Por que Filosofia? Você se recorda de como e quando escolheu o curso?
É um prazer poder participar deste projeto com vocês. Obrigada pelo convite! A escolha pela Filosofia aconteceu logo após a conclusão do Ensino Médio. Terminei o Ensino Médio e prestei vestibular para Comunicação Social, na habilitação em Jornalismo. Cursei dois anos, mas acabei não me adaptando. Foi justamente a partir de algumas disciplinas do curso, isso entre 1980 e 1981, ainda durante a ditadura militar, que comecei a perceber o mundo de outro modo, de forma mais crítica. As leituras de Sociologia, História e, mesmo que transversalmente, de Filosofia, fizeram com que eu começasse a enxergar muitas questões sob outra perspectiva. Curiosamente, eu não tive Filosofia no antigo 2º Grau. Fiz o Ensino Médio sob a vigência da Lei nº 5.692/1971, que instituiu o caráter profissionalizante dessa etapa da educação. Mesmo estudando na Escola Cilon Rosa, não tive contato com a disciplina. Foi, portanto, no contexto da Comunicação Social que percebi que existia um tipo de conhecimento capaz de me ajudar a compreender acontecimentos que me inquietavam e que eu via como problemas. Foi então que decidi mudar de curso e ingressar na Filosofia. Gosto de contar que não escolhi a Filosofia porque era uma licenciatura ou porque imaginava que seria professora. Essa possibilidade nem passava pela minha cabeça. Hoje isso parece até contraditório, considerando tudo o que defendo sobre a docência (risos). Mas foi assim. A docência foi se construindo ao longo da minha trajetória na graduação. Num primeiro momento, a escolha pela Filosofia esteve muito ligada às questões existenciais e às questões políticas daquele período.
Nos conte como foi sua experiência na graduação? Você consegue pensar em pessoas e autores que foram referências ou em algum momento marcante para sua trajetória acadêmica?
Fiz a graduação em um curso de Filosofia muito próximo da Igreja. Havia professores que eram padres do Seminário Palotino. O curso de Filosofia da UFSM nasceu nessa interface com a então Faculdade Imaculada Conceição (FIC), hoje Universidade Franciscana (UFN). Muitos dos nossos professores eram padres, com sólida formação filosófica, e acabavam ocupando esse espaço de docência. Também havia vários colegas seminaristas, que cursavam Filosofia como parte da preparação para os estudos de Teologia. Acho importante lembrar que, naquele momento, a Teologia da Libertação exercia forte influência. Era uma teologia comprometida com as questões sociais e políticas e com as comunidades eclesiais de base. Assim, paralelamente à formação filosófica, fui tendo também uma formação política bastante significativa. Em relação ao corpo docente, tive apenas uma professora mulher: Marisa Meller, que lecionava Lógica. Havia também a professora Cecília Pires, mas durante o período em que cursei a graduação ela estava afastada para realizar o doutorado. Mais tarde, ela viria a ser minha orientadora no mestrado. Também fui aluna dos professores Ronai Rocha e Miguel Spinelli, nomes bastante conhecidos da Filosofia na UFSM e que se aposentaram há relativamente pouco tempo. Naquela época, as principais referências eram a Antropologia Filosófica, a Filosofia Antiga, a Filosofia Política e a Filosofia Social. Aliás, acho curioso porque recentemente essa disciplina voltou ao currículo. Nesta semana comentávamos exatamente isso. Alguém dizia que Filosofia Social era uma novidade, e eu respondi: "Não, na minha época de estudante nós já tínhamos essa disciplina". Depois ela desapareceu do currículo e agora retorna. Lembro também de ter lido algumas referências sobre Marx, além de Aristóteles e Kant. Mas era um Kant bem mais tímido do que aquele que conheci mais tarde (risos). Estudávamos também filósofos existencialistas cristãos. Era um curso bastante eclético e, por isso, não havia um filósofo específico que me marcasse profundamente. Essa identificação viria apenas no mestrado. Na graduação, tive sobretudo uma visão ampla da História da Filosofia. Uma característica importante para um pequeno grupo de colegas do curso era o interesse pelas discussões em torno da volta da Filosofia aos currículos escolares. Estávamos nos anos 1980 e começava, ainda timidamente, um movimento em defesa do retorno da disciplina às escolas brasileiras. Lembro que esse tema sempre despertou meu interesse, assim como as Ciências da Educação. Penso que isso também se deveu à convivência com meus colegas seminaristas, com quem discutíamos muito sobre educação. Passei, então, a cursar disciplinas, como optativas, no Centro de Educação: Sociologia da Educação, História da Educação e Filosofia da Educação — esta última que, curiosamente, não existia no currículo do curso de Filosofia. Nossa formação no Curso de Filosofia, na época, bastante limitada no campo pedagógico. Tínhamos Didática, uma Didática bastante geral; Política Educacional, que então se chamava Estrutura e Funcionamento do Segundo Grau; Psicologia da Educação e o Estágio, realizado apenas no último semestre do curso. Era nesse momento que, de fato, nos dávamos conta de que seríamos professores, quando entrávamos pela primeira vez em uma escola. Acho que devo ter ministrado umas dez aulas apenas. Foi nesse percurso que fui descobrindo a Filosofia em seu sentido mais amplo e, ao mesmo tempo, começando a me aproximar dos estudos em Educação, que depois se tornariam centrais na minha trajetória acadêmica.
Como você se descreveria enquanto estudante?
Acho que eu estava muito preocupada em estudar, porque tudo era muito novo para mim. Vim de escola pública, de uma família que não tinha livros em casa, a não ser um dicionário de Língua Portuguesa e uma enciclopédia. De repente, eu estava em um curso cuja principal atividade era a leitura, o contato permanente com os livros. Percebi muito cedo que, para acompanhar o curso, precisaria ler e estudar muito. Para isso, a biblioteca central da UFSM tornou-se um lugar fundamental. Era o grande arquivo, o espaço onde eu passava boa parte do tempo. Naquela época, pelo menos no nosso curso, utilizávamos muitos manuais de História da Filosofia, que apresentavam uma visão bastante ampla da tradição filosófica. Havia também a coleção Os Pensadores, que era o grande sonho de consumo dos estudantes de Filosofia. Os volumes eram caros para nós, e era muito difícil conseguir formar a coleção. Acho que isso teve um efeito importante na minha vida. Já no final da graduação comecei, de vez em quando, a comprar um volume, e somente durante o mestrado consegui completar a coleção, aqueles livros de capa azul. Imagina... para nós, ler Os Pensadores era algo muito marcante. Eu era uma estudante bastante tímida. Havia poucas mulheres no curso e eu circulava em um grupo pequeno de colegas. Sentia que precisava correr atrás, porque minha formação escolar havia sido frágil. Faltava-me uma certa bagagem cultural para acessar a Filosofia. Quando você chega a esse campo de conhecimento, percebe a grandiosidade da tradição filosófica. A sensação era sempre a mesma: como dar conta de estudar tudo isso? Como compreender tantas filosofias, tantos problemas, tantas conexões? O curso parecia enorme diante daquilo que eu ainda precisava aprender. Talvez essa sensação de "menoridade" tenha sido também um estímulo para estudar cada vez mais. Ao mesmo tempo, comecei a me perceber como um sujeito político. Passei a compreender que era possível agir sobre a realidade e que, para isso, era preciso estudar as referências que circulavam naquele momento, como Paulo Freire. Eu ainda era muito ingênua, mas participava de atividades nas comunidades nas periferias, quase sempre nos fins de semana, convidada por colegas seminaristas ligados à Teologia da Libertação. Fazíamos reuniões, organizávamos grupos, discutíamos educação e participação política. A gente queria revolucionar o mundo (risos). Queríamos formar bases, construir outras possibilidades de organização social. Essa dimensão política caminhava paralelamente ao curso de Filosofia. Não era um tema que aparecesse diretamente nas disciplinas ou nas discussões em sala de aula. Ela se constituía muito mais nas relações com meus colegas e nas experiências que vivíamos juntos fora da universidade.
A senhora mencionou que havia poucas mulheres no curso. Isso, de alguma forma, criou um ambiente pouco favorável para se tornar pesquisadora ou, ao contrário, era um ambiente acolhedor?
Essa é uma questão sobre a qual já pensei algumas vezes. Inclusive, já conversei com amigas daquele período sobre como nós, mulheres, nos víamos naquele curso e em que medida isso nos afetou. Sinceramente, eu não me percebia sendo discriminada ou sofrendo preconceito por ser mulher. Hoje, olhando para trás, penso que talvez isso também tenha a ver com o próprio contexto da época. Nós não nomeávamos essas situações como hoje conseguimos nomear. É como se esse problema simplesmente não existisse, ou, pelo menos, não pudesse ser formulado naquele momento. Eu era muito focada nos estudos. Talvez pensasse: "Isso não me interessa agora, preciso fazer a minha parte". Porque, para mim, era exatamente assim: ou você vai à luta, ou vai à luta. Não havia alternativa. Quando você nasce em uma família pobre, ou você estuda ou não tem saída. Então, fui estudando, fui fazendo o meu caminho. Na graduação, pelo menos, não tenho a lembrança de ter vivido essa experiência de forma consciente.
E quanto à sua entrada na pós-graduação? Como foi esse processo de se tornar pós-graduanda?
Essa história é bem interessante. Eu estava concluindo a graduação quando fui realizar o estágio no Colégio Centenário, uma tradicional escola metodista de Santa Maria, privada. Como já comentei, cursei Filosofia entre 1981 e 1984, ainda no final da ditadura militar. Naquele período, a Filosofia praticamente não fazia parte dos currículos do então Segundo Grau. Havia poucas exceções e, por isso, era muito difícil encontrar escolas que oferecessem estágio na área. Minha orientadora de estágio, a querida professora Hilda Juchem, conseguiu uma vaga para mim no Colégio Centenário. A escola oferecia Filosofia no Segundo Grau e desenvolvia um projeto educativo fortemente inspirado na educação libertadora de Paulo Freire. Quando terminei o estágio, fui contratada como professora de Filosofia. Permaneci na escola de 1985 a 1988, lecionando para estudantes da classe média alta santa-mariense. Ao mesmo tempo, havia abertura para discutir temas críticos e, muitas vezes, bastante delicados. Eventualmente surgia alguma reclamação de pais, mas, de modo geral, a escola apoiava esse trabalho, justamente porque seu projeto educativo dialogava com a perspectiva freiriana. Conto essa história porque ela ajuda a compreender por que a pós- graduação não foi uma continuidade imediata da graduação. Naquele período, a expectativa não era concluir o curso e ingressar diretamente no mestrado. Havia, sim, um Programa de Pós-Graduação em Filosofia na UFSM — um dos mais antigos do país —, mas essa possibilidade não fazia parte do nosso horizonte. Nossos professores não diziam: "Agora vá fazer o mestrado". Além disso, as bolsas de estudo eram muito raras. Era preciso trabalhar. Foi justamente na escola que comecei a perceber a importância de continuar estudando. Muitos colegas mantinham vínculos com a universidade e já estavam fazendo mestrado. Essa convivência foi decisiva para mim. Foi ali que compreendi que também queria seguir esse caminho e decidi prestar seleção para o Mestrado em Filosofia. Fui aprovada sob a orientação da professora Cecília Pires e, pouco depois, recebi uma bolsa da FAPERGS. O mestrado ampliou enormemente meu horizonte de estudos. Entrei em contato com autores que não haviam sido trabalhados durante a graduação. Estudei a Escola de Frankfurt — especialmente Adorno e Horkheimer — e, mais tarde, Habermas. Para compreender esses autores, precisei retornar a Hegel e a Marx. O próprio Kant passou a ocupar um lugar muito mais importante na minha formação. A tônica daqueles estudos era a Filosofia Política. Também foi no mestrado que conheci dois colegas com quem mantenho uma longa parceria acadêmica até hoje: o professor Noeli Dutra Rossatto, que foi orientando da professora Cecília Pires e pesquisava Sartre, e o professor Amarildo Trevisan, com quem mais tarde compartilhei a docência em Filosofia da Educação no Centro de Educação. Juntos, organizamos o SENAFE, um espaço que continua sendo muito importante para o Ensino de Filosofia e para a Filosofia da Educação.
Como você se aproximou dos seus temas de pesquisa no Mestrado e no Doutorado? Como foi essa experiência?
São dois momentos bem distintos da minha trajetória. No mestrado, minha pesquisa voltou-se para a Escola de Frankfurt, especialmente para o conceito de razão em Max Horkheimer. Já o doutorado representou uma mudança importante de percurso, pois foi realizado no campo da Filosofia da Educação. Quando estava concluindo a dissertação de mestrado, trabalhei como professora substituta na então Faculdade Imaculada Conceição (FIC), hoje Universidade Franciscana. Também atuei como professora substituta aqui no Departamento, na área de Filosofia Social. Quem já trabalhou em uma instituição privada sabe como é: damos aula de tudo o que aparece. Lecionei Filosofia Moderna, Filosofia da Educação, Filosofia Política... Foi um período de muito trabalho, mas também de muitas aprendizagens. Tive a oportunidade de estudar autores e temas que não haviam sido tão explorados durante a graduação. Nesse período fiz concurso para professora efetiva do Departamento de Filosofia e fiquei em segundo lugar. Foi então que a vida me conduziu para outro caminho. Em 1992, prestei concurso para a área de Filosofia da Educação, no Centro de Educação da UFSM, e fui aprovada em primeiro lugar. Como esse já era um campo pelo qual eu tinha interesse e no qual vinha realizando leituras, assumi a docência com bastante entusiasmo. Naquela época, o doutorado ainda não era uma exigência para o ingresso na carreira universitária. Quando tomei posse, pensei: "Preciso fazer o doutorado". Como já estava atuando na Filosofia da Educação, pareceu-me natural que a pesquisa seguisse nessa direção. Ingressei na UFSM, como professora concursada, em 1993 e iniciei o doutorado em 1996. Meu plano inicial era cursá-lo na UFRGS. No entanto, por influência de uma amiga de São Paulo, resolvi tentar a USP. Foi uma verdadeira aventura. Tudo era muito novo e desconhecido para mim. Ao me inscrever, indiquei como possível orientador o professor Antônio Joaquim Severino, que eu já havia lido bastante e que era uma grande referência da Filosofia da Educação no Brasil. Acabei, porém, sendo orientada pelo professor José Mário Pires Azanha, que conheci ao chegar à USP. Minha pesquisa investigou a constituição da disciplina Filosofia da Educação nos cursos de licenciatura das universidades brasileiras. Como eu já atuava como professora dessa disciplina, queria compreender sua origem, como havia se constituído, qual era seu lugar na formação de professores e que importância lhe era atribuída nas universidades. Naquele momento, a Filosofia da Educação possuía uma produção bastante consistente, especialmente no Grupo de Trabalho da ANPEd. Havia muitas pesquisas sobre os fundamentos da área, mas poucos estudos dedicados à sua história. Parecia-me importante compreender a trajetória da própria disciplina que eu ensinava. A pesquisa concentrou-se no período entre as décadas de 1930 e 1960 e envolveu universidades como a UFRJ, a USP, a UFRGS e a PUCRS. Investiguei quem foram os primeiros professores de Filosofia da Educação, os conteúdos trabalhados, os referenciais teóricos predominantes e o lugar que a disciplina ocupava na formação docente. Hoje percebo que foi nesse momento que, de certo modo, deixei de me identificar apenas como pesquisadora da Filosofia para me dedicar mais intensamente ao campo da História e da Filosofia da Educação. Essa mudança foi muito significativa para a minha trajetória. Também tive uma experiência intelectual bastante marcante com meu orientador. O professor José Mário Pires Azanha possuía uma sólida formação filosófica de orientação analítica, enquanto minha formação estava muito mais vinculada à tradição materialista e crítica da Filosofia da Educação. Esse encontro ampliou meu modo de trabalhar filosoficamente. Aprendi outra forma de ler e analisar os textos, muito mais rigorosa e atenta à argumentação. Wittgenstein aparecia frequentemente como referência em nossas discussões. Ao mesmo tempo, fui aprendendo a relacionar o texto filosófico com os problemas concretos da educação, articulando teoria e realidade, conceitos e acontecimentos. Essa experiência foi decisiva para minha formação intelectual. Também foi muito desafiadora, mas, olhando hoje para esse percurso, reconheço o quanto ela ampliou meu modo de pesquisar e de compreender a Filosofia e a Educação.
Já ia lhe perguntar como Hannah Arendt e Michel Foucault entraram nas suas pesquisas...
Hannah Arendt entrou na minha trajetória ainda durante o doutorado. Já Foucault... (risos) foi uma descoberta completamente autodidata (risos). Quando concluí o doutorado e retornei à UFSM, no início dos anos 2000, continuei ministrando Filosofia da Educação, disciplina que mais tarde passou a se chamar Fundamentos Históricos e Filosóficos da Educação. Atuava em diferentes cursos de licenciatura e gostava muito do que fazia. No entanto, eu ainda não participava de um grupo de estudos e pesquisas. Ao mesmo tempo, desde o período da USP, acompanhava, ainda que à distância, o movimento que começava a se organizar em torno do Ensino de Filosofia. Meu campo de pesquisa continuava sendo a Filosofia da Educação, mas esse debate despertava meu interesse, na verdade continuava presente na minha vida. Foi nesse contexto que me reencontrei com a professora Simone Gallina. Ela também era formada em Filosofia e estava começando a construir seu projeto de doutorado na UNICAMP, depois de ter realizado o mestrado no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFSM. Começamos a conversar com frequência e percebemos que compartilhávamos muitas inquietações. Em 2005, resolvemos criar um grupo de pesquisa. Logo convidamos a professora Cláudia Benetti, ex-aluna do curso de Filosofia e colega da Simone, que então lecionava na FACOS, em Osório. Mesmo à distância, passamos a estudar e discutir questões relacionadas ao Ensino de Filosofia. Naquele momento, no Curso de Filosofia, as disciplinas de Didática da Filosofia e Estágio eram ministradas por professores substitutos. Quando foi aberto concurso para essa área, e em função de decisões internas da universidade, manifestei interesse em assumir esse trabalho e fui redistribuída para o Departamento de Metodologia do Ensino (MEN). Foi assim que, ao final de 2005, passei a atuar exclusivamente na Licenciatura em Filosofia. De certo modo, foi ali que tudo começou — ou talvez recomeçou — com o Ensino de Filosofia. Também preciso lembrar que, quando retornei do doutorado, em 2000, credenciei-me no Programa de Pós-Graduação em Educação e comecei a orientar. Minha primeira orientanda de mestrado foi uma egressa do curso de Filosofia da UFSM, embora eu ainda não a conhecesse pessoalmente. Naquele momento, eu ainda não desenvolvia pesquisas especificamente sobre Ensino de Filosofia. Acredito que o fato de ser professora de Filosofia e atuar na Filosofia da Educação tenha despertado o interesse dos egressos do curso. A partir dessa primeira orientação, com Rejane Ramborger, vieram muitas outras. Quanto à pesquisa, percebo que fui mudando ao longo do tempo. Com a criação do FILJEM — na época, Grupo de Pesquisa Filosofia, Juventude e Ensino Médio —, nossas pesquisas e orientações passaram a situar-se na interface entre Filosofia e Educação. Essa é, inclusive, uma discussão importante no próprio campo do Ensino de Filosofia. Muitas das pesquisas emergiram nesse campo foram desenvolvidas por filósofos da educação. Basta lembrar nomes como Sílvio Gallo, Walter Kohan e Pedro Pagni, entre tantos outros. Enquanto isso, os departamentos de Filosofia, em sua maioria, ainda dedicavam pouca atenção às questões do ensino. Hoje existe uma produção significativa sobre essa história. Esses pesquisadores tinham como principais referências a filosofia contemporânea. Sílvio Gallo, por exemplo, estudava Deleuze, Guattari e Foucault. Walter Kohan, embora muito conhecido pelos estudos sobre Filosofia para Crianças, também produzia intensamente sobre Ensino de Filosofia a partir desses autores. Foi nesse contexto que Foucault entrou na minha trajetória. Percebi que, se quiséssemos participar daquele debate, precisaríamos estudar essas referências. Não era uma obrigação, mas uma necessidade intelectual. Ou nos apropriávamos desse conjunto de autores ou não conseguiríamos dialogar com a produção que estava sendo construída naquele momento. E foi realmente um percurso autodidata. Não havia a facilidade de acesso que existe hoje. Durante a graduação e mesmo no doutorado, praticamente não estudei Deleuze, Guattari ou Foucault. Então começamos a ler juntos, no grupo de pesquisa. Os orientandos chegavam querendo estudar esses filósofos, e nós estudávamos coletivamente. O grupo sempre teve essa característica: ler, discutir, debater e aprender em conjunto. Lembro de uma ideia atribuída a Deleuze que sempre me acompanhou. Não recordo exatamente em qual texto ou entrevista ela aparece, mas a incorporei como princípio de trabalho: quando queremos aprender profundamente um tema, o melhor caminho é oferecer um curso, uma disciplina, sobre ele (risos). Foi exatamente isso que aconteceu comigo. Em meio às inúmeras demandas da universidade, dificilmente eu encontraria tempo para estudar Foucault sozinha. Os seminários e as disciplinas da pós- graduação passaram a ser, ao mesmo tempo, espaços de ensino, estudo e pesquisa. Um dos maiores aprendizados da minha trajetória como professora e orientadora: confiar na capacidade dos estudantes. Quando oferecemos condições de estudo, eles constroem sua autonomia. E constroem mesmo. Avançam, desenvolvem pesquisas próprias e, muitas vezes, superam seus orientadores. Sempre acreditei que esse é um dos sentidos da universidade. Nas disciplinas, especialmente nos estágios, minha preocupação sempre foi criar condições para que cada estudante encontrasse seu próprio caminho. Se eu tivesse exigido que permanecessem presos aos autores que eu estudava, provavelmente teria limitado suas pesquisas. Também nunca orientei qualquer tema indiscriminadamente. Sempre procurei trabalhar dentro dos campos que conheço, ainda bem (risos). No caso de Foucault, costumo dizer que existem pelo menos duas formas de trata-lo na pesquisa. Uma é a leitura propriamente filosófica, em que seus conceitos são objeto de estudo. A outra é uma leitura operatória, que utiliza seus conceitos como ferramentas para investigar problemas. É a ideia da "caixa de ferramentas", formulada por Foucault e retomada por Deleuze. Essa segunda possibilidade é extremamente exigente. Não há receitas para realizar uma pesquisa genealógica ou arquegenealógica. É preciso estudar muito e construir, pouco a pouco, uma forma própria de trabalhar. Ao mesmo tempo, nunca restringimos nossas pesquisas a Foucault. Muitos orientandos desenvolveram e desenvolvem seus trabalhos a partir de Hannah Arendt, enquanto outros recorreram a diferentes referenciais das Ciências da Educação, da Sociologia, da História da Educação ou da Didática. Sempre procurei compreender que o importante não era formar pesquisadores fiéis a um filósofo, mas pesquisadores capazes de escolher, de maneira rigorosa, os referenciais mais fecundos para os problemas que desejavam investigar.
Qual sua pior experiência acadêmica?
Ah, minha pior experiência acadêmica? Poderia ter pensado mais sobre isso. Olha, acho que uma coisa que foi negativa — negativa no sentido de eu me sentir meio acuada, meio intimidada, com aquela sensação: mas o que eu estou fazendo no meio desse grupo acadêmico? — foi quando, ali pelos anos de 2006, 2007, eu estava hegando ao Curso, com muito envolvimento com as questões do ensino. Houve alguns momentos com os estudantes que foram muito difíceis. Eu era muito desafiada. Os alunos não valorizavam minhas disciplinas, e havia aquele imaginário: a Elisete vem lá do Centro de Educação, é mulher falando de escola, de ensino, de educação. O ensino não era um tema reconhecido na Filosofia; era considerado um tema de segunda ordem, subalterno. E, se era isso que aparecia no Departamento, era também isso que aparecia na fala dos estudantes. Então, tive estudantes que me confrontavam. Foram momentos bem difíceis. E eram poucos os colegas do Departamento que entendiam esse movimento em prol do Ensino de Filosofia. Hoje, quando olho para trás, percebo muito claramente como as coisas mudaram e me dou conta de que acompanhei e participei desse processo. Penso que outros momentos desafiadores se relacionam à questão de ter muito trabalho. Para mim, a graduação e a pós-graduação andam juntas, e uma coisa retroalimenta a outra. Os estudantes demandam, e precisam demandar, e a gente precisa acolher, precisa também oferecer acompanhamento. Então, isso produz um certo desgaste, às vezes.
Qual a sua melhor experiência acadêmica?
Uma experiência boa, nesse contexto dos desafios aqui no Curso, foi a criação do Laboratório de Ensino e Aprendizagem de Filosofia (LEAF). Ele marca um lugar, um território de muita importância. Embora não tenhamos uma sala muito grande, muito bem equipada, o LEAF representa o espaço do Curso de Licenciatura, o espaço dos/as futuros/as professores e professoras de Filosofia. E começou muito pequeno, muito! Gosto muito, também, de pensar como uma das minhas melhores experiências o acompanhamento dos estudantes. Isso é o que vale a pena. Lá no final, quando eles chegam ao último estágio, percebo que alcançamos muitos de nossos objetivos: a maturidade acadêmica e o compromisso com a docência. Então, esse é o reconhecimento de que houve formação humana, formação filosófica e formação educacional. Vale a pena! Vale muito a pena!
Se você pudesse voltar no tempo e dar um conselho àquela jovem estudante e professora, qual seria?
Talvez eu dissesse a ela para ser mais firme em alguns momentos. Penso que poderia ter sido mais incisiva diante de determinadas situações e ter respondido com mais segurança quando alguns desafios apareceram. Também gostaria de ter aprofundado mais as leituras que realizei no mestrado. São autores e questões aos quais volto de vez em quando, porque sinto que ficaram em aberto quando migrei para outro campo de pesquisa. Mas, sinceramente, não faria muitas coisas de forma diferente. Talvez dissesse apenas para confiar mais em si mesma. Eu era muito tímida e, muitas vezes, deixava de ocupar determinados espaços ou de sustentar com mais convicção aquilo em que acreditava. Hoje consigo fazer isso com mais tranquilidade. A própria trajetória acadêmica foi me dando essa segurança e me ensinando que, para permanecer na universidade, é preciso saber quais são as lutas que vale a pena travar e de que maneira travá-las.
Nos últimos vinte anos, a senhora tem se dedicado à formação de professores de Filosofia na UFSM. Como é essa experiência e que responsabilidades ela envolve? Quais são os desafios e as perspectivas para quem escolhe a docência em Filosofia hoje?
Acho que toda a minha atividade universitária está profundamente vinculada à ideia de formação. Depois de tantos anos, é assim que me reconheço: acompanhando processos formativos, vendo estudantes tornarem-se professores e professoras. É muito bonito acompanhar alguém que chega à universidade sem imaginar que um dia poderá estar diante de uma turma e, pouco a pouco, vai conquistando essa confiança. Ver esse percurso acontecer de perto é uma das experiências mais significativas da minha vida universitária. Ao mesmo tempo, percebo que o mundo mudou muito e continua mudando. Isso exige de nós um permanente exercício de reaprendizagem. Sinto que preciso aprender continuamente a olhar para a escola, para os jovens, para a formação filosófica e para a própria universidade de outras maneiras. Não podemos continuar fazendo as mesmas perguntas nem oferecendo exatamente as mesmas respostas. Penso que vivemos um tempo de muita indefinição, ou, para usar uma expressão de Hannah Arendt, um tempo de crise. Não compreendo essa crise apenas em sentido negativo, mas como um momento em que os referenciais tradicionais deixam de responder plenamente às novas situações que estamos vivendo. Hoje encontramos outras formas de produzir conhecimento, outras maneiras de acessar a Filosofia e outros modos de relação com a leitura, com a escrita e com os textos. Aquilo que sempre constituiu o centro da formação filosófica parece estar assumindo novas configurações. A questão que me acompanha é justamente esta: como essas novas formas poderão sustentar uma formação filosófica consistente? Essa é uma pergunta que ainda estamos aprendendo a formular e, sobretudo, a investigar. Ao mesmo tempo, vejo uma escola pública profundamente fragilizada. E nós, na universidade, continuamos formando professores e professoras dizendo a eles: "Vale a pena". De certo modo, existe uma tensão entre as condições concretas da escola e aquilo que continuamos defendendo como projeto de formação. Mesmo assim, nunca deixei de acreditar que vale a pena ser professora e professor de Filosofia. Não gostaria que nossos estudantes saíssem da universidade convencidos de que esse esforço não faz sentido. Pelo contrário. Acredito que estamos atravessando um período muito difícil, mas também um período de transformações profundas. Essas transformações dizem respeito à escola pública, às políticas educacionais, à valorização do magistério e às próprias condições de trabalho dos professores. Por isso, formar professores hoje significa também defender a escola pública e a formação docente, tanto dentro quanto fora da universidade. Costumo dizer aos meus estudantes que muitas das bandeiras que minha geração levantou agora passam para as mãos deles. Serão eles que precisarão inventar novas formas de ensinar Filosofia para jovens que chegam à escola com outras experiências, outras linguagens e outras formas de subjetivação. Talvez nós, professores mais antigos, já não conseguimos compreender plenamente essas mudanças. Mas cabe às novas gerações criar outros modos de ensinar, de pesquisar e de fazer da Filosofia uma experiência significativa para o tempo em que vivem. É nisso que continuo apostando. Na formação, na escola pública e na capacidade que cada nova geração tem de reinventar o ensino de Filosofia sem abrir mão do rigor, da reflexão e do compromisso com o pensamento. O Ensino de Filosofia não pode ser pensado separado da escola, dos jovens e do mundo contemporâneo.
O que a motivou a formar o grupo de pesquisa FILJEM e como ele contribuiu para o desenvolvimento do campo do Ensino de Filosofia?
Acho que a resposta está, de certo modo, no que já contei anteriormente. O FILJEM nasceu da necessidade de pensar a Filosofia em conexão com a Educação e com os problemas do mundo contemporâneo. Sempre valorizei aquilo que costumo chamar de leitura da realidade, ou seja, a produção de diagnósticos sobre o presente. Talvez tenha sido justamente por isso que Foucault passou a ocupar um lugar tão importante nas minhas pesquisas. A ideia de uma ontologia do presente fazia muito sentido para aquilo que eu buscava compreender. Se a Filosofia está presente no Ensino Médio, então precisamos perguntar: o que significa hoje o Ensino Médio? Quem são os jovens que frequentam essa etapa da escolarização? Quais são suas experiências, suas culturas e seus modos de compreender o mundo? Essas questões sempre orientaram nossas pesquisas. Nunca nos interessou pensar o Ensino de Filosofia separado da escola ou dos estudantes concretos. Foi com essa perspectiva que criamos o FILJEM. Ao longo dos anos, porém, o grupo foi se transformando. Passamos a reunir colegas de diferentes áreas do Centro de Educação, como Sociologia da Educação, Sociologia da Infância e Pedagogia. Isso fez com que o grupo se tornasse cada vez mais interdisciplinar. Também gosto de destacar que o FILJEM nunca foi o projeto de uma única pessoa. Ele foi sendo construído coletivamente. Desenvolvemos muitos projetos de pesquisa em parceria e, com o tempo, as diferentes linhas de investigação foram ganhando autonomia. Hoje cada uma segue seu percurso, mas continuamos nos encontrando em torno de questões comuns. O grupo FILJEM reúne-se semanalmente, todas as sextas-feiras à tarde. É um espaço permanente de estudo, leitura e discussão, característica que acompanha sua história desde o início. Penso que essa continuidade explica, em parte, o reconhecimento que o grupo conquistou entre os pesquisadores da área. Hoje o FILJEM é um dos grupos mais antigos e ativos dedicado ao Ensino de Filosofia no Brasil. Sua identidade foi sendo construída justamente nessa confluência entre Filosofia da Educação, Ensino de Filosofia e Educação. Nunca deixamos de estudar filósofos e filósofas; ao contrário, nossas pesquisas sempre buscaram dialogar com o pensamento filosófico, mas tomando-o como uma ferramenta para compreender os problemas da educação, da escola e da formação. Acredito que essa seja uma característica muito própria do grupo. Há uma forte marca da Filosofia da Educação em nossas pesquisas, sem que isso signifique abandonar a investigação filosófica e educacional em sua dimensão específica. Procuramos compreender os problemas da escola e da formação a partir da Filosofia, mas sempre em diálogo com a realidade educacional. No ano de 2025 comemoramos os vinte anos de criação do FILJEM. Foi um momento importante para revisitar nossa trajetória e perceber o quanto o grupo contribuiu para a consolidação do campo do Ensino de Filosofia no Brasil. Mais recentemente, o FILJEM passou também a integrar o Museu do Conhecimento da UFSM, ampliando ainda mais suas possibilidades de atuação em pesquisa, formação e extensão.
Professora, poderia nos falar um pouco sobre seu projeto de pesquisa mais recente, Didática da Filosofia no Brasil (2008–2024)? Qual a importância desse projeto para o campo do Ensino e da Aprendizagem da Filosofia? E qual tem sido o papel do grupo FILJEM nessa pesquisa?
Esse é o projeto de pesquisa ao qual tenho me dedicado mais intensamente nos últimos anos e que reúne alguns orientandos de mestrado e doutorado. As pesquisas investigam diferentes aspectos da Didática da Filosofia, como as práticas de professores e professoras nas escolas, os processos de avaliação em Filosofia, a formação docente e o trabalho desenvolvido na sala de aula. A principal questão que tem orientado minhas investigações surgiu ainda durante o pós-doutorado. Comecei a perceber que, no Brasil, utilizávamos frequentemente as expressões Ensino de Filosofia e Didática da Filosofia quase como sinônimos. Passei, então, a me perguntar: estamos falando realmente do mesmo campo de conhecimento? Em que medida eles se aproximam e em que aspectos se diferenciam? Essa pergunta nasceu, em grande parte, da leitura de pesquisadores argentinos, que trabalham explicitamente com a expressão Didática da Filosofia e possuem uma produção bastante consistente sobre esse tema. No Brasil, ao contrário, a Didática da Filosofia sempre me pareceu ocupar um lugar muito discreto. Havia, muitas vezes, uma certa desconfiança em relação à própria palavra "didática", como se ela aproximasse excessivamente a Filosofia das Ciências da Educação e, de algum modo, diminuísse sua especificidade filosófica. Foi por isso que passei a investigar a constituição desse campo no Brasil. Uma das primeiras constatações foi que ainda temos pouca produção dedicada especificamente à Didática da Filosofia. Se pensarmos em livros voltados exclusivamente para essa temática, contamos praticamente com duas obras que se tornaram referências nos cursos de Licenciatura em Filosofia: uma de Sílvio Gallo e outra de Lídia Maria Rodrigo. Evidentemente, existem muitos capítulos de livros, artigos e pesquisas que abordam questões didáticas, mas ainda me parece um campo em processo de consolidação. Ao mesmo tempo, tenho defendido que precisamos voltar nosso olhar para aquilo que acontece efetivamente na escola. É necessário acompanhar mais de perto as práticas de ensino, compreender o cotidiano das aulas de Filosofia e desenvolver pesquisas que tenham como objeto a própria sala de aula da escola pública. Em outras palavras, precisamos construir uma pesquisa sobre Didática da Filosofia ancorada na experiência concreta do trabalho docente. Outro aspecto que considero fundamental diz respeito à dimensão histórica desse campo. Talvez isso revele uma característica da minha própria trajetória: sempre tive muito interesse pela história das disciplinas e das instituições. Assim como investiguei a constituição da Filosofia da Educação no doutorado, hoje procuro compreender como se constitui historicamente a Didática da Filosofia no Brasil. Passei, então, a investigar quando essa preocupação começa a aparecer entre nós. Em que momento surge a necessidade de pensar uma didática específica para a Filosofia? Como essa discussão se desenvolve desde os primeiros cursos de licenciatura, criados na década de 1930? Durante muito tempo, a formação didática dos futuros professores esteve vinculada apenas à Didática Geral. Em que momento emerge a compreensão de que o ensino de Filosofia exige também uma reflexão sobre sua especificidade didática? Essas são algumas das perguntas que orientam a pesquisa. Mais recentemente, outro desafio passou a ocupar um lugar central em minhas investigações: as implicações da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para o ensino de Filosofia. A BNCC introduz uma linguagem fortemente orientada pelas noções de competências e habilidades. Isso nos obriga a perguntar: o que significa desenvolver habilidades filosóficas? É possível ensinar a problematizar, conceituar e argumentar? Como essas capacidades podem ser construídas nas aulas de Filosofia? Quais condições didáticas tornam isso possível? Essas perguntas deslocam o debate para o centro da prática docente. Não basta afirmar que a Filosofia desenvolve determinadas habilidades; é preciso compreender como elas podem ser efetivamente trabalhadas na escola e quais práticas favorecem sua aprendizagem. É nesse conjunto de questões que tenho concentrado minhas pesquisas atualmente. Ainda não possuo respostas. O que procuro fazer é construir problemas, investigar caminhos e produzir referências que possam contribuir para o fortalecimento da Didática da Filosofia como um campo de pesquisa próprio, articulado ao Ensino de Filosofia, mas com questões e objetos que lhe são específicos.
Considerando sua trajetória sobre ensino e aprendizagem de Filosofia, qual a importância de se ter a obrigatoriedade da filosofia no Ensino Médio? Como a filosofia pode ou deveria auxiliar na formação dos jovens da atual geração?
Há muita produção sobre a importância da obrigatoriedade da Filosofia na escola. É uma luta histórica que começou nos anos 1980. Foram diferentes momentos: momentos em que conseguimos o retorno da Filosofia para o currículo escolar, depois perdemos; depois conseguimos novamente. Sempre foi um processo de presença e ausência, de entra e sai do currículo. Agora, a Filosofia está presente na escola depois de um grande susto e de muita revolta, da comunidade filosófico-educacional, com a Reforma do Ensino Médio, de 2017. A minha perspectiva é que não há motivo para essa discussão sobre se a Filosofia deve ou não estar na escola. A Filosofia é um saber e uma prática fundamental. Se a Física, a Matemática, a Biologia são saberes sobre os quais não se discute isso, por que com a Filosofia, e também com a Sociologia, seria diferente? E, se a escola tem a tarefa de ensinar esses saberes e essas práticas, constituídos como um grande acervo cultural da humanidade, nossa herança cultural, a Filosofia certamente compõe essa herança. Então, não há discussão sobre isso. A importância da Filosofia na escola está na contribuição que pode oferecer à formação dos jovens estudantes. Claro que estou simplificando: não há discussão para nós, mas os agentes políticos e econômicos estão sempre à espreita para dizer e fazer o contrário. Daí a necessidade de nossa vigilância constante. A Filosofia possibilita o acesso a outras formas de ler, compreender e dar sentido ao mundo. Há vários modos de compreensão do mundo, oferecidos pelos diferentes saberes e diferentes ciências, mas a abertura que a Filosofia oferece aos jovens é radical. Ela pode produzir outros modos de vida que, penso, muitas vezes nos salvam. E, num mundo que é cada vez mais desafiador, que está se transformando constantemente, um mundo no qual parece que nada mais tem o potencial de espantar, de chocar; uma sociedade líquida, uma sociedade do espetáculo, uma sociedade do cansaço, que está anulando a possibilidade do estranhamento, da imaginação e da crítica, do negativo; há um acúmulo muito intenso de informações e de elementos que produzem uma espécie de soterramento da nossa capacidade de atenção e de percepção das coisas do mundo. Eu penso que é esse cenário que torna a Filosofia cada vez mais importante e necessária. É isso, mas é difícil, muito difícil! Porque, nesse cenário de excesso, de rapidez, de esgotamento, apresentar a Filosofia aos jovens não é tarefa fácil. Estamos tentando encontrar formas de dizer que é importante e necessária a leitura, o contato com a tradição filosófica, com as filosofias canônicas e não canônicas, com a prática filosófica. Ou seja, é um modo de oferecer às jovens gerações aquilo que pode dar a elas condições de transformarem a si mesmas. Penso que temos que muní- las de ideias, de conceitos, de problematizações, para que possam criar o mundo que desejam construir.
Dentre seus trabalhos, quais você indicaria para quem quer conhecer melhor sua pesquisa?
O livro resultado da minha tese, Filosofia da Educação: Um estudo sobre a história da disciplina no Brasil (2003). O livro que organizei com o grupo de orientandos sobre estágio e proposições didáticas, que nasce aqui dentro do Curso, das experiências formativas ao longo da graduação e culmina no estágio. O título é Estágio Docente em Filosofia: Proposições Didáticas (2020). Também tem um livro de que gosto muito, Conversações sobre Filosofia, Escola e Ensino Médio (2023), que eu e a Jéssica Erd organizamos e que foi publicado pela Editora da UFSM. Também gosto muito do texto que publiquei nesse livro, Filosofia na Escola: entre constatações e a busca por outras perspectivas de ensino. Por fim, tem um artigo sobre estágio em Filosofia, a partir de uma leitura das tecnologias do eu, de Foucault, de que gosto bastante. Ele se intitula Estágio em Filosofia e Práticas de Experiência de Si (Docente) (2024) e foi publicado pela RESAFE.
Quais são seus projetos para o futuro? O que podemos aguardar?
Neste momento, meu principal projeto é concluir o livro sobre Didática da Filosofia, pesquisa à qual tenho me dedicado nos últimos anos e que reúne muitas das questões que discutimos ao longo desta entrevista. Outro espaço que tem mobilizado bastante meu trabalho é o Museu do Conhecimento da UFSM. Trata-se de um projeto que começou a ser construído em 2012 por colegas da Educação, da Comunicação Social e das Letras, a partir de um edital FINEP. O objetivo do Museu é divulgar e popularizar o conhecimento produzido na universidade, tomando o digital e o virtual como espaços privilegiados de sua circulação. O Museu foi concebido como um espaço interativo, voltado para a divulgação das pesquisas desenvolvidas na UFSM e para a aproximação entre universidade e sociedade, mais especificamente a escola básica. Passei a integrar esse projeto em 2024 e tenho participado da construção de espaços destinados à socialização de pesquisas, ideias, materiais didáticos e produtos educacionais. Espero que possamos ampliar cada vez mais a participação do Curso de Filosofia nesse projeto, criando formas de tornar visível aquilo que produzimos em ensino, pesquisa e extensão. Penso que esse é um desafio importante para a universidade: compartilhar, com a escola básica principalmente, o conhecimento que produzimos em um espaço de socialização e imersão.
Para finalizar... Como é ser filósofa?
Essa é uma pergunta bonita. Durante muito tempo, eu não me considerava filósofa. Para mim, os filósofos pertenciam a um universo distante, quase um Olimpo inacessível. De certo modo, foi isso que minha própria formação me ensinou: "não se atreva a ser filósofa". Cabia-nos estudar os filósofos, comentá-los, interpretá-los. Fazer filosofia parecia pertencer sempre aos outros. Aos poucos, porém, fui lendo também a história da formação filosófica no Brasil e compreendendo que fazer filosofia não pode significar apenas comentar aquilo que outros pensaram. É preciso produzir pensamento. Nesse percurso, Foucault foi uma referência decisiva para mim. Não apenas pelos conceitos que elaborou, mas pelo modo como compreendia o próprio exercício da filosofia. Sua maneira de colocar a filosofia em diálogo com outros saberes e, sobretudo, de vinculá-la aos problemas do presente modificou profundamente meu modo de pensar. Passei a compreender a filosofia como um exercício de diagnóstico do presente. Fazer filosofia é olhar para o mundo em que vivemos, reconhecer os problemas do nosso tempo e buscar compreendê-los com as ferramentas conceituais que a tradição filosófica nos oferece. Como trabalho com a escola, com a formação de professores, com a sala de aula e com o Ensino de Filosofia, não posso me dedicar exclusivamente ao comentário de um único filósofo. Preciso que a filosofia me ajude a pensar os problemas que constituem o meu próprio ofício. Meu trabalho acontece justamente nessa interface entre os conceitos filosóficos e os acontecimentos educativos. Foi Foucault quem me mostrou essa possibilidade. Quando compreendi que a filosofia também podia ser esse exercício de problematização do presente, pensei: "É... talvez eu possa fazer isso. Talvez eu também possa ser filósofa." Hoje eu diria que ser filósofa é colocar a tradição filosófica em diálogo com os problemas do presente. É pensar a escola, a formação, os jovens e a educação com as ferramentas que a filosofia nos oferece. Talvez tenha sido isso que aprendi com Foucault: a filosofia não nos afasta do mundo; ela nos dá condições de habitá-lo de maneira mais atenta e mais crítica.