Por que filosofia? Você se recorda de como e quando escolheu um curso?
Esta pergunta é engraçada. Eu costumo dizer que eu não escolhi a filosofia, a filosofia que me escolheu. Foi um encontro, porque o meu encontro com a filosofia, ele deu-se de uma maneira um bocado tardia. O meu encontro enquanto estudante, de me dedicar ao campo mesmo da Filosofia, foi só no mestrado, porque as minhas formações iniciais, as minhas licenciaturas, foram primeiro em Ciências da Religião e Turismo. No curso das ciências da religião, é claro que a gente tem introdução à filosofia, tivemos cadeiras que permeiam também a questão de Deus, e a problemática sobre Deus perpassa pela filosofia. A licenciatura que eu fiz tinha um recorte também bastante antropológico, sociológico, tinha o viés, talvez, um pouco menos o teor filosófico, no geral os meus professores da licenciatura eram muito mais da antropologia e da sociologia. Isso às vezes desenha o curso, não é? E depois quando eu fui para Santa Maria, para UFSM, eu já fui para o mestrado em Filosofia. Então, já foi um encontro um bocado tardio. Eu costumo dizer que a filosofia, de fato, eu não escolhi, foi um encontro, na verdade foi um encontro feliz. Até costumo dizer aos meus alunos que eu vou ser uma eterna estudante de filosofia, porque são muitas coisas, é um mundo que se abre, estamos sempre a refletir e de fato estamos sempre a buscar, como diz o professor Marcelo Fabri, a eterna juventude da razão, não é? Então, por isso meu encontro com a filosofia foi um bocadinho tardio, mas foi feliz, e foi um caminho sem volta.
Nos conte como foi sua experiência na graduação? Você consegue pensar em pessoas e autores que foram referências ou em algum momento marcante para sua trajetória acadêmica?
O meu orientador do doutorado em Portugal, ele costuma dizer que eu comecei a fazer a casa pelo telhado. Quando eu vim para Portugal para fazer o doutoramento em filosofia, já tinha mestrado que tinha feito na UFSM com o professor Silvestre e só depois é que eu vim fazer o doutoramento. Só que quando eu cheguei aqui, senti a necessidade de maiores bases que não tive, ou seja, de voltar de fato aos clássicos, Platão, Aristóteles, voltar mesmo à antiguidade grega, medieval. Depois eu só fui tirar a filosofia mesmo enquanto licenciatura e formação quando eu já estava no doutorado, eu fui fazer lá na Católica de Lisboa. Foi um curso muito feliz. Tenho muito apreço por ter feito na Universidade Católica Portuguesa, porque a maioria dos meus professores hoje e alguns que hoje também são meus colegas de profissão, foram formados pela Católica de Lisboa. Então, tenho a Católica como referência no sentido de formar pessoas que eu admiro enquanto pesquisadores e sobretudo enquanto professores, que é, por exemplo, o caso do meu orientador atual, o professor José Rosa, que é um dos maiores agostinianos, ele empreendeu a carreira filosófica dele na Católica. Então, tem uma base ainda lá, esta de outro tempo, que se fazia filosofia de outra maneira, digamos assim. Eu tenho muito essa referência também, por exemplo, o outro professor que na verdade ele não foi meu professor, mas é uma grande referência para nós, que é o professor Antônio Fidalgo, agora está aposentado, que foi reitor aqui da nossa universidade. Ele também foi formado, se não me engano, pela Católica, foi professor do meu orientador, ou seja, são grandes nomes de referência, não é? Então, minha licenciatura na filosofia foi um encontro com algumas referências. Alguns professores de fato me marcaram, como marcam-nos na vida. Por exemplo, houve também uma outra professora, a professora Maria de Lourdes Sirgado Ganho, agora já aposentada, mas uma professora que acolheu o pensamento de Gabriel Marcel em Portugal, embora ele não seja muito estudado, é um grande nome da fenomenologia. Agora acho que já tem alguns pontos de estudo no Brasil, não é? Então, assim, minhas referências no geral vieram por essas vias, por essas mãos de professores, ou seja, por eles é que eu fui levada aos clássicos, digamos assim, que era o que eu de fato sentia falta. Por exemplo, o meu orientador é um grande agostiniano, depois tive o feliz encontro com Agostinho e outros autores. Uma das obras que me marcou bastante, pelo menos na licenciatura, onde há muitas que ganham nosso coração, mas teve uma que, por acaso, foi algo que eu não esperava. Foi na cadeira de filosofia da linguagem com o professor Américo Pereira, um professor que eu tenho uma estima muito grande. Ele, durante todo o curso de filosofia da linguagem, deu-nos uma única referência, uma única obra, que foi o Crátilo de Platão. E me marcou profundamente o Crátilo de Platão. Foi um feliz encontro. No caso, quando eu fui mesmo para a filosofia, que foi primeiro no mestrado, a minha grande referência foi a fenomenologia no geral. Foi mesmo o Michel Henry. E sobretudo lá na UFSM, com o professor Silvestre, o professor Marcelo Fabri, professor Noeli, as minhas referências eram o Ricouer, Levinas, Husserl, Edith Stein, ou seja, todos esses, o meu encontro foi primeiro por esses autores e grandes referências para mim.
Como você se descreveria enquanto estudante?
Enquanto estudante? Passa-nos um filme à cabeça. Eu me lembro quando cheguei em Santa Maria, e inicialmente eu me achava, e hoje olhando para trás, eu vejo quantas deficiências eu tinha. Isso é normal, né? Nós não nascemos sabendo tudo. Mas olhando agora para trás, eu vejo que também faltava talvez um pouco de rigor. Às vezes, por exemplo, atualmente eu estou aprendendo o grego antigo, e o meu professor de grego diz sempre: "os alunos têm que ser mais rigorosos por si próprios”, ou seja, ter alguma autodisciplina, não é? E mesmo ler, gente. Ler filosofia não é como ler um jornal, não é como ler uma novela, um livro qualquer. Por si só, ler um texto filosófico exige esforço, e é nesse sentido que falamos do rigor. Ou seja, em filosofia, eu até costumo dizer muitas vezes aos meus alunos, não se lê uma única vez filosofia, isso não é filosofia. Com uma única leitura não dá, não se consegue chegar, ou seja, é preciso entrar na teia do texto, é preciso saber meditar com o autor, e muitas vezes contra os autores. Ou seja, quando de fato nós somos levados a conhecer a história, a história do pensamento. Então assim, quando eu era estudante, penso que faltava muito esta reflexão toda que, como é óbvio, só ganhamos com a maturidade da vida, com os anos. Então, eu hoje olhando para trás, vejo-me como uma menina que faltava talvez esse rigor. E eu lembro até de dizer ao professor Silvestre, após uma apresentação que não tinha corrido muito bem, que talvez me faltava ainda muita filosofia. Mas eu era esforçada. Eu nunca fui uma estudante, e nós temos que ser autocríticos com nós mesmos, nunca fui brilhante em determinados sentidos, porque há pessoas que de fato nascem com aquele dom. Mas talvez possa também se adquirir com o tempo, que é a argumentação mais apurada, alguns estudos mais apurados e eu reconheço que não tinha isso. Então, eu era esforçada.
E quanto à sua entrada na Pós-Graduação? O que você achou do processo de se tornar pós-graduanda?
Bom, pós-graduanda eu me lembro de um mundo novo que se abre. Eu me lembro do processo de seleção, eu vinha do estado do Pará, então vim para Santa Maria, que de uma certa maneira, as coisas se processam de formas distinta. Ou seja, eu fui para um processo diferente lá. E, como é óbvio, quando vamos para um mundo diferente, sempre há algo de nervosismo. Então, eu me lembro como se fosse mesmo hoje que eu fui fazer no prédio 74A, que é o da filosofia. Eu lembro que a nossa prova escrita foi num auditório, aí eu me lembro de estar muito nervosa. Eu me lembro de um rapaz, um candidato que é concorrente também, olhar para mim e dizer: "Está um bocado nervosa, né?" E eu estava literalmente nervosa pelo desconhecido. E, assim, quando eu entrei, tinha uma ideia de que não fosse corresponder às expectativas, não é? Que talvez fosse muito para mim, por não ter ainda aquela base da licenciatura, por vir de uma outra área. E se não me engano, na época, entrei com um projeto que era fenomenologia da religião, e depois eu mudei para o Michel Henry. Mas assim, entrar na pós-graduação é um marco, pelo menos acho que no cenário brasileiro. Por exemplo, assim como metade da população do Brasil, eu também vim de uma família muito humilde, onde eu cresci, e isso eu tenho sempre comigo. Cresci, por exemplo, com o meu avô dizendo que eu só seria alguém na vida pelo estudo, pela educação, porque não nascemos herdeiros todos, né? Alguns nascem, outros não. E eu fui a primeira da minha família a entrar na pós. Então, era de fato algo grandioso, mesmo que os meus pais talvez não tivessem a dimensão do que aquilo era e talvez não compreendesse. Os meus pais são pessoas humildes, trabalhadores. Meu pai, por exemplo, é alfaiate; a minha mãe é dona de casa, e não compreendiam muito bem o que era a filosofia. Assim, para mim, e para minha família, foi um marco. É algo que é como se de fato nós subíssemos um degrauzinho, né?
Como você se aproximou dos seus temas de pesquisa do mestrado e do doutorado? Como foi a experiência de pesquisa na sua área?
Bom, a pesquisa para mim, para além de todo o rigor que é feito na pesquisa, a pesquisa de fato na minha vida foi algo que começou desde muito cedo. Desde muito cedo fui inserida na pesquisa. Por exemplo, eu fiz licenciatura na Universidade do Estado do Pará, licenciatura em Ciências da Religião, e nós tínhamos lá alguns grupos de pesquisa. E uma das coisas que eu sempre tive, eu vou dizer que foi sorte, tive muita sorte na vida, foi com todos os meus orientadores, foi sempre muito bom. A minha primeira orientadora, ela era uma pessoa que também era de um estado que, imaginem, “1900 e pedrinhas”, fazer pesquisa no Brasil num estado onde fato é mais difícil, as políticas públicas não são as mesmas, em que era muito difícil. E ela era uma grande professora, ela tinha feito acho que em São Paulo, era uma grande referência, então, ela tinha um outro olhar para a pesquisa por ter tido a experiência. Então, ela tentava o máximo possível incluir desde muito cedo os alunos, e eu era uma das orientandas e alunas da aula, e eu fui muito cedo incluída na pesquisa e isso marcou a minha vida, marcou de fato a minha trajetória. Quando nós fazemos pesquisa, mesmo que seja na graduação, é de fato um divisor de águas. Eu costumo dizer que é um divisor de águas, porque nós decidimos aqui a nossa vida, decidimos se vamos de fato, se eu quero isto, se eu quero ser professor, se eu quero seguir a continuar a fazer pesquisa, então é mesmo um divisor de águas. Desde muito cedo, e ainda até hoje, faço parte desse grupo que é o (GMSECA/UEPA), que é o Grupo de Pesquisa - Movimentos Sociais, Educação e Cidadania na Amazônia. E a professora inseriu-nos muito cedo no que era pesquisa, o que se fazia. E mesmo que às vezes, como nós éramos estudantes, tivéssemos talvez um pouquinho ainda aquém, mas nós estávamos ali naquele meio, nós tínhamos uma sala, nós ouvíamos, ou seja, é como se entrássemos no ambiente, começasse por osmose. Então, a pesquisa para mim foi inserida desde muito cedo. Eu sempre, desde a minha licenciatura, e eu digo isso aos meus alunos, embora às vezes eles não ouçam, eu digo sempre, participem dos eventos quando os professores organizam eventos, é para os alunos, não é para nós. Eu até muitas vezes dou o meu exemplo mesmo, como professora, eu digo sempre aos meus alunos: "Olhem, nós não temos tempo de ler tudo. Nem se quiséssemos conseguiríamos". Por exemplo, aqui, nós temos na nossa universidade duas áreas principais, que é a Fenomenologia e Cultura e a Ciência Política. E, por exemplo, claro que me dedico quase 100% à fenomenologia e eu leio, não é que não leio pouco, mas também não temos tempo, né? E eu faço o máximo possível para estar em todos os eventos da política também, porque vou ouvindo os especialistas, ou seja, pelo menos se eu não leio, passo a conhecer ou algo me desperta. Então, eu digo sempre aos meus alunos, participem dos eventos, os eventos são feitos para vocês. É aquela questão de ser um pouquinho rigoroso com a vossa própria formação, não é? E, desde o mestrado, eu estudo e pesquiso Michel Henry - até o momento. E eu costumo dizer que o culpado disso é o professor Silvestre, porque foi ele que me apresentou o Michel Henry. E, desde então, foi um feliz encontro, e eu não parei de estudar. Michel Henry, embora seja um autor difícil, e por muitas vezes pouco apreciado, pouco valorizado no meio acadêmico, abriu-me muitas portas e é um pensador incontornável para o nosso tempo, que ajuda a pensar o nosso tempo e os problemas. E é por isso que continuo a estudá-lo.
Qual a sua pior experiência acadêmica?
A minha pior experiência acadêmica, isto às vezes é engraçado, não é? Assim, pensar nas piores experiências. Isso nos leva a pensar sempre nos tombos que vamos tomando ao longo da vida. Apresentações que não correm bem. Hoje, se eu for me lembrar em apresentações, quando tava aí na UFSM, às vezes penso: “mas para que foste dizer aquilo”. É assim. Mas de fato esses não foram os piores. Às vezes a pior experiência acadêmica é quando às vezes não passamos em algum processo, ou quando nos dizem que talvez não seja o momento, ou quando, por exemplo, não tiramos uma boa nota. Não sei se ainda ainda é por conceitos, mas por exemplo, eu tive um péssimo conceito, foi o meu conceito mais baixo e me marcou, com o professor Flávio Williges. Fiquei triste, mas hoje eu vejo que o professor tinha razão. Ele deu, eu acho que foi a única nota que eu tive mais baixa, eu tive B com ele, e no geral nossa turma era boa, nós tirávamos sempre A. E ele deu-me B. Mas ele tinha razão, hoje eu vejo olhando para trás, mas na época fiquei triste. Também não era propriamente fenomenologia. E de fato faltavam-me algumas questões. E foi do que eu me lembro assim, foi uma das experiências acadêmicas, para além dessas outras todas de eventos. É claro que alguns outros momentos é de nos depararmos, às vezes, com algumas realidades também da filosofia. Talvez enquanto mulheres, enquanto a presença das mulheres.
Qual a sua melhor experiência acadêmica?
A minha melhor experiência acadêmica foi de fato ter sido aprovada, em 2015, no edital da CAPES para fazer o doutorado pleno no exterior. Este foi mesmo um divisor de águas. O meu mundo mudou, a minha vida mudou, a minha realidade mudou. Hoje mudei não só enquanto pessoa, mas amadureci intelectualmente. Ou seja, o meu modo de ver a filosofia mudou, de ler os autores mudou. Então, assim, de fato, assim como na maior parte do Brasil, a minha família nunca teria condições de me mandar estudar fora, nunca. Ou seja, eu só poderia conseguir pelos estudos, e eu consegui pela filosofia um doutorado pleno no exterior. Foi, de fato, a minha melhor experiência acadêmica e de vida também.
Se você pudesse voltar no tempo e se dar um conselho naquela época, qual seria?
Essas coisas de conselho são um bocado difíceis. Mas um conselho, eu vou vou apostar nisso, de ser mais rigorosa com a minha própria formação. Acho que nós, vou dizer isto, pois eu acho que ainda é uma realidade brasileira, que é por mais que nós saibamos, por mais que os professores nos digam, eu percebo que as pessoas não dão importância é aprender outra língua para poder ler o autor no idioma original. Não é que não dão importância, mas talvez não vão atrás. É claro que eu percebo que, por exemplo, quando eu comecei a estudar o Michael Henry, eu tinha que ler o autor e o professor Silvestre falava nisso, não era um autor que tinha tinha boa parte já da obra dele traduzida para o português, mas a maioria dos textos que saíam era em francês ou era em espanhol. E vocês devem conhecer essa realidade. É difícil para o estudante brasileiro ler em outra língua, né? E por mais que saibamos que é importante, é difícil, porque nós não temos isso no ensino médio. Nós até temos, mas não é como se nós não víssemos a importância daquilo. E também é muito caro os cursos no Brasil. Eu lembro de quando eu comecei a fazer o francês, e o meu orientador atual, até hoje ele diz: "A Janilce quando chegou cá não falava nada de francês, hoje tá aí com o bonjour, e fala e lê o autor." Eu comecei a estudar o francês ainda na graduação em Belém do Pará, que eu me lembro que eu fiz um no curso de turismo, nós podíamos escolher, e eu fui fazer o francês. Mas foi muito inicial. Depois quando eu fui para o mestrado, eu tive a bolsa da CAPES, e foi a primeira vez que eu consegui pagar um curso de francês. Eu entendo que na realidade nós não temos, talvez hoje tenha melhorado com as redes sociais, a proximidade de ver e falar, mas naquela época, em 2012 e 2013, nós não tínhamos com quem falar, ou seja, até podia ler, mas não conseguia falar. E se eu fosse me dar um conselho hoje, seria de ter sido mais rigorosa em aprender outra língua lá atrás, porque gente, vou dizer, isso faz toda a diferença, porque a tradução fica aquém às vezes, não consegue dizer o todo.
O que foi decisivo no seu encontro com Michel Henry para que ele se tornasse o foco da sua pesquisa?
No Michel Henry, acho que foi sobretudo aquilo que de fato ele estuda, que é a questão da vida, que eu acho que é algo que o incomodava, que o acusava por dentro. Talvez a experiência da guerra, quando ele tinha um codinome, ele participou da resistência francesa e ele andava, por exemplo, com a “Crítica da Razão” do Kant embaixo do braço, era chamado de kantiano. E a experiência da guerra marcou profundamente. Ele dizia, imagine, perante todos os horrores, perante a tudo que se passou, a música sonora que era guerra, que eram as mortes, que era ver de fato a Europa assolada com o nazismo, ele sentia que a vida era algo que deveria ser guardada e protegida. E lá está, levou isso para aquilo que ele era, para o que era a filosofia, e também, depois, vai passar para até mesmo pelas obras dele da literatura. Ele fala também na literatura muito, está ali permeado a filosofia dele, o pensamento do teor filosófico dele, mesmo na literatura. E também alguns conceitos do Henry, a questão da afetividade, a passividade, o pactos, mas sobretudo da afetividade, que essa busca essa nossa interioridade radical, essa não intencionalidade primordial.
No livro “Fenomenologia da Afetividade: um estudo a partir de Michel Henry” (2017), você desenvolve uma investigação sobre o papel da afetividade na constituição do sujeito. Você poderia nos falar brevemente sobre de que modo o conceito de afetividade contribui para transformar a compreensão tradicional do sujeito na filosofia contemporânea?
Bom, esse livro até foi o resultado da minha investigação, da minha pesquisa do mestrado. É claro que hoje olhando, quando iniciamos no autor, primeiro nós temos aquele encantamento, uma espécie de paixão pelo autor. Só depois, com muito tempo, com mais estudo e amadurecimento, é que você passa a criticá-lo, você passa a ser o par crítico e não verdadeiramente o par apaixonado, né? Até outro dia, acho que foi na semana passada, nós tivemos um evento aqui na UBI que eu organizei que foi sobre a fenomenologia da afetividade em Santo Agostinho, e eu falei sobre as Confissões. E falei sobretudo sobre o luto do Agostinho, na questão da morte da mãe, da Mônica, que é uma coisa que, se talvez se eu tivesse lido Santo Agostinho muito novinha, eu tinha me convertido. Mas isso é só uma brincadeira. E hoje lendo, porque de fato é algo que está pelo nome, são as confissões, é confessar, mas é sobretudo uma meditação profunda, filosófica, que parte de um eu. Eu lembro sempre, por exemplo, o que é uma escrita de teor filosófico? O que é um ensaio filosófico, né? Claro que, hoje em dia, nós temos muito a vertente da defesa de uma tese, uma argumentação, mas há também outro tipo de ensaio, que é o ensaio justamente quando nasceu. Por exemplo, quem foi que usou as primeiras palavras “ensaio”? Um deles foi o Francis Bacon. Voltando, por exemplo, ao Gabriel Marcelo, que ele tem, eu costumo dizer que ele tem uma espécie de uma maneira muito peculiar e ousada de fazer, mas de escrever filosofia, que é em forma de ensaios. O Montesquieu foi o primeiro que usou a palavra ensaio como o nome. Justamente, o ensaio quando ele nasce, não é preso a um gênero e isso até favorece, né? Eu costumo me aproximar muito dessa escrita de teor filosófico no sentido do ensaio, que não é um diário íntimo. Não é um diário, não é o repositório dos sentimentos, mas é um diário íntimo no sentido que é parte de um eu. Ou seja, é quando, de fato, as ideias nos passam, é quando nós ensaiamos as ideias, é quando as ideias nos pesam e passam por nós, passam por um eu. Por isso que eu estou a voltar aqui no Santo Agostinho, que é na escrita das confissões você ver ali um eu que está a sofrer, a indagar sobre a verdade, se indagar sobre o livre arbítrio. E quando ele fala da mãe Mônica, que ela foi uma mulher que chorou a vida inteira pelo filho, e ele só foi se converter muito depois. E depois quando ela faleceu, eles estão numa sala e até o Adeodato, que era o filho dele, todo mundo começa a dizer para ele, era uma época em que os homens não podiam chorar também, mas começaram a contê-lo, né? E depois, Santo Agostinho, é como se repreendesse as lágrimas, mas depois quando ele está sozinho é como se aquilo transbordasse. É um rio de lágrimas. E ele depois até fala que ele chorava pela mãe e por ele mesmo também. Ou seja, isso aqui também para buscar um pouquinho da afetividade, né? Que é a questão do que é o nosso interior, é quando passa por um eu, quando há de fato a marca da subjetividade em nós, ou seja, já estava lá em Agostinho. Claro que depois o Michel Henry vai trazer isto de outra forma. Ele não cita também propriamente o Agostinho, mas ele só para retomar um bocadinho esta afetividade, que não é uma afetividade como um conceito no sentido comum daquilo que conhecemos. É claro que nós todos somos afetados, mas é uma interioridade. A interioridade da vida que se sente, que se experimenta, de uma carne que padece, que sofre. Por exemplo, o sofrimento, a dor, não é? Nós só podemos representá-los: a dor, o sofrimento, a alegria, está aí dentro de nós. Ninguém pode ver. Eu posso perder um ente querido, e representar, chorar, mas é uma representação. Ou seja, a dor está lá dentro de nós. Até costumamos dizer que a nossa dor é sempre a maior, porque ninguém a sente. Eu posso falar, expressar, representar, mas só eu posso senti-la. E é aqui que está essa afetividade radical, digamos assim, que o Michel Henry vai falar. E, de fato, contemporaneamente, como é que podemos pensar isso? Por exemplo, quando olhamos para a realidade social, quando lemos o grande texto do mundo e vemos tudo que está a se passar, como é que isto nos toca, nos afeta por dentro? Ou seja, porque quando nós falamos, por exemplo, da realidade social, das várias realidades do mundo, eu só posso mudar isso se eu mudar a mim própria? Partir de mim própria, né? Se mudar a mim, eu consigo mudar pelo menos ao meu redor ou, no mínimo, meditar sobre as minhas ações, não é? Podemos pensar a partir disso, do sofrimento. Não é que eu me compadeço com o sofrimento do outro, é que ele me toca. E é pensar um bocadinho isso. É claro que o outro é um bocado problemático na fenomenologia do Michel Henry.
Qual é a importância do Projeto Bilateral Rede de Estudos Internacional sobre Michel Henry para o desenvolvimento da sua pesquisa?
Bom, o projeto bilateral foi um esforço, e foi uma grande conquista nossa. Digamos assim, foi um grande resultado dos esforços que foram se fazendo em torno, sobretudo, da fenomenologia do Michel Henry. Eu nunca perdi contato, por exemplo, com a UFSM, com o professor Silvestre, nós sempre tivemos projetos em comum. Sempre nos mantivemos em contato, digamos assim. E depois, à medida que fui fazendo o doutoramento e caí em Portugal, também foi se criando a rede. Havia já uma rede do Michel Henry, mas era cada pessoa estudando num determinado canto, e eu vi a necessidade de construir uma rede - que até foi inicialmente feita pela Universidade Católica Portuguesa, só que depois o Centro de Filosofia deles fechou e as pessoas ficaram investigando individualmente. Então, eu senti a necessidade de talvez fazer uma rede no sentido de trazer o Michel Henry com maior relevo e de fato, talvez reivindicando aqui o lugar dele, a posição dele no próprio pensamento filosófico, né? Então, foi o resultado de um grande esforço. Depois se juntou também a professora Janessa Pugnussat, que é professora da UFN, a Universidade Franciscana, e a partir de muito trabalho que nós fomos constituindo, elaboramos o projeto. E que também partiu da criação do grupo de leitura e discussão em Michel Henry. Eu até, na época, quando apresentei a ideia, estava um pouco temerosa de ser Michel Henry, porque de fato é um pensador que é difícil às vezes adentrar, não é? E até o meu orientador, nunca vou esquecer o apoio que ele me deu, que ele disse: “Janilce, ponha logo o nome do grupo Michel Henry, se o objeto de estudo já está determinado”. Ele disse e agarrei naquilo. Depois levei a ideia às pessoas, ao professor Silvestre, à Janessa. Isso ainda demorou bastante tempo, depois tivemos as formalidades, teve que ir para pra reitoria aqui, depois da reitoria a parte internacional mandou para UFSM, ou seja, teve todos aqueles os trâmites, embora a universidade, a nossa universidade aqui, já tinha um protocolo bilateral com UFSM, com a UFN, ou seja, o que nós fizemos foi um projeto específico para o Michel Henry para a área da filosofia. É muito relevante, assim, poucas pessoas sabem, mas, por exemplo, em Portugal, as universidades são públicas, mas ao mesmo tempo são pagas. Não é como no Brasil que a universidade é pública e não se paga. Portanto, não há mensalidade, né? Aqui não, nós temos, ela é paga. Ou seja, imagina que uma pessoa do Brasil queira vir estudar para cá, ao nível deste protocolo, não vai pagar. Ou seja, o protocolo, esse é um dos grandes benefícios também do nosso protocolo, é que as pessoas podem vir e, no abrigo deste protocolo, com um projeto de investigação, sobretudo no Michel Henry, e até na fenomenologia. É possível ficar ao abrigo deste protocolo ou fazer um doutorado sanduíche ou uma pesquisa, um estágio, por exemplo, que fique isento de pagar a universidade aqui. Então assim, nós conseguimos construir uma rede, conseguimos construir um grupo que tem se mantido ao longo do tempo, né? Tanto professores, e professores mesmo de várias partes do mundo, ou seja, conseguimos mesmo com o fuso horário de várias partes do mundo, nós temos conseguido manter alguns pesquisadores que estão sempre a participar, e colaboradores, e mesmo parceiros na pesquisa. Isso tem dado grande visibilidade para as pesquisas no Michel Henry também.
O seu projeto de extensão, na Universidade da Beira Interior, intitulado “Cenas Éticas: quando o Cinema faz pensar”, sugere uma aproximação entre experiência estética e filosofia. Como você articula essas duas dimensões?
Esse foi um projeto que inicialmente eu recebi um convite da nossa universidade, nós temos um curso que é o curso de Ciências da Cultura, na qual eu dou algumas disciplinas do pensamento contemporâneo, antropologia e cultura. E a nossa coordenadora fez-me um desafio. Ela convidou-me para fazer um projeto aqui na nossa universidade que é mais voltado, o que seria no Brasil, para os alunos do ensino médio virem à universidade, fazerem um projeto e conhecer. E depois de vir para a universidade, para os cursos da universidade. Porque aqui, assim como aí no Brasil, são muitas universidades, podem ir para várias. Então, este curso foi também para aproximar um pouco os alunos que ainda estão no ensino médio da universidade. E esse projeto foi um projeto que, inicialmente, eu estava com muito receio, mas depois fui muito feliz. De fato, o cinema é uma sétima arte, né? O cinema pode nos mostrar e fazer refletir sobre questões éticas, sobre o outro, sobre a justiça, sobre a liberdade, de uma maneira que toca os alunos de uma maneira distinta, quando às vezes estamos a explicar algum tratado, algum sistema ou algum conceito, ou seja, de fato, e é um outro público. Gente, ensinar filosofia não é fácil. Ensinar filosofia com um público que muitas vezes é muito jovem, diverso, imaturo no sentido do conhecimento. E qual que é um dos maiores mitos da filosofia? Eu escutei isso a minha vida inteira, “que que vais fazer com isto? Para que trabalhar depois? Para que serve a filosofia?” É o clássico. Isto é o clássico. E é preciso desmistificar isso. Por que as pessoas têm tanta dificuldade em compreender para que serve a filosofia? Porque ela não produz resultados imediatos como em outras áreas, mas sabemos da importância que é para a formação humana, né? É claro que as áreas também atualmente estão sofrendo com isso, a matemática, por exemplo, cada vez tem menos procura pela matemática, porque também as pessoas não vêm mais a utilidade. Ou seja, desmistificar a filosofia. Para que que serve? O cinema é uma grande ferramenta em trazer e aproximar os alunos da filosofia e ensinarmos ética. Por exemplo, a ética é uma das poucas - e isso não sou eu que digo, está num livrinho que é “Introdução à Ética” do professor José Manuel Santos aqui de Portugal - ele diz que a ética é uma das poucas disciplinas que todas as pessoas quando vão ter. A ética, em algum momento da sua formação ou da vida, todo mundo já sabe um pouco, porque já se deparou mais cedo ou mais tarde com alguma questão. Por exemplo, quando somos crianças e falamos perante os nossos pais, “mas isto não é justo, meu irmão ganhou isso e eu não ganhei”. Que tipo de critério eu utilizo? Que tipo de critério eu utilizo para tomar grandes decisões na minha vida, né? Será que eu sou mais utilitarista, sou mais kantiana? Não que tenha que se resumir a isto, é só um exemplo. Será que eu me guio muito mais pela razão, pela emoção? E isso eu consegui com esse projeto que era o cinema faz pensar, “Cenas Éticas”. Eu trouxe os alunos do ensino médio, apresentei-os, além de ser do cinema se apresentar enquanto arte, como representação, imagina que com o cinema nós podemos apresentar não só estética, mas grandes momentos da história, grandes obras, grandes autores, grandes músicos. Ou seja, o cinema de fato dá a conhecer muitas coisas. Por exemplo, aqui em Portugal, nós temos um escritor que é muito conhecido, e ele tinha uma veia filosófica também muito grande, que é o Vergílio Ferreira. E ele tem milhares, tem mesmo muitos livros escritos, muitos romances. E ele diz que só foi ser conhecido quando ele fez o filme cinema. Ou seja, o cinema é uma força, não é uma força maior, mas uma amplitude de levar, de se dar a conhecer, muito maior, não é? Nós podemos utilizar isto a favor da filosofia. E foi, na verdade, esse projeto foi mesmo no sentido de trazer, de usar o cinema, também como instrumento e ferramenta para se conhecer a filosofia, para levar os alunos a debaterem, e refletirem ou pelo menos conhecerem quem foi o Kant, quem foi o Stuart Mill, algumas coisas contemporâneas. Debaterem e sentir como é que eles atualmente leem o mundo, não é?
Dentre seus trabalhos, quais você indicaria para quem quer conhecer melhor sua pesquisa?
Bom, eu costumo às vezes dizer aos meus alunos que a única vez que nós vamos ter a certeza de que alguém vai ler vai ler o nosso trabalho é quando nós vamos apresentar numa defesa, numa banca, pois a banca é obrigada a ler. (Risos) Então, assim, às vezes, hoje em dia, eu me pergunto muito. Claro que isso perpassa o mundo acadêmico, nós temos a produtividade, temos que escrever, andar aqui, falar ali e publicar. E às vezes me inquieta, assim, será que alguém está a ler? Será que alguém se interessa ainda? No mundo hoje que está de uma leitura tão negligenciada, numa leitura tão automática que as pessoas, será que alguém vai ler? E acredito que sim, mas é difícil pensarmos na minha própria escrita. Mas eu vou escolher a minha tese de de doutorado, porque de fato para mim foi um marco também de amadurecimento, no sentido que eu tentei trazer na minha pesquisa de doutorado não só o meu autor, mas também mostrar alguma maturidade filosófica, alguma certa erudição também que nós vamos ganhando com o tempo. Ou seja, eu indicaria mesmo a minha a minha tese de doutoramento “De uma Filosofia do Corpo a uma Fenomenologia da Carne: um estudo a partir de Michel Henry”, que versa muito mais sobre a filosofia do corpo no Michel Henry, e ali trazer algumas marcas de tudo aquilo que eu vivi no doutoramento, marcas no sentido mesmo da pesquisa. Por exemplo, eu fui pesquisar os mitos, fui pesquisar a Grécia Antiga, fui pesquisar as obras literárias do Henry, claro que isto não era a minha pesquisa, mas isto em notas. É claro que a pesquisa não deve só mostrar a erudição, mas devemos mostrar também para além da pesquisa em si, alguma erudição, algum conhecimento a mais, que fomos adquirindo ao longo da nossa formação. Por exemplo, a professora Maria Leonor Xavier, que eu conheci recentemente, da Universidade de Lisboa, ela teve aqui no evento sobre Santo Agostinho, ela diz uma coisa que é: quanto mais nós lemos em filosofia, ou seja, quanto mais referências nós tivermos, conhecemos, mais isso nos ajuda a formar as nossas próprias posições filosóficas. Então, é nesse sentido, não é?
Quais são os seus projetos para o futuro? O que podemos aguardar?
Bom, se for a nível da pesquisa, eu neste momento estou fazendo um pós-doutoramento aqui mesmo na minha universidade, com um projeto de tradução. Mas eu sempre tive um sonho desde que estava na graduação, eu sempre quis estudar fora, sempre quis estudar na Europa, no exterior, e eu sempre quis estudar na França, sempre foi um sonho. E eu ainda não concluí de todo, mas neste momento estou tentando justamente costurar um pós na França. Estou tentando realizar este sonho. Ainda não tenho certeza, mas talvez será nos arquivos do Husserl, em Paris, com o professor Dominique Pradelle, embora isto não seja ainda certo, porque ele é um grande husserliano. Acho que nem na Sorbonne, nem nos arquivos de Husserl ainda foram definidos algum trabalho em Michel Henry. Então, também gostaria de romper este marco e, provavelmente, as minhas pesquisas no Michel Henry continuam. E o que eu desejo neste momento é que de fato eu consiga terminar a tradução, até porque antes que isso fique totalmente de uma certa maneira defasada, com o avanço das inteligências artificiais, daqui a pouco os tradutores não vão ser propriamente tradutores, mas talvez revisores, porque hoje a inteligência artificial já traduz o que antigamente era um parto traduzir. Talvez as pessoas que hoje traduzem filosofia vão passar mais para revisores, de quem conhece mesmo o pensamento do autor, se não há erros enormes, não é? Mas, nesse sentido, para o futuro é aguardar a minha tradução e o meu continuar a investigar o Michel Henry, sobretudo agora com o domínio do francês.
E para finalizar… como é ser uma filósofa?
É uma pergunta difícil. Eu costumo dizer aos meus alunos, como já disse aqui na entrevista há pouco, este título de filósofa nem Hannah Arendt gostava, não é? A grande Hannah Arendt, que era conhecida como a filósofa do cigarro pensativo, né? Brincavam na época que ela fumava muito. Ela não se dizia filósofa, neste epíteto de filósofa, no máximo se considerava uma cientista política, e até ela diz que tudo que ela fez foi uma tentativa. Claro, foi uma grande mulher e uma grande filósofa, e que de fato faz-se justiça, merece o epíteto de filósofa, que era uma pessoa com um esmagador domínio de vários assuntos, ela falou da educação, falou de tantas coisas. Aí quando me perguntam sempre o que é ser filósofa, aí eu penso na Hannah Arendt, como é que vou eu chegar aos pés da Hannah Arendt? Então, eu brinco com isso às vezes e costumo dizer que eu não costumo utilizar este termo filósofa para mim. Eu acho que isto fica mesmo reservado às grandes mulheres como a Edith Stein, como a Simone de Beauvoir, como a Maria Zambrano, como a Simone Weil, ou seja, como muitas mulheres que fizeram filosofia e que de fato são pensadoras. Eu acho que nós temos que reconhecer a nossa humildade de meros mortais perto desses grandes nomes, se posso assim dizer. E assim, eu costumo dizer que não me sinto filósofa, não por rechaçar o epíteto, mas porque eu acho que isto está mesmo reservado aos grandes nomes, né? E assim, eu costumo dizer que eu vou ser uma eterna estudante em filosofia, eu não sei se algum dia vou ter isso, de uma coisa propriamente minha. Não sei se algum dia eu mesmo vou chegar a me dar este nome, esta denominação de filósofa, por mais que a gente se dedique a isso, dedicamos uma vida a isso, sobretudo quem é professor, né? Por exemplo, eu lembro de uma entrevista do Paul Ricoeur, que perguntaram para ele como é que ele escreveu tantas coisas, como é que ele escreveu tantos livros. E ele dizia que foi aliando o professor e a investigação, né? Ou seja, quando nós vamos preparar uma aula, a gente para, medita, escreve, ou seja, é aliar uma coisa à outra. Mas não sei se algum dia chegarei ao pezinho dos deuses ou das deusas filósofas. Nesse sentido, eu acho que eu reservo mesmo este nome, por ter mesmo muito respeito a estas pensadoras, e reconhecer as minhas deficiências. Acho que me contento com professora de filosofia e com estudante de filosofia.