Por que Filosofia? Você se recorda de como e quando escolheu o curso?
Eu acho que, olhando em retrospectiva, a gente acaba vendo muitas conexões que, na época, a gente não via, mas, na verdade, eu acho que foi uma escolha que não foi muito refletida num primeiro momento. E, ao longo do curso de graduação, eu tive muita dúvida, na verdade, se eu ia continuar ou não fazendo Filosofia. Como muitos adolescentes no final do ensino médio, eu não sabia muito bem o que eu queria fazer. Aí, depois que eu terminei o ensino médio, eu fiz várias provas de vestibular - na época eram os vestibulares; já tinha o Enem, mas não era tão comum - para várias áreas aleatórias, totalmente diferentes da Filosofia. Mas eu não sei, eu me interessava por todas; ao mesmo tempo nenhuma delas me tomava. Hoje em dia eu percebo que eu tinha uma certa inclinação pela área acadêmica, mas não especificamente pela filosofia. Eu gostava da ideia de fazer matemática, de ciências biológicas e gostava da ideia de Filosofia também. E aí o que aconteceu é que tinha um curso de Filosofia de uma universidade, a Universidade Federal de São João Del-Rei, que era perto da minha casa e tinha o curso de Filosofia. Então, era possível eu fazer esse curso. Mas eu entrei muito pensando que eu ia ver se seria isso ou não. E aí eu fui, acabei começando o curso para ver se fazia sentido para mim e acabei gostando. Fui fazendo alguns projetos, comecei a participar de projetos de Iniciação Científica. Uma coisa foi levando à outra, e aí acabei chegando aqui, né? Mas, assim, acho que foi uma decisão que eu fui construindo ao longo do curso. Teve um momento que eu decidi que eu ia ficar na filosofia, mas não foi quando eu entrei e provavelmente não foi nos primeiros anos, não.
Nos conte como foi sua experiência na graduação? Você consegue pensar em pessoas e autores que foram referências ou em algum momento marcante para sua trajetória acadêmica?
Então, o curso eu fiz na Universidade Federal de São João Del-Rei e era um curso pequeno, então tinha poucos alunos, tinha poucos professores e isso acho que foi muito legal inicialmente, porque a gente tinha uma boa relação com os professores e entre os alunos também, né? Então, isso ajudou a definir muito os rumos da minha carreira, do que que eu ia fazer, como que eu ia fazer. É claro que, assim, meu orientador das Iniciações Científicas que eu fiz e que também me ajudou na minha monografia foi o Rogério Antônio Picoli. Ele foi uma pessoa realmente importante nessa fase da minha graduação, mas continuou sendo importante depois. Inclusive, ele participou da minha banca de doutorado. Ele continua sendo uma referência muito importante para mim, mas eu aprendi muito com todos os professores do curso, né? Como disse, era um curso pequeno. Agora, se eu fosse falar sobre autores na filosofia que me marcaram nessa época, eu acho que um dos primeiros que mudou um pouco a minha perspectiva sobre Filosofia foi o Bertrand Russell. Eu li Ensaios Céticos primeiro e, depois, mais tarde, Problemas da Filosofia. E ele foi o primeiro autor de filosofia analítica com quem eu tive contato. Então, acho que isso mudou um pouco o meu alinhamento central de pesquisas. Agora, de modo geral, também acho que o que me fez gostar e querer continuar fazendo Filosofia foi o Descartes, o Discurso do Método e as Meditações. Assim, eu lembro que eu fiquei fascinada, eu passei mais de um ano completamente obcecada com o Descartes. E, se for na área de metaética mesmo, especificamente na área de pesquisa que eu acabei depois seguindo, o livro que foi determinante para mim, na verdade, foi um livro de um antirrealista, que foi o Ethics: Inventing Right and Wrong do John Mackie. Eu já tinha lido alguns outros autores de metaética, o Jesse Prinz, algumas coisas assim, mas foi o Mackie que me tirou o sono, que me fez dedicar a essa questão. Então, eu diria que foram esses autores, pelo menos nesse primeiro momento da graduação, que me influenciaram bastante.
E quanto à sua entrada na Pós-Graduação? O que você achou do processo de se tornar pós-graduanda?
Ah, então, eu acho que foi um processo muito difícil, especialmente o mestrado. Eu não passei no primeiro processo seletivo que eu fiz para a UFMG, então não consegui a vaga. E, depois que eu entrei também, fiquei muito tempo achando que eu não tinha condições de fazer o que eu tinha me proposto a fazer. Então, foi uma época difícil. O doutorado foi bem mais fácil com relação a isso, porque eu já sabia como funcionava tanto o processo de seleção, mas também a pesquisa em si, o que era esperado, o que que eu tinha que fazer. Então, o doutorado foi uma experiência mais tranquila para mim, mas eu diria que eu achei difícil. Eu achei difíceis tanto o mestrado quanto o doutorado. E eu acho que é uma experiência difícil mesmo, né? Eu sempre vejo as pessoas falando sobre problemas emocionais, psicológicos, que elas vão desenvolvendo ali ao longo da graduação. E eu não fui exceção a essa regra, também me afetou bastante. Mas acho que com o tempo, agora depois de ter terminado o doutorado, você vai descobrindo as formas de navegar melhor por tudo isso, sabe? Conseguindo separar o que é importante, do que não é. E também conseguindo não reduzir muito toda a sua vida, sua existência, seu propósito, seu valor na vida, só à isso. Então, acho que isso torna a experiência um pouco mais leve, mas eu acho que é uma experiência difícil. A pós-graduação é uma época difícil, eu diria.
Como você se descreveria enquanto estudante?
Assim, eu acho que, como estudante, eu me sentia, principalmente na época da graduação, muito mal informada sobre o que eu tinha que fazer, sobre os procedimentos, né? E eu me deixava guiar muito pelo meu coração, pelas coisas que eu gostava, pelas coisas que me interessavam. Isso me dava uma certa criatividade, e eu me dedicava muito para alguns tópicos, mas eu sinto que eu tinha muita dificuldade de, por outro lado, cumprir currículo, às exigências da formação geral. Eu acho que como estudante eu tive esse duplo aspecto, de um lado, eu era muito entusiasmada com algumas coisas, mas não conseguia tão bem organizar o meu tempo e o que fazer. Então eu acabava negligenciando alguns outros aspectos da formação. Acho que algo nesse sentido.
Como você se aproximou dos seus temas de pesquisa do Mestrado e do Doutorado? Como foi a experiência de pesquisa na sua área?
Foi por causa mesmo das Iniciações Científicas que eu fiz na graduação. Foram duas, né? A primeira foi sobre emoções morais, e a segunda já foi sobre o realismo moral. E dessa pesquisa saiu a minha monografia, que era uma discussão sobre o realismo moral em geral, mas eu foquei um pouquinho mais ali no final, no realismo moral naturalista. E aí apareceu o problema da Terra Gêmea Moral. É um problema relevante para essas posições. E para a minha dissertação - meu projeto de mestrado que deu origem à dissertação - eu quis apresentar e discutir o que era esse problema da Terra Gêmea Moral. Isso eu segui no doutorado, eu queria continuar com a proposta do realismo naturalista. E aí, no caso, eu tinha focado muito no mestrado no realismo de Cornell, mas para o doutorado eu quis considerar também uma outra perspectiva que é do “Canberra Plan” (programa de Camberra seria uma tradução, algo assim). E aí eu queria ver, no doutorado, como essas duas posições se comportavam ali diante de algumas objeções, alguns desafios para o realismo, inclusive da Terra Gêmea Moral também. Mas a minha ideia central ali para o doutorado era que essas duas posições, o realismo de Cornell e o programa de Camberra, eles estavam disputando um mesmo lugar no panorama metaético. E eu queria dizer qual dos dois era, mais eficiente, ou melhor, mais otimizado para ocupar esse lugar. Basicamente foi isso.
Qual foi a sua pior experiência acadêmica?
Com essa pergunta, me passou várias coisas pela cabeça. Assim, todas às vezes que eu falhei em alcançar algum objetivo, foram muito ruins, né? E eu acho que isso faz parte da experiência acadêmica. É inevitável que algumas vezes você falhe, porque uma das funções da academia seria certificar qual é o conhecimento válido. Então, para isso, se exige uma uma seleção rigorosa de conteúdo, de tese, de candidatos. Então, eventualmente, você não vai ser selecionado para algumas coisas, mas é sempre uma experiência muito frustrante, por mais que a gente já sabe que ela vai acontecer, que faz parte, que é assim que a gente constrói conhecimento qualificado. Quando o seu projeto não é contemplado, quando a sua proposta não é aceita, isso é extremamente frustrante. Então, acho que essas experiências foram particularmente ruins na trajetória acadêmica.
Mudando um pouco o clima, qual a sua melhor experiência acadêmica?
Então, quando eu estava pensando sobre isso, eu pensei “bom, se as piores experiências foram esses fracassos, as melhores experiências deveriam ser quando você consegue”, né? Mas, eu diria que, independente desse aspecto, dos programas, da seleção, eu acho que a experiência mais agradável para mim dentro da filosofia é quando eu entendo alguma coisa que eu não entendia antes. Ou quando eu encontro um problema que eu não estava percebendo antes, quando eu falo: "Ah, aqui está faltando uma pecinha", ou então, eu encontro a pecinha que está faltando. Para mim, essa é a experiência mais agradável da atividade acadêmica, da pesquisa, que eu considero algo extremamente estimulante. Então, acho que essa é a melhor parte da experiência acadêmica, que me faz querer voltar para isso sempre, esse momento de Eureka, em que você percebe alguma coisa que você não estava percebendo antes. Acho que essa é a parte mais satisfatória para mim, o sentimento da descoberta.
Se você pudesse voltar no tempo e se dar um conselho naquela época, qual seria?
Eu acho que não me daria nenhum conselho. Primeiro, porque eu não era o tipo de pessoa que escutava conselho. (Risos) Segundo, porque eu acho que eu ainda não estou no lugar que me qualifica para dar bons conselhos nessa área. Acho que eu ainda precisaria de mais tempo, mais experiência, para poder ser uma boa conselheira. Mas, em terceiro lugar, principalmente porque eu acho que eu aprendi muito com essas tentativas e erros, acho que foi parte da minha construção como profissional, fazer, tentar, acertar algumas vezes e falhar outras vezes. Como “entre mortos e feridos salvaram-se todos”, eu ia deixar a Isis do passado viver com a cabeça dela, sem interferir. Deixar ela fazer as decisões com as informações, os valores e as capacidades que ela tinha naquela época. Acho que eu não me daria então nenhum conselho.
Muitas pessoas têm a impressão de que a moral é algo subjetivo ou relativo. O que te motivou a levar a sério a hipótese de que existem fatos morais?
Como eu falei antes, o meu interesse na metaética começa pelo antirealismo moral, especialmente pelas críticas que eram feitas ao realismo moral. Eu parti ali do Mackie, mas eu senti que tinha alguma coisa faltando naquelas críticas, que não era bem assim. É claro que a gente tem alguns argumentos, dentro da filosofia, na posição realista, que vão dizer que o realismo moral é uma posição mais próxima ao uso comum que as pessoas têm, e ao entendimento comum que as pessoas têm da moralidade, né? Por exemplo, quando a gente discorda em alguma posição, a gente tende a considerar que o outro lado está errado de fato. Existe ali uma questão substantiva. A gente aceita a possibilidade de erro moral, de equívoco, de que a gente pode estar errado sobre o valor de uma ação, de uma pessoa, de uma instituição. Também que a gente age como se existisse fatos morais na educação moral, na responsabilização moral, né? Então, a gente não está lidando com questões como se fossem uma questão de preferências ou algo assim. Existem esses argumentos pelo realismo moral, mas ao longo de toda a minha pesquisa, eles nunca me motivaram inicialmente, nunca foi meu ponto de partida a defesa do realismo moral. Eu sempre trabalhei a partir das críticas feitas ao realismo e como poderiam ser respondidas. Então, nem na monografia, nem na minha dissertação, nem na tese, eu fiz nenhuma defesa substantiva do realismo moral no sentido de colocar essa posição como inicial. Foi algo, assim, nesse sentido de apresentar argumentos que a sustentassem, foi mais no sentido de investigar como ela podia responder a críticas antirrealistas. Então, acho que foi mais nesse sentido, porque eu não considerava essas críticas decisivas, pelo menos eu não considerava que elas tinham aspectos suficientemente convincentes. Em alguns casos, eram interessantes, mas elas não eram decisivas. E aí eu queria explorar justamente por que elas não eram decisivas. Acho que esse foi o meu ponto, assim, minha motivação para o realismo moral foi mais nesse sentido.
Sua trajetória mostra um engajamento contínuo com o Realismo de Cornell. O que é defendido por essa forma de realismo? Em algum momento isso deixou de ser apenas uma hipótese de trabalho e se tornou uma convicção pessoal?
O realismo moral tem três teses principais. A primeira delas, o chamado cognitivismo, é que sentenças morais podem ser verdadeiras ou falsas. A segunda tese é a tese do sucesso, de que algumas dessas sentenças são verdadeiras. E, em terceiro ponto, a gente tem uma tese sobre a objetividade das condições de verdade das sentenças morais, né? Então, a gente teria algo no mundo, que faz ser verdadeiro uma sentença do tipo “caridade é boa”. Além disso, o naturalismo tem uma tese complementar, que na verdade é uma tese metafísica, sobre a natureza do que existe. E vai dizer que, basicamente tudo o que existe, são propriedades ou coisas do mundo natural, tipos naturais. Para você conciliar o realismo moral com o naturalismo, você tem que mostrar que aquelas coisas que tornam sentenças morais verdadeiras são aspectos do mundo natural, são parte do mundo natural. Eu não tenho nenhuma convicção pessoal, na verdade, nem sobre o realismo de Cornell, especificamente, ou sobre o realismo moral naturalista em um sentido geral. E eu acho que a partir do momento que se tornar uma convicção, ela deixa de ser filosoficamente interessante. A ideia é que eu quero entender, explicar, argumentar, detalhar, porque a questão está em aberto. Eu acho que isso pode ser talvez característico da filosofia analítica, especialmente. Mas o que eu acho que motiva filosoficamente a discussão é o fato de não ter convicção, de que pode ser que eu mude, que algum argumento me convença do contrário, ou algo assim. Então, eu não tenho nenhuma convicção sobre isso, não. E o que me interessa é justamente testar os limites dessas posições, ver como ela responde aos desafios, quais são as suas fraquezas. Então, acho que é mais nesse sentido mesmo, sem nenhum compromisso pessoal com a posição, mas um compromisso mais com uma análise rigorosa dessa posição.
Você chegou a considerar seriamente posições antirrealistas? O que te fez não seguir por esse caminho, por que você optou por fazer uma argumentação pro lado do realismo moral?
O antirealismo, assim como o realismo, ele vai ter muitas formas diferentes de apresentação. Basicamente, eu defini o realismo a partir de algumas teses centrais. Então, você tem ali posições antirrealistas a partir da negação dessas teses. Você pode sustentar uma posição não cognitivista, de que as sentenças morais são expressões de preferência ou reprovação, né? Daí você teria uma posição antirrealista. Você poderia ter uma posição como a do Mackie, que vai dizer que elas são descritivas, mas não existe nada no mundo que corresponda a essas descrições. Então, são uniformemente falsas também. Uma posição antirrealista, ou também uma posição subjetivista, vai dizer que os valores de verdade são definidos a partir de aspectos subjetivos ou intersubjetivos. Então, a gente tem diferentes posições dentro do realismo, do antirrealismo, e eu considero todas filosoficamente válidas, defensáveis e que devem ser tomadas com seriedade. E, além disso, eu acho que um outro princípio filosófico que eu também considero com bastante seriedade é o princípio da parcimônia ontológica, que é a ideia do princípio que recomenda que a gente sempre priorize as explicações mais simples, quando elas forem suficientemente boas. Elas têm o menor peso metafísico possível, quando você pode explicar a mesma quantidade de fenômenos, com a mesma qualidade, com menos entidades metafísicas. Então, essa é uma explicação preferível pelo princípio da parcimônia ontológica. E aí, então, levando em consideração tudo isso, é que eu comecei sempre investigando pelas críticas antirrealistas. Porque eu queria ver se, afinal de contas, as posições antirrealistas teriam de fato argumentos decisivos para a gente não precisar endossar uma metafísica mais carregada do realismo moral. Agora, foi uma escolha metodológica que eu fiz. Eu não comecei essa discussão a partir de uma teoria antirrealista e trouxe os argumentos realistas contrário a ela. Não foi esse o caminho que eu fiz. Foi uma escolha metodológica que, enfim, fui fazendo ao longo da minha trajetória. O que eu fiz, considerando as minhas limitações, foi tentar discutir um pouco sobre as possibilidades realistas, principalmente, como que elas respondiam a objeções e desafios antirrealistas. Então, eu levo a sério. Eu considero seriamente as posições antirrealistas e o princípio da parcimônia ontológica. Acho que é um dos princípios fundamentais que vai guiar a minha pesquisa.
Um dos temas que aparece no seu trabalho é o chamado “Problema da Terra Gêmea Moral”. Como você explicaria essa ideia para alguém que nunca teve contato com filosofia? E por que esse problema é importante?
Bom, na verdade, esse é um problema técnico, né? Então, acho que parte do que torna ele interessante é você ter algum contato prévio com a filosofia. Mas, assim, em linhas gerais, o problema da Terra Gêmea Moral é uma adaptação de um experimento mental do Hilary Putnam. O experimento mental é esse tipo de experimento de teste, que nós fazemos na filosofia, que nós imaginamos uma situação, e vemos como as nossas intuições se comportam naquele cenário. Muita gente contesta a validade dos experimentos mentais, mas esse experimento do Hilary Putnam tem uma ideia original, que ele apresenta. Imagina que exista um outro planeta parecido com a Terra, que a gente vai chamar de Terra Gêmea. Lá tudo é igual. A Terra só tem um detalhe diferente, que é aquilo que as pessoas lá chamam de água, não é H2O - dois átomos de hidrogênio e um átomo de oxigênio - é uma outra substância. Mas ela é indistinguível no nível ali da aparência e nos usos que a gente faz da água H2O. E aí, ele vai com esse experimento mostrar que o significado da palavra água não depende só da descrição, não depende só de como as pessoas pensam sobre aquele termo, sobre a palavra, depende um pouco de como o mundo é. Porque mesmo que as duas pessoas tenham exatamente a mesma ideia na cabeça quando elas estão falando de água, uma pessoa da Terra e uma pessoa da Terra Gêmea, porque o uso e a aparência é a mesma, eles não estão se referindo à mesma coisa, eles estão se referindo a coisas diferentes. Então, o mundo também é importante para determinar o significado das palavras. Aí, o problema da Terra Gêmea Moral vai fazer um experimento similar para aplicar no caso moral especificamente, né? Isso porque têm algumas teorias naturalistas que vão dizer que, como eu mencionei anteriormente, os valores morais estariam associados a questões e aspectos do mundo natural. Uma forma de fazer isso é dizer que os nossos termos morais ordinários, de certo, errado, bom ou mau, está relacionado com esses tipos do mundo natural, por exemplo, bem-estar, prazer, esse tipo de coisa. Eaí, se a gente constrói um experimento do estilo Terra Gêmea sobre moralidade, a gente pode dizer que existe uma outra Terra, a Terra Gêmea Moral, em que esses termos, esses mesmos termos que a gente usa, lá estão associados com outras coisas, sei lá, com alguma tradição, autoridade, alguma coisa diferente do que a gente usa aqui. É aí que surge um problema, porque quando a gente diz sobre alguma coisa que é errado e esses habitantes da Terra Gêmea Moral dizem que não é errado, pareceria, nas nossas intuições, que a gente estaria discordando, mas não estaríamos discordando porque nós estaríamos falando de coisas diferentes. Como se eu tivesse, por exemplo, vendo uma pintura e aí eu falo: "Ah, essa pintura aqui é fria”, e aqui eu tô falando das cores. Mas aí você encosta “não, não, é temperatura ambiente”, a gente não tá discordando, né? A gente está usando os termos com sentidos distintos. Então, e aí no caso moral, isso seria um desafio, para as teorias naturalistas que se apresentam dessa forma, porque justamente parece que tem um desacordo real ali. E você teria que dizer que não tem, porque as palavras têm significados diferentes. Então, isso mostraria, nesse argumento, que o significado dos termos morais não está atrelado a esses aspectos do mundo natural, porque senão a gente não consegue explicar esse desacordo intuitivo que nós percebemos. Então, basicamente seria essa ideia do da Terra Gêmea Moral.
Você também teve uma experiência internacional na University of North Carolina, trabalhando com um dos centros mais fortes em metaética. Que diferenças você percebeu entre o ambiente brasileiro e o ambiente internacional, especialmente no modo como problemas metaéticos são formulados e discutidos?
Eu acho que, dentro da metaética, nesse aspecto metodológico, diria que é bem parecido. Assim, o que tem de diferente, e aí eu acho que não é só na metaética, é da filosofia em geral, é o espaço institucional mesmo que gente tem, para estar. Espaço físico, eu me refiro, porque nas universidades que eu estive, eu frequentei a UFRJ, a UFMG e até a de São João Del-Rei, você não tem muito como estar na universidade se não for na sala de aula, por não ter um espaço, propriamente. E na Universidade da Carolina do Norte, e isso era mais comum nos Estados Unidos, você tem salas para os pós-graduandos, então você tem uma forma um pouco mais socializada, coletiva, de fazer a sua pesquisa. Você não vai ficar em casa pesquisando sozinho, e aí depois tem os momentos de você apresentar; você vai geralmente trabalhar junto com as outras pessoas. Então, eu acho que isso é uma coisa que é positiva para a filosofia, e que era mais comum lá do que é aqui. E também, um outro aspecto, é que tinha muito mais gente trabalhando com metaética, né? São poucas as pessoas dedicadas à área no Brasil, e nos Estados Unidos já é uma área mais comum, mais consolidada. Então, assim, existe uma diferença, por exemplo, de que você não precisa sempre começar falando sobre o que é metaética, definindo os aspectos mínimos ali do debate. E isso permite também que as pessoas discutam problemas mais atuais, né? Vamos nos voltar para as discussões contemporâneas que estão acontecendo agora, e não ficar tendo que estabelecer os termos do debate, dos anos 80, anos 90, e tal. Já dá para você dar por estabelecido isso. Então, acho que essas foram as principais diferenças que eu notei.
Dentre seus trabalhos, quais você indicaria para quem quer conhecer melhor sua pesquisa?
Ah, então, aí eu acho que a minha a minha tese, assim que ela tiver disponível online, vai ser uma boa opção. Mas acho que um trabalho interessante que eu tenho para indicar, que eu acho que é legal para quem tá interessado na área de metaética, principalmente, foi um texto que eu escrevi para um podcast, o podcast do PPGLM, que é o Programa de Lógica e Metafísica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (https://anchor.fm/podcast-do-ppglm). Nesse podcast eu apresento esse texto chamado Introdução à Metaética, em que eu tentei sintetizar as principais posições ali no debate. Foi um texto que eu escrevi mesmo tentando, assim, dar um panorama do debate. Eu escrevi com isso em mente. Então, eu espero que seja útil. Na publicação dos Ensaios do GT de Ética da última Anpof, já que tem alguma coisa sobre Terra Gêmea Moral, na entrevista e na minha contribuição aos ensaios eu abordei este tema (https://institutoquerosaber.org/editora161).
Quais são seus projetos para o futuro? O que podemos aguardar?
Eu tenho um projeto de pesquisa que continuaria dentro do realismo moral, que seria uma continuidade da minha tese, a partir de alguns problemas que eu identifiquei dentro das posições enquanto eu escrevia essa tese. Então, seriam agora as minhas próprias objeções, ao realismo, especialmente ao realismo de Cornell. Um dos principais aspectos que eu gostaria de trabalhar, que essa é uma posição naturalista, e várias outras posições também naturalistas definem em algum momento um critério de naturalidade, o que é um tipo natural. Mas, também, não é dado tanto espaço para isso. Mas o que eu quero defender é que existem alguns critérios naturalistas que não são compatíveis com o realismo moral. E aí eu queria desenvolver essa posição. Esse é o meu próximo projeto. Mas também eu tenho me interessado um pouco mais pela área de ética aplicada, que é essa ideia de usar a teorias morais, princípios morais, para discutir questões, dilemas sociais relevantes, que estejam em voga. Então, também estou pensando em fazer alguma coisa nessa área, mas ainda está bem incipiente. Estou pensando mesmo sobre isso, mas é uma área que tem me interessado além da metaética também.
Para finalizar…. Como é ser uma Filósofa?
Essa foi uma pergunta muito difícil. É uma pergunta difícil, porque me parece que ela está pedindo uma comparação, né? E aí, eu poderia dizer por contraste com outras coisas, tipo, como é ser uma engenheira, e, então, como é ser um filósofo, mas eu não tenho como oferecer essas comparações, né? Eu pensei também que eu poderia, talvez, falar dos desafios da carreira acadêmica, que existe ali uma distribuição assimétrica entre homens e mulheres. E eu acho que isso é uma coisa empiricamente verificável. E eu também não fui exceção para essa regra, mas eu não diria que isso que me caracteriza, assim, que caracteriza ser filósofa. Porque, na verdade, isso não é um aspecto só da filosofia, né? Acho que isso é um aspecto da academia, mas também do trabalho. É um aspecto social do trabalho na sociedade. Então, não é exclusivo da filosofia que existam desigualdades de gênero, que sejam injustas, e que prejudiquem as mulheres. Então, o que o que eu fiquei pensando que talvez seria uma forma de definir, e talvez não seja uma definição muito precisa, mas é que, partindo da ideia de que cada pessoa tem uma maneira de compreender e organizar o mundo, a formação filosófica é algo que vai compor essa forma de você ver e se relacionar com as coisas, com o mundo ao seu redor. E aí, no meu caso, ser filósofa se traduz em uma disposição em examinar aquilo que está implícito, que sejam pressupostos implícitos. E eu quero tornar explícitos, questionar as coisas que parecem dadas de imediato, óbvias, né? E dar uma forma conceitual mais precisa para alguns aspectos do cotidiano. Então, eu diria que ser filósofa é uma forma de pensar algo como um exercício permanente de atenção, de atenção persistente. Agora, é claro, o fato de eu ser mulher determina de alguma forma os objetos que vão chamar a minha atenção, ou o tratamento que eu dou a esses objetos. Aí, eu acho que é uma questão sociológica interessante, mas eu não sei dizer.