desses autores. O meu propósito foi o de pensar uma teoria da consciência da Beauvoir, não posso chamar isso de spoiler, porque eu acho que isso já está evidenciado para todas as leitoras da Beauvoir, que a gente não pode pensar uma fenomenologia da Beauvoir sem entender os contornos feministas do seu pensamento. Porque a consciência que é desenvolvida por ela aqui é uma consciência corporificada, e esse também é um conceito importante para a fenomenologia. Então, esse é um desdobramento geral desse texto.
E quais são seus projetos para o futuro? O que podemos aguardar?
Essa é uma pergunta difícil também. Eu logo lembrei daquele meme, eu não posso revelar (Risos). Ou seja, você não tem um projeto. Mas a curto prazo, eu tenho funcionado assim, fazendo projetos para curtos períodos de tempo. Então, eu pretendo continuar como professora substituta na UEFS. Eu ainda tenho a perspectiva de mais uns anos aqui onde eu estou, e simultaneamente, eu pretendo trabalhar no meu projeto de pós-doutorado, justamente para dar continuidade às minhas pesquisas e que, por fim, de fato acabei negligenciando aspectos de problemas filosóficos que eu ainda pretendo trabalhar em um pós-doutoramento.
E para finalizar… como é ser uma filósofa?
É uma atividade muito recompensadora, mas ainda muito difícil. Apesar dos avanços, ainda há uma evidente disparidade quantitativa entre mulheres e homens nos cursos de filosofia. Isso é observável tanto na docência quanto no alunado, especialmente quando a gente olha pro alunado da pós-graduação. Em geral, as mulheres tendem a abandonar o curso, não conseguem finalizar essas etapas. Então, eu acho que também por isso, quando eu respondi a perguntas sobre quais são as minhas melhores experiências acadêmicas, as finalizações são importantes para nós mulheres, para a gente conseguir encerrar esses ciclos acadêmicos e avançar. Então, infelizmente, nem todas as mulheres podem fazer isso. E ser uma mulher filósofa é você conviver com modos ostensivos de hostilidade intelectual ou mesmo física, em casos mais graves, como em episódios de assédio. Eu tive sorte de nunca ter passado por nenhum tipo de assédio, seja no meu ambiente acadêmico, onde eu fiz os meus estudos, seja agora, como docente. Eu tive sorte, mas ainda assim nós sempre ouvimos relatos, isso é algo que me chama bastante atenção. Então, acho que também ser filósofa implica a convivência, com dinâmicas de invisibilização, que são também muitas vezes sutis, né? Não são ostensivas, como comentários depreciativos sobre as nossas capacidades acadêmicas. Então, ser filósofa é se engajar em um esforço pela permanência pessoal, porque você quer continuar frequentando esses espaços, você quer ter a sua voz ouvida nesses ambientes. Mas, claro, você também se engaja na permanência de outras mulheres nesses mesmos espaços de trabalho. E ser filósofa também é muitas vezes comemorar as conquistas acadêmicas das outras mulheres, porque é um processo de redução da subrepresentação que, infelizmente, apesar de vários avanços, ainda é muito evidente para nós mulheres, seja nesses casos mais graves, seja nessas situações menos evidentes, que por vezes não é evidente para os colegas homens, mas para nós mulheres é facilmente reconhecível. Então, é importante também de nós mulheres entendermos que esse engajamento é coletivo e não apenas individual.