Por que Filosofia? Você se recorda de como e quando escolheu o curso?
Sim, eu lembro exatamente do momento, inclusive. Eu estava no colégio conversando com uma amiga no intervalo e, sabe aquele momento de revelação do adolescente que pensa que teve uma ótima ideia? Estudar filosofia. Foi mais ou menos isso. A influência que eu tive foi de uma professora, a Simone Paixão, que era uma professora de História, mas a abordagem dela de história era muito filosófica, digamos assim. Então, eu não tive Filosofia no colégio, mas essa professora me influenciou muito. E eu lia um pouco de filosofia. Na época eu estava lendo Schopenhauer, por exemplo, e eu fiquei super encantada e pensei: "É isso que eu quero estudar". Mas eu já sabia ali, que era uma decisão que, naquele momento, eu chamei de corajosa. Hoje eu a chamaria de temerária, por conta do mercado de trabalho. Fazer a graduação apenas em Filosofia, porque claro que eu poderia fazer Filosofia, mas estudar em outra área também. Aquelas coisas que a família sugere, mas eu coloquei todas as minhas fichas nisso. Tive sorte que deu certo, mas poderia não ter dado, né? Para mim, foi uma decisão em torno do que eu estava encantada naquele momento. E eu continuo encantada. Então, acho que deu certo.
Nos conte como foi sua experiência na graduação? Você consegue pensar em pessoas e autores que foram referências ou em algum momento marcante para sua trajetória acadêmica?
Eu fiz a graduação na UFRGS e naquele momento era uma graduação centrada em autores clássicos, então tinha uma ênfase muito grande em História da Filosofia. Aquela abordagem canônica: Platão, Aristóteles, Tomás de Aquino, Descartes, Kant, Hume, né? E depois, na contemporânea, a ênfase era nos analíticos. Então, era uma formação bastante centrada nisso, em lógica, em filosofia analítica. E acho que foi muito bom, do ponto de vista de dar uma base sólida nessa formação mais clássica, se a gente for chamar desse modo, e voltada para uma prática em pesquisa acadêmica em Filosofia. Tinha uma ênfase nisso e em aprender aquela análise muito cuidadosa dos textos e centrada nesse tipo de abordagem, de pesquisa acadêmica mesmo. Ao mesmo tempo, eu tinha muito interesse em outros autores que a gente não via na graduação naquele momento. Até porque não tínhamos professores especialistas nisso. Então, por exemplo, eu não vi nenhum autor de Fenomenologia na graduação. Foi algo que eu fui buscar por conta própria e inclusive foi o motivo pelo qual eu fui fazer a pós-graduação na PUCRS, porque eu queria estudar Fenomenologia. Mas, assim, eu lembro que foi um período muito legal, eu fazia outras coisas também, então por eu ter esse lado mais autodidata, eu estudava outros assuntos que eu não vi ali na graduação, o que foi super positivo para mim. Também tinha a questão de que eu era engajada com outras coisas. Eu fiz parte do centro acadêmico, fui presidenta do centro acadêmico, o Cadafi, que existe até hoje lá, e isso foi muito legal. Eu estava estudando Aristóteles, então fiz parte do curso de grego também, lá no departamento de Letras. Era uma graduação também bastante flexível para a gente fazer eletivas, o que era muito legal. Então, acho que eu aproveitei várias oportunidades que tive naquele momento, mas ao mesmo tempo sentia falta de estudar esse outro lado, principalmente da filosofia contemporânea, que eu não estava vendo ali. E aí acabei buscando isso em outra universidade, e fui para a PUCRS. Foi mais ou menos essa a trajetória que eu tive. Mas uma coisa que me marcou muito também é que algumas das professoras mais didáticas, digamos assim, que eu tive na graduação, eram professoras mulheres. E aí, quando eu cheguei na pós-graduação, não tive nenhuma professora mulher, e isso é todo um capítulo à parte, né? Foi uma mudança muito grande de ambiente para mim, da graduação para a pós-graduação, nesse aspecto de gênero. Mas a graduação foi um período muito legal, de modo geral.
Como você se descreveria enquanto estudante?
Acho que eu era uma estudante que fazia, digamos, o que era esperado, mas como comentei, eu não ficava apenas estudando o que era passado para mim. E nisso tive sorte em certo sentido, porque o meu pai sempre falou isso, tipo, “não fica só com o que os professores te mandarem ler, porque tem que ler outros autores também”. Então, de certa forma fui incentivada a buscar o que me interessava. Eu tive também um grupo de amigos, e vários deles são meus amigos até hoje, inclusive, e eles também se interessavam por outras áreas da filosofia. Então a gente estudava juntos e um mostrava pro outro textos para além do que estava rolando na graduação. Mas tinha uma coisa também naquele momento que era um curso muito exigente. Tanto que poucas pessoas se formavam, sabe? Eu acho que na época também não havia tanto essa discussão sobre evasão, e na verdade vários cursos de filosofia ainda enfrentam esse problema da evasão, mas não havia tanta pressão para que os cursos tentassem resolver isso. Então, os cursos em geral colocavam o nível de exigência muito alto e as pessoas que dessem um jeito. O clima era um pouco esse, né? Mas o lado bom é que a pessoa recebia uma formação muito sólida, principalmente em História da Filosofia. Naquele momento, foi muito bom para mim, mas também, por outro lado, acabava que para o pessoal que precisava trabalhar, por exemplo, era um curso complicado até pelos horários. Então, ficou mais pesado nos momentos em que eu trabalhei durante a graduação. Eu trabalhei no MARGS, por exemplo, durante um período, como mediadora do museu de arte. Aí tinha que ficar dando um jeito com a questão dos horários. Então, acho que esse era o desafio que existia naquele momento. Mas o que fez toda a diferença para mim foi ter um grupo de amigos com a mesma postura, que também queriam fazer várias coisas, estudar vários assuntos, então foi excelente nesse sentido. Acho que eu aproveitei bem esse período.
E quanto à sua entrada na Pós-Graduação? O que você achou do processo de se tornar pós-graduanda?
Olha, por um lado foi uma mudança muito grande, uma mudança de ambiente que num primeiro momento foi difícil para mim. Primeiro porque fui para a PUCRS. Sei lá, era outro ambiente. Até em relação ao fato de o pessoal ser muito mais arrumado, coisas assim, sabe? Eu passei a graduação, sei lá, usando Havaianas (risos) e de repente eu estava num lugar diferente. E ali, também, algo que num primeiro momento foi impactante para mim, é que era um curso muito masculino. Isso, talvez por características específicas da PUCRS, na época. Tanto que eu não tinha nenhuma professora mulher e muitas vezes nas disciplinas da pós eu era a única mulher, principalmente no mestrado era assim. E eu não estava muito acostumada com isso, porque por mais que na graduação a maioria fossem homens, era mais equilibrado. Só que lá na pós foi um choque para mim nesse sentido. E aí comecei a perceber determinadas questões mais estruturais ali, eu via que eles não me tratavam da mesma maneira. Comecei a perceber mais a questão de gênero nesse momento. Mas, ao mesmo tempo, quanto ao aspecto acadêmico foi super interessante, porque foi o momento em que tive a oportunidade, principalmente porque eu estava estudando Filosofia Contemporânea, de estudar uma série de autores que eu nunca tinha visto na graduação. Então, intelectualmente, foi muito frutífero para ampliar a minha visão de filosofia. É como se na graduação eu tivesse me voltado muito para a questão da Filosofia Analítica, porque era a ênfase que havia na graduação naquele momento. E aí, na pós, comecei a estudar Filosofia Continental, até por eu estar estudando Heidegger no mestrado. E depois, no doutorado, quando passei a estudar Husserl, surgiu a oportunidade de estudar na Alemanha, o que também foi muito importante para a minha formação. O PPG em Filosofia da PUCRS mantinha muitos contatos com universidades alemãs, o que facilitava muito esse tipo de intercâmbio. Então, do ponto de vista acadêmico foi bem interessante, mas quanto ao ambiente, num primeiro momento, foi um pouco desafiador. Eu me sentia um pouco excluída ali na PUCRS, que não tinha muito espaço para mim. Mas o fato de eu ter passado por essa formação mais voltada para Filosofia Continental, se a gente for usar essas categorias, foi fundamental também, porque eu teria ficado um pouco restrita, digamos assim, principalmente para quem trabalha com contemporânea, né? Acho importante essa diversidade, e ali eu tive a oportunidade de ver professores que tinham uma forma de abordar filosofia muito diferente também. Desde professores que também davam uma ênfase muito grande na História da Filosofia, mas com outra visão, até professores que trabalhavam mais com questões temáticas, mais voltados para problemas do que propriamente em autores. Então, para mim foi muito interessante nesse sentido. Essa é a vantagem de trocar de instituição. Me parece super benéfico, sabe?
Como você se aproximou dos seus temas de pesquisa do Mestrado e do Doutorado? Como foi a experiência de pesquisa na sua área?
Pois é, foi assim, na graduação, o meu TCC foi em Aristóteles. Eu estava estudando a Metafísica de Aristóteles e questões de Ontologia. E aí, por causa desse estudo, acabei chegando em alguns textos de Heidegger. E aí quando eu comecei a ler isso, primeiro, não entendi nada (risos). Mas fiquei “encucada” com aquilo. Então comecei a ler textos de introdução ao pensamento de Heidegger para tentar entender. E fiquei muito fascinada com essa abordagem da filosofia, muito diferente de tudo que eu tinha visto. E aí me interessei por alguns aspectos, que sempre me interessaram muito, de questões metafilosóficas. Eu estava querendo pesquisar a questão do método fenomenológico. Tanto que, na verdade, por mais que eu tenha mudado de autor, foi sempre em torno da questão do método. Então, comecei a estudar esses temas e foi o que me deu a possibilidade de realmente mergulhar na Fenomenologia, estabelecer uma pesquisa na Fenomenologia, que ainda é uma área que, por mais que não seja o que eu estude hoje, me guia muito do ponto de vista metodológico, do tipo de abordagem filosófica. Então, nesse aspecto acadêmico, foi muito proveitoso. E outra coisa que fez muita diferença ali e foi fundamental, e eu agradeço muito a PUCRS por isso, é porque eu era bolsista integral, o que significava que eu não pagava o curso e ainda tinha uma bolsa. Eles tinham uma exigência muito grande com esses bolsistas do curso, né? Até porque, enfim, já era um programa consolidado, então, eles tinham muita exigência, inclusive em relação à publicação, e eu nem tinha noção direito de como fazer isso. Então, a gente tinha que publicar, participar de eventos, essas coisas. Eu aprendi na prática a lidar com esse lado da área acadêmica. E vejo que, em função disso, aprendi antes do que colegas que fizeram a pós em outras instituições, por exemplo, o que no fim das contas foi fundamental para a minha carreira. Então, o fato de eu ter precisado correr atrás para ver como é que publicava texto, como é que organizava evento, acabou ajudando. Eu fui, por exemplo, editora da Revista Intuitio (antigamente revista da PUCRS). Assim, acabei aprendendo a lidar com vários aspectos, adquiri várias habilidades acadêmicas que foram fundamentais para minha carreira depois. É como se eu tivesse sido levada desde muito cedo a fazer um currículo, o que depois contou para ter outras oportunidades, principalmente quando terminei o doutorado. Então foi um período bem significativo para eu aprender a lidar e saber que isso também faz parte. É aquilo: a pessoa pode ser excelente, estudar muito, mas se aquilo não estiver no Lattes, ela vai ter problema depois. Então, essa exigência, esse olhar mais pragmático, isso de que eles já nos conduziam em relação à carreira, me ajudou muito. Acho que é algo que tem a ver com essas discussões todas que a gente está tendo, porque a pessoa ganha uma praticidade que tem o lado bom e ruim, né? Claro que às vezes era muita pressão, mas depois que engrena, a pessoa sai dali muito mais preparada, até porque é obrigada a aprender a fazer aquilo. Em outros lugares, às vezes, a pessoa nem se dá conta de que isso vai fazer falta depois. E a questão também, eu acho, foi que para mim ajudou muito para sair do perfeccionismo. Do tipo assim “ah, não tá bom, sou só uma estudante”. Não, realmente, claro que não! Mas tinha uma coisa assim: “olha só, tu é estudante, tu vai publicar um texto de estudante. É isso que tu consegue fazer agora e tá ótimo”. Agora, tem que fazer, sabe? Então, foi sofrido, mas foi importante, né? Hoje eu vejo que foi importante.
Qual sua pior experiência acadêmica?
Bom, as piores eu acho que, como para a maioria das mulheres, foram questões de machismo. Para mim foi principalmente ali na pós mesmo, talvez por ser um ambiente muito masculino. Mas ao mesmo tempo, nunca passei por algo gravíssimo, como eu sei que algumas colegas passaram. Tive muita sorte nisso. Mas eu ouvia comentários. Assim, eles falavam da minha aparência. “Ai, por que não se arruma?”, comentários desse tipo. Lembro que um professor, uma vez, fez um suposto elogio que foi assim: "Ah, a Juliana escreve como homem”. Esse era o “elogio”, né? A pessoa pensa: "O que é isso, exatamente? Escrever como homem?” Mas, claro, vamos ver o contexto. A gente está falando... faz uns 15 anos isso. Então, é claro que as coisas melhoraram um pouco. Eu acho que hoje, daquela maneira tão escancarada como era, já não ocorre mais, pelo menos na maior parte dos ambientes. Ou, quando ocorre, tem uma reação, o que naquele momento não tinha, era realmente muito naturalizado esse tipo de comentário. Mas o que aconteceu para mim foi mais isso, foram momentos pontuais. E eu tinha muita insegurança também de falar, eu tinha muita insegurança de me manifestar ali porque eu percebia que recebia um tratamento diferente, mas ao mesmo tempo não era tão escancarado. Mas fui aprendendo a lidar, e é a vida real, né? A gente também vai aprendendo a lidar com esse tipo de coisa. E no meu caso não teve, como outras pessoas tiveram, depressão na pós, por exemplo. Tive sorte de não passar por essas questões de saúde mental. E quanto ao trabalho em si, honestamente falando, principalmente vendo a questão de alguns amigos com trabalhos extremamente precarizados, eu me achava tão privilegiada de estar ganhando uma bolsa... Tá, era uma bolsa pequena, mas assim, eu me virava com aquela bolsa, e estava sendo paga para trabalhar com o que eu gostava. Eu achava isso um privilégio tão grande que eu pensava “gente, é óbvio que eu vou me esforçar”, entende? Então assim, claro, tem pressão, tem tudo isso, mas observando a situação de outras pessoas com outros trabalhos, também mal remunerados, mas muito mais precarizados e que não estavam fazendo o que elas gostariam de fazer, eu olhava para isso como uma oportunidade que eu precisava aproveitar. E eu não posso dizer que tive um grande sofrimento em torno disso, da questão acadêmica em si, não posso dizer que tive. Eu focava no lado bom. Estar ali estudando, trabalhando com algo que eu gosto, enfim, que escolhi estudar, que ninguém está me obrigando a fazer. Então, é o que fazia eu passar por cima dessas coisas todas ali, inclusive do machismo que existia. E também não era todo mundo, tá? Óbvio que não era todo mundo. Eu tinha vários colegas, que também são meus amigos, pessoas super legais, que inclusive notavam isso também. Mas era uma tendência que também era algo muito mais presente no período, né?
Qual a sua melhor experiência acadêmica?
De modo mais geral eu diria que foram os amigos. Mas assim, do ponto de vista mais acadêmico, os grupos de estudos. Inclusive, teve até o grupo em que a gente se conheceu, né, Cami? O grupo de pesquisa em gênero, sexualidade e feminismos. Então, esses grupos eu acho que foi o mais legal, porque envolveram essa troca que eu sempre senti um pouco de falta, já que às vezes o trabalho na filosofia acaba sendo muito individual, talvez até individualista em algum aspecto, por conta de como normalmente é feito. Então participar desses grupos sempre foi o mais legal para mim, o diálogo, construir junto, poder discordar também e de uma maneira respeitosa e frutífera. Sempre gostei muito disso, da filosofia sendo feita pelo diálogo. Então, para mim foram os grupos. E essa coisa, né, Cami, de não ficar dependendo necessariamente de um professor para organizar as atividades. Tanto na graduação como na pós, o pessoal se reunir: “ah, vamos ler sobre tal assunto, vamos discutir”. Penso que ter essa iniciativa é legal também, ir atrás do que está rolando de interesse naquele momento. Porque realmente a gente tem acesso a temas que nem chegaríamos a conhecer se não fosse a abertura dada pelos grupos. Eu acho super bom, até para aprender a debater, a estudar junto, ouvir outras opiniões. Me parece super importante para a formação.
Se você pudesse voltar no tempo e se dar um conselho naquela época, qual seria?
Pois é, acho que eu vou falar mais daquilo que eu vejo que normalmente é o que as pessoas precisam de conselho, tá? Mas, no meu caso, seria a questão de determinadas habilidades extracadêmicas, porque elas interferem completamente na academia, no trabalho, de forma geral. Então, no meu caso, tinha a questão da gestão de tempo. Eu precisei aprender a me organizar, e foi isso que ajudou muito com uma série de dificuldades que eu enfrentava. Elas deixaram de existir a partir do momento que eu descobri: “olha só, existem técnicas de organização”. Tem muito a ser estudado nisso e outras coisas, obviamente, como gestão de emoções, enfim, uma série de habilidades que talvez devessem ser mais ensinadas na academia. Vejo que, para muitas pessoas, as dificuldades que elas estão tendo não é com a academia propriamente, mas com outros aspectos que tem a ver com o trabalho, com não conseguirem se organizar, não conseguirem lidar com as emoções. E eu não estou dizendo que seja fácil tudo isso, mas são habilidades que podem ser desenvolvidas, existem técnicas hoje, estudadas na psicologia, por exemplo. Então, olhar para esse lado da vida também, porque às vezes o problema que está gerando uma dificuldade com a academia, na verdade não é algo interno da própria academia. Esse é o ponto, né? Agora, o que eu vejo também, por outro lado... que como falei, em função da minha formação e das exigências que eu tinha como bolsista na PUCRS, acabei aprendendo a lidar com isso na marra. O que eu vejo é que as pessoas têm dificuldade de parar e planejar, e talvez tenha a ver com a organização também, de perceber o que elas precisam fazer hoje que vai ajudar depois. Muita gente fica assim, sabe, “apagando incêndio” e lidando apenas com os problemas do agora, mas não consegue ter um planejamento de carreira. Percebo que principalmente para quem está na pós e pensa em ter seguir na carreira acadêmica, é fundamental isso. Então, por exemplo, se organizar para pensar, “olha só, eu vou precisar ter tempo para desenvolver as minhas publicações, vou precisar olhar pro meu Lattes e ver no que que eu tô precisando melhorar para eu ter um currículo competitivo”. Então, acho que precisa ter um olhar bastante pé no chão, saber que é uma carreira que tem uma série de exigências e demandas, mesmo que a gente não goste disso - e a gente pode fazer o quanto quiser uma crítica ao produtivismo, concordo completamente com essa crítica, tem vários problemas - mas é o jeito como as coisas são e isso não vai mudar tão cedo, né? Então, assim, quem quer essa carreira no curto prazo vai ter que se adaptar em alguma medida, vai ter que aprender a lidar. Então, esse é um conselho que me parece que é o que as pessoas mais precisam, para terem mais chances de inserção no mercado de trabalho. Me parece que esse olhar mais “pragmático” evita muito sofrimento depois.
Por um bom período você tem trabalhado tanto com questões da Fenomenologia, especialmente husserliana, quanto com questões feministas. Como essas duas áreas de pesquisas conversam na sua visão? Pesquisar esses dois campos de maneira concomitante foi interessante?
Olha, a questão feminista para mim foi mais por eu ser feminista e me interessar pelo assunto e ter militado no feminismo. Foi por isso que comecei a estudar essas questões. Tanto que hoje nem são temas que eu estudo de maneira tão dedicada, porque foi algo que surgiu para mim a partir dos grupos. E aí, claro, por eu ter uma formação em Fenomenologia, naturalmente fui misturando as áreas, mas acho que teve muito mais a ver com a minha trajetória de pesquisa e também com o fato de que em determinado momento passei a estudar Beauvoir. Ela tem uma influência muito grande da Fenomenologia e obviamente é uma autora muito importante da Filosofia Feminista, e eu também fui percebendo essas relações. Claro, não fui a única, tem várias autoras que se debruçam sobre isso. Então, foi desse modo que fui relacionando as questões. Agora, tem um aspecto que me parece interessante na relação entre Fenomenologia e feminismo, como várias autoras que se dedicam a isso tratam: penso que a Fenomenologia permite uma abordagem da questão feminista, que talvez destoa um pouco do que é mais comum de ser feito na área acadêmica. Então, o que que eu quero dizer com isso? Por exemplo, vejo que há uma ênfase muito grande em trabalhar esses temas mais a partir da linguagem, da desconstrução, etc. E a Fenomenologia permite, por exemplo, colocar uma ênfase no conceito de corpo para essas discussões, como aparece em várias autoras. O que é um aspecto relevante também a ser discutido na questão feminista. Então, penso que permite algumas relações interessantes ali, sem deixar de considerar, obviamente, que o corpo também envolve construção discursiva, simbólica, etc. Mas várias das questões que são mais pertinentes, para discutir o feminismo hoje, não me parece que a melhor maneira de fazer isso é com a Fenomenologia, tá? Acho que a gente encontra relações significativas, mas quando eu repenso como relacionei as áreas, vejo que tinha muito mais a ver com o fato de eu ser especialista na área e também estar pesquisando questões de feminismo. Foi uma questão mais de trajetória mesmo, eu diria.
Recentemente você tem tratado da relação entre filosofia e artes narrativas. Como você acha que as artes narrativas nos permitem pensar o campo da Filosofia?
É, esse é um interesse que também, de certa forma, surge da minha pesquisa com a Simone de Beauvoir, porque ela dava uma ênfase grande, por exemplo, na relação entre Filosofia e Literatura. Mas para mim são dois pontos de interesse. Do ponto de vista mais teórico, digamos assim, tem toda uma discussão que transcende ao pensamento de Beauvoir, que diz respeito sobretudo à ética e às artes narrativas. Por artes narrativas, eu estou entendendo qualquer tipo de obra de arte que tem uma estrutura narrativa. Então, por exemplo, a literatura, o teatro, o cinema, quadrinhos, enfim. E a discussão de como essas obras permitem uma aproximação ou entendimento de aspectos de moralidade de uma forma diferente do que ocorre com um texto dissertativo tradicional, e as formas de escrita que normalmente a gente desenvolve na filosofia, né? A questão de como a narrativa nos permite, por exemplo, inclusive em relação ao ensino, transmitir determinados aspectos da moralidade. E aí, pensando mais na questão do ensino de filosofia em particular, utilizar essas obras de arte como instrumento didático, pelo fato de elas serem meios mais atraentes para a aproximação da filosofia. Por exemplo, a pessoa vai ter muito mais interesse, de modo geral, principalmente quando a gente tá falando em divulgação de ideias filosóficas, em ler um texto literário, que chama mais a atenção, ou então um joguinho, algo assim, do que ler um texto tradicional de filosofia. E, claro que uma coisa não vai substituir a outra, mas quando a gente está falando em divulgar essas ideias de uma maneira um pouco mais palatável, principalmente para públicos não especializados ou então para quem está se aproximando da filosofia, que ainda está tendo um contato inicial, penso que são instrumentos muito interessantes no aspecto didático também. Então, é nessas duas frentes que tenho atuado, de um lado, uma discussão mais teórica sobre filosofia moral e artes narrativas, em particular da literatura, na minha pesquisa; e, de outro lado, como que a gente pode utilizar essas artes narrativas para o ensino de filosofia.
Por que especificamente a Simone de Beauvoir tem lhe feito pensar sobre narrativas e questões metafilosóficas?
Não foi só a Beauvoir, eu já estudava esse tema, né? Sempre me interessei por esse tema. Mas o que me parece instigante no pensamento da Beauvoir é o fato de ela ser uma escritora, de ela escrever literatura. E esse debate de, até que ponto, por exemplo, existe filosofia na obra literária dela. Isso sempre é uma discussão nas pesquisas em torno de Simone de Beauvoir. E aí tem a questão da própria resistência dela em se assumir como filósofa, porque ela tinha um entendimento, talvez bastante tradicional, a gente pode dizer, de filosofia como um sistema abrangente e tudo mais. Então, isso fez com que por muito tempo ela negasse ser uma filósofa. Só que quando a gente vai ler os textos dela, de por que ela tá fazendo isso, dá para perceber que é porque ela tem uma concepção específica de filosofia, e, por outro lado, também tem uma concepção particular de literatura. E o fato de Beauvoir ter escolhido produzir boa parte da obra dela por meio de textos narrativos, de textos literários, mas eles serem considerados por muitos autores e pesquisadores como textos que contêm muitas questões filosóficas, já é um prato cheio para poder discutir essas questões da relação entre uma área e outra. E, com isso, questões metafilosóficas também. Então, é principalmente por conta do tipo de escrita que ela escolhe fazer, que ao mesmo tempo penso que é uma resposta ao que ela via como um engessamento na área da filosofia.
Atualmente você desenvolve um projeto de extensão voltado para criação de jogos digitais didáticos como produtos educacionais em Filosofia. Poderia nos contar mais sobre o projeto? O que te levou aos jogos digitais como forma de didática filosófica?
Comecei a desenvolver isso quando eu estava na UFAC, na Universidade Federal do Acre. Entrei no mestrado profissional lá como docente, e eu já me interessava por esses projetos, por questões de ensino de filosofia, mas lá passei a pensar isso junto com os estudantes, que também são professores do ensino básico. A gente estava pensando em como fazer para transmitir ideias filosóficas de uma maneira um pouco mais palatável, tanto para os estudantes do ensino médio, mas também como projetos de divulgação científica, de divulgação filosófica. Então, como que a gente torna as ideias filosóficas mais atraentes para esse público que tem curiosidade pela área, mas que ao mesmo tempo não vai ler os nossos artigos acadêmicos, né? E aí eu vi que um dos aspectos que aparece muito na pesquisa é essa questão dos jogos digitais, até porque já tem uma vasta bibliografia, tem todo um respaldo, de que são instrumentos relevantes para a didática, principalmente quando a gente está falando em divulgação de ideias. Porque são produtos que como estão disponíveis online, são facilmente acessíveis, e chamam muito a atenção. Obviamente o público, principalmente jovem, gosta muito disso. E aí eu achei que poderia ser interessante começar a desenvolver uma pesquisa nesse sentido. E também, por um lado, porque gosto de jogos. Não sou uma grande jogadora, tá? Não sou uma gamer, não é isso. Mas sempre tive contato; o meu irmão gosta muito de jogos e eu sempre fui aquela pessoa que gostava de assistir as pessoas jogando. Não gostava muito de jogar, mas eu ficava ali, assistindo. Vejo jogos como obras de arte. Não todos, óbvio, mas muitos são obras de arte. E o que eu notei... e isso de certa forma também foi uma decisão que tomei, que acho que tem a ver com, a partir de um determinado momento na carreira, a gente começa a pensar assim: "Tá, mas no que eu posso contribuir?” Contribuir com algo que talvez outras pessoas não fariam ou a maioria das pessoas na minha área não faria. E isso dos jogos percebi que poderia ser algo, por eu ter certa facilidade de fazer isso. Por exemplo, cheguei a estudar um pouco de artes visuais, então eu desenho; e lido melhor com essas questões técnicas também. Não que eu seja uma programadora ou algo assim, longe disso, mas lido com questões de tecnologia, talvez com mais facilidade do que outros colegas, principalmente na nossa área. Então, eu percebi: “poxa, isso é uma coisa que eu consigo fazer, que os meus estudantes também têm vontade de fazer, e que pouca gente faz”. Acho que teve a ver com esse processo que estou hoje, de olhar, como falei do planejamento lá atrás, para o que eu preciso fazer para construir uma carreira. A partir do momento que já tenho um espaço, quais são os projetos que eu posso desenvolver que talvez sejam os mais frutíferos no sentido de atingir um público maior, de aproximar as pessoas da filosofia? Claro, é sair um pouco da zona de conforto, porque é muito mais fácil para mim continuar fazendo o que já fui treinada para fazer, participar de congressos, escrever artigos, etc. Mas são coisas que, por mais que sejam trabalhosas, elas têm um resultado de impacto um pouco maior, ainda que, claro, mesmo assim seja algo muito pontual. Mas acho que são projetos diferentes do que a maioria das pessoas estão fazendo, e que tem espaço e interesse nisso, né? Então, foi nesse sentido mesmo, de pensar também na questão do ensino de filosofia, na divulgação de ideias filosóficas, em aproximar as pessoas da nossa área, porque me parece que a gente faz pouco isso na academia de modo geral. Mesmo quando a gente faz extensão, às vezes fica muito naquele ambiente da universidade. Então, eu tinha vontade de tentar fazer algo que chamasse um pouco mais de atenção para a nossa área e que atingisse um público que talvez não chegasse perto da filosofia, que não ia por conta própria ir atrás de filosofia, sabe? Foi com essa intenção.
Dentre seus trabalhos, quais você indicaria para quem quer conhecer melhor sua pesquisa?
Olha, quanto à pesquisa teórica em filosofia, da pesquisa mais acadêmica tradicional, eu acho que uma boa porta de entrada, até para a questão dessa minha pesquisa mais recente, é um artigo que publiquei no ano passado, Entre filosofia e artes narrativas: o romance metafísico de Simone de Beauvoir e seus desafios metodológicos (2025). Acho que com isso a pessoa consegue ter uma aproximação do que eu tenho discutido no âmbito dessa pesquisa sobre a qual comentei. Mas em relação ao que tenho desenvolvido, que penso que é o mais interessante por essas razões que falei, são os jogos que a gente tem produzido. Então, tem o Café Sócrates (https://cafesocrates.my.canva.site/). Também tem um jogo que foi produzido no ano passado com os alunos da UFRGS, O caso Abysson (https://view.genially.com/68e18e8b9bd25d85da47f80a). É um jogo de investigação e o jogador interage com personagens, encontra pistas no cenário e tudo mais. Esses são os projetos que eu destacaria, porque, de um lado, claro, tem a pesquisa acadêmica, mas queria falar principalmente desses projetos, até porque podem servir como um convite para as pessoas que têm interesse em produzir algo assim, né? Me parece que a gente tem muito espaço para aproximar as pessoas da filosofia, principalmente se fizer uso desses instrumentos que não ficam restritos àquela linguagem acadêmica mais tradicional. Tenho pensado muito nisso, na importância mais coletiva da nossa área, de como a gente pode traduzir o que fazemos numa linguagem mais palatável, o que, claro, envolve simplificar. Não é que eu esteja dizendo que os jogos digitais ou outros tipos de jogos vão substituir o ensino tradicional, não é isso. Mas é uma forma de aproximar as pessoas da nossa área.
Quais são seus projetos para o futuro? O que podemos aguardar?
Olha, além dessa pesquisa que eu sigo desenvolvendo da relação entre ética e artes narrativas, estou agora no processo de estabelecer o LAFIJAN, que é o Laboratório de Filosofia, Jogos e Artes Narrativas, procurando consolidar ele melhor. É um grupo voltado para questões de divulgação filosófica, de criação de produtos educacionais, e aí não só dos jogos digitais, mas também de outros materiais didáticos. Por exemplo, estou desenvolvendo agora um sistema de RPG, de RPG de mesa, com conteúdo filosófico. Eu já fiz alguns testes, inclusive, e quero desenvolver esses jogos analógicos também, porque acho que não dá para ficar só no digital. Então, estou me voltando principalmente para a consolidação desse grupo. Aliás, quem tiver interesse e quiser entrar em contato, a gente está angariando pessoas que tenham vontade de trabalhar com esse tipo de projeto.
Para finalizar…. Como é ser uma Filósofa?
Em primeiro lugar, a gente atribui à palavra filosofia, ser uma filósofa ou um filósofo, um ar super grave, né? Uma coisa assim, “nossa, poucas pessoas são”. Então, eu já ouvi muito isso: “nós não somos filósofos, nós somos estudantes, nós somos pesquisadores em filosofia”. Assim, uma dificuldade em assumir a identidade, sendo que, sei lá, se a pessoa vai para outra área... por exemplo, eu estudei um pouco de artes visuais, como eu disse, e as pessoas lá dizem: "Eu sou artista". Ela estuda, produz, é formada naquilo, então ela é artista. Também é uma palavra que tem peso, mas lá eles não têm problema em dizer que são artistas. A gente tem esse receio, essa dificuldade de dizer isso. Enfim, penso que tem a ver com essa questão de condicionar a se estamos produzindo ideias originais ou não. Bom, se depender disso, vai ficar difícil, né? Mas eu vejo que é um privilégio! Para retomar o começo, aquela decisão que tomei lá no recreio do meu colégio de estudar filosofia e me dedicar apenas a isso, que eu coloquei como algo temerário, considerando o mercado de trabalho na nossa área. Tive sorte, porque poderia ter dado errado. A despeito do meu esforço, poderia ter dado muito errado. Vejo como uma oportunidade maravilhosa trabalhar com uma coisa que se gosta. E no meu caso, não é que eu gosto apenas de pesquisar filosofia, gosto muito de ser professora. Gosto da nossa carreira, de tudo que envolve ser professora. Então, acho incrível a possibilidade de desenvolver vários projetos que me empolgam, trabalhar com pessoas que têm interesses em comuns. É ótimo poder fazer isso, ainda mais considerando todas as dificuldades que a gente tem, econômicas, sociais, etc. Trabalhar com educação e ainda com filosofia, essa área às vezes tão desconsiderada, tão negligenciada. Nossa, acho um privilégio enorme.