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Cinara Nahra

Nossa entrevistada é Professora titular do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), onde atua desde 1995. Doutora (PhD) em Filosofia, na área de ética, política e políticas públicas (Ethics, Politics and Public Policies), pela University of Essex (2005), onde foi orientada pelo Prof. Tom Sorell. Foi Academic Visitor de setembro de 2018 a setembro de 2019 na University of Oxford, com bolsa CAPES/Print junto ao Uehiro Centre, e agraciada com uma Plumer Visiting Fellowship junto ao St Anne's College, de abril a julho de 2019, tendo colaborado com o Prof. Roger Crisp. Realizou pós-doutorado e foi pesquisadora visitante na University of Manchester (2010), tendo colaborado com o Prof. John Harris. Graduada em Filosofia (bacharelado) pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1987) e mestre em Filosofia (1994), na área de filosofia moral e política. Atua especialmente na área de ética e filosofia moral, com ênfase em ética normativa e ética aplicada, discutindo autores da filosofia moral como Immanuel Kant e John Stuart Mill, bem como temas como ética de princípios, ética utilitarista, deontoutilitarismo, neuroética, enhancement, moral enhancement, inteligência artificial, ética e política, preconceito, moralismo e bioética. Entrevista realizada por Kauê Da Silva De Rosso, estudante de graduação da UFSM. Supervisão e revisão Camila Palhares Barbosa, professora do Departamento de Filosofia da UFSM.

Por que Filosofia? Você se recorda de como e quando escolheu o curso?

Antes deixa eu só agradecer publicamente aqui ao convite, ao projeto da Camila, e ao Kauê, que estão levando um projeto interessantíssimo, importantíssimo! Então, antes eu gostaria de deixar isso registrado. Sim, eu me lembro de porque Filosofia, eu me lembro de porque eu entrei, e já faz muito tempo, né? (Risos) Na realidade, eu entrei na Filosofia em 84 ou 85, eu acho que foi 84, vinda, na realidade, da Física. Eu entrei, primeiramente, 1981, e fiz vestibular para Física na UFRGS, na Federal do Rio Grande do Sul. Entrei para a Física e ali eu fiquei, mas eu nunca estava muito satisfeita com a Física, sabe? Me faltava. Eu queria discutir as questões mais da filosofia da natureza, e a gente não tinha esse espaço, porque, claro, não era da natureza da discussão da Física. E aí eu comecei, gradativamente, a fazer as disciplinas de Filosofia. Inicialmente, assim, eu continuava no curso de Física, mas fazia essas disciplinas, não era nem como ouvinte, era como aluna matriculada; essas disciplinas, que eram mais disciplinas da filosofia da ciência, da lógica, isso foi entre 81 e 84. E aí eu fui me apaixonando pela discussão filosófica. E aí, então, em 84 eu tomei a decisão definitiva, que era de fazer a transferência do curso de física para a filosofia. Foi essa a ideia. Inicialmente, respondendo diretamente à sua pergunta, foi o que me trouxe para a Filosofia, foi essa discussão da lógica, da filosofia da ciência. E aí, depois dentro da filosofia, gradativamente, eu fui me familiarizando e gostando das discussões, principalmente, sobre a ética e filosofia política. Então, é essa a minha trajetória.

Nos conte como foi sua experiência na graduação? Você consegue pensar em pessoas e autores que foram referências ou em algum momento marcante para sua trajetória acadêmica?

Os autores ali na UFRGS eram os autores clássicos da filosofia, era o que a gente estudava. Então, assim, era Kant, Hegel, Heidegger, enfim, todos os autores clássicos. O grupo de professores da UFRGS naquele tempo, porque veja bem, eu entrei em 84, eu fiz a graduação, de 84 a 86. Eu fiz em três anos o curso porque eu já tinha aquelas disciplinas que cursei enquanto era aluna na Física. E o grupo de professores era excelente! Nós tínhamos ali o professor Carlos Cirne-Lima, que era maravilhoso, tínhamos o professor Baltazar Filho, que depois foi meu orientador no mestrado, o professor Ernildo Stein, que foi meu orientador de TCC. E tinham as mulheres, a Anna Carolina Regner, que infelizmente já é falecida, a Rejane Carrion, que saiu logo depois, ela saiu da filosofia. O professor Álvaro Valls. Então, assim, era um grupo de excelência, isso me marcou muito. E de autores clássicos que se discutia, aí você via a diversidade também que tinha, porque ao mesmo tempo em que você tinha professores como o Cirne-Lima, que traziam questões da filosofia continental, tínhamos o professor Baltazar trazendo as discussões de filosofia analítica. Então, essa diversidade era um ambiente muito bom, pleno de filosofia, e a melhor parte da filosofia em sua diversidade que cada um traz. E isso é super importante na graduação, pelo menos, porque depois na pós-graduação você vai se especializando, né? Mas pelo menos na graduação é muito importante esse primeiro contato com a diversidade dos temas da filosofia, e com a diversidade de autores também. Mas isso era interessante, sempre os autores clássicos da filosofia. Isso aí era muito bacana.

Como você se descreveria enquanto estudante?

Bom, eu digo o seguinte, eu era uma apaixonada pela filosofia. E ainda sou. Eu acho que essa é a melhor maneira de descrever. Eu costumo dizer até hoje para os meus alunos, que a gente não pode fazer filosofia sem paixão, não se faz filosofia sem paixão. Então, quando eles me perguntam essas questões, que a gente fala nas aulas, sempre digo “se vocês querem um conselho, para fazer filosofia vocês têm que ser apaixonados por filosofia, tem que se apaixonar”. E tem que fazer aquilo que vocês querem. Essa é uma outra questão que eu digo. Não vão lá fazer filosofia porque alguém quis. Infelizmente a gente perde muitos alunos, vocês sabem isso em função disso, do próprio preconceito das próprias famílias, às vezes, que diz: "Ah, vai fazer filosofia, mas qual é o futuro da filosofia." Então, assim, eu digo sempre para eles, vocês têm que fazer aquilo que vocês querem. A gente fazendo bem a filosofia, a gente tem um campo de trabalho. Tudo aquilo que você faz bem, você consegue sobreviver daquilo. Tem um campo enorme de filosofia, até hoje, concursos, etc. Então, isso é importante, quando tu tem essa paixão por algo, o trabalho deixa de ser uma coisa necessariamente trabalhosa, é uma coisa que tu faz por paixão mesmo. De certa maneira, até hoje eu acho divertido fazer filosofia, eu acho divertido dar aula.

E quanto à sua entrada na Pós-Graduação? O que você achou do processo de se tornar pós-graduanda?

É, aí a conversa já foi um pouquinho diferente, né? (Risos) Porque, assim, é uma espécie de entrada na maturidade. Eu senti um pouco isso, você tem um choque. Enquanto você está na graduação tem muito deslumbramento, vai fazendo aquilo porque você quer, quando você entra na pós-graduação, a questão profissional começa a pegar com mais força. Então, você começa a perceber uma parte que é ruim de certa maneira, que é a competição. Aí começa a surgir a competição com os próprios colegas de uma maneira mais forte, digamos assim. É como uma entrada na vida madura praticamente. Em uma vida que começa a ser mais difícil porque, exatamente, coisas como disputa por bolsas, etc. Assim, a experiência foi muito boa, claro. Eu tive experiências ótimas, mas é um pouquinho diferente. Dá para notar isso. Inclusive eu imagino agora, num cenário de restrição de bolsas. Naquela época não tinha tantas restrições, a gente praticamente tinha bolsa para todo mundo, mas agora não tem. Em algumas universidades, por conta das restrições de bolsas da CAPES, não tem bolsa para todo mundo, então, imagino que agora essa questão da competição se acirra ainda mais. Mas o processo foi muito bom. A ideia de fazer pesquisa e de você optar profissionalmente, porque quando você entra na pós, você já está, de certa maneira, optando pela filosofia como a sua profissão. Então, é uma entrada na maturidade, como eu digo. Você não perde a paixão, mas você profissionaliza. E tem todas aquelas obrigações, os prazos, etc. Se bem que naquela época nem tinha tanta preocupação com prazos como tem agora, era mais solto. Mesmo assim, tem a preocupação de você também finalizar logo, para fazer um concurso, porque no concurso exige o doutorado. Naquela época nem era assim, viu, gente? Naquela época, vocês vejam, no final da década de 80, você com mestrado ainda tinha boas chances de conseguir um bom emprego. Eu me lembro que quando eu fui fazer o concurso na Federal do Rio Grande do Norte, eu tinha só o mestrado, eu tinha defendido o mestrado aqui na UFRGS, mas não tinha doutorado ainda. Eram muito poucos os doutores. Para vocês verem, hoje é praticamente impossível você entrar numa universidade federal sem ter doutorado. Então vocês vejam como a coisa foi ficando mais difícil.

Como você se aproximou dos seus temas de pesquisa do Mestrado e do Doutorado? Como foi a experiência de pesquisa na sua área?

No mestrado, eu me lembro que fui falar com o professor Baltazar, e eu discuti com ele que eu tinha três propostas, três temas e três autores, tá? Um deles era o Nietzsche, outro era o Kant, e confesso para vocês que a terceira eu estava tentando me lembrar, mas não consigo. Tinha uma terceira proposta ainda. Eu fui conversar com o Baltazar, e duas ele descartou imediatamente. Ele disse: "Olha, Nietzsche”, e essa que não lembro, - “não, de maneira nenhuma. Eu te orientaria em Kant, em Kant eu te orientaria com prazer”. E eu acho que no fundo era o que eu queria mesmo. Eu ofereci as três, mas no fundo era exatamente essa que eu queria. E aí nós nos acertamos, e eu fui orientada por ele. No doutorado foi um pouquinho diferente, porque no doutorado eu já era professora da UFRN. No doutorado saí em 2001, se não me engano, para fazer já neste século. E aí, o processo foi interessante. Eu escrevi um livro, mais ou menos entre 97 ou 98, e é engraçado essas coisas, porque como o Brasil é muito grande, aqui (no Sul) ninguém conhece muito esse livro. Lá em Natal, esse livro foi um sucesso tremendo. Nele eu discutia quatro temas, prostituição, homossexualidade, masoquismo e aborto à luz da filosofia. E esse livro foi um Bestseller em Natal. Eu queria continuar discutindo essas questões, a nível de pesquisa. Quer dizer, já foi a pesquisa no primeiro livro, mas eu queria aprofundar a discussão dessas questões. E aí, eu fui fazer o meu doutorado na Inglaterra, em Essex, com o professor Tom Sorell, exatamente sobre esses temas. E o título da tese foi “Uma nova moralidade para o terceiro milênio". Esse era título, “prostituição, homossexualidade e sadomasoquismo à luz de Kant e Mill”. Foi exatamente esse o título. Então, a aproximação foi a partir disso, um tema que eu tinha, que é um tema que, na realidade, me persegue até hoje. Quer dizer, eu discuto essa temática, de uma forma ou de outra, até hoje. Assim, a maneira como eu faço filosofia, os temas que eu discutia lá atrás na época do mestrado, e principalmente essa discussão sobre temáticas da sexualidade à luz da filosofia, são espécies de questões que sempre retornam para mim, o tempo todo. Então, eu nunca deixei, na realidade, de abordar essas questões. Nesse sentido, eu me considero uma filósofa sistemática. Posso não ter muitos livros escritos, muitos artigos, mas se você pensar, como a gente pensa na filosofia, tem uma linha de continuidade no meu pensamento, com certeza. Claro que a gente vai mudando o enfoque. Inclusive, naquela época eu defendia algumas coisas, que hoje talvez eu não defenda da mesma maneira. Mas as questões estão lá, as questões estão ali, eu tenho me deparado com elas e tentado responder do melhor modo possível.

Qual sua pior experiência acadêmica?

Pois é. Eu acho que eu vou passar essa pergunta, mas não sem fazer uma reflexão filosófica sobre isso. Eu tive algumas péssimas experiências dentro da filosofia. Então, assim, eu não vou falar de nenhuma específica. Talvez um dia eu escreva sobre isso, porque eu faço questão de dizer o seguinte: eu acho que a maioria dessas más experiências, dessas péssimas experiências, elas estavam, e ainda estão, relacionadas ao fato de eu ser mulher. Eu tive péssimas experiências recentemente, inclusive. Isso eu não tenho a menor dúvida, que se eu fosse homem não teria, ou pelo menos, não teria passado da forma como foi. Então, isso é uma coisa que eu faço questão de colocar aqui, aproveitando essa deixa, a situação das mulheres dentro da filosofia. Porque nós somos minoria. Eu escrevi um artigo, inclusive, para a ANPOF, recentemente. Em 2023, eu acho, quando eu já era coordenadora adjunta de área da CAPES, que eu estou, no momento, finalizando. Agora em junho, mais um mês, acaba o mandato. Enfim, eu escrevi um artigo chamado “O machismo nosso de cada dia não rima com a filosofia”, onde eu chamo atenção para o fato de que 80% dos docentes são professores, são homens. Mulheres são só 20%. E, isso aí, é um negócio terrível, porque esses números não melhoram. Em 2012 já era praticamente esse mesmo número. Agora em 2026, 14 anos depois, é o mesmo número. Então, assim, é uma área basicamente masculina. Mas o que eu salientava no artigo é que o pior problema não é nem esse, para vocês verem, o pior problema é a forma tóxica como se trata, toxicidade, digamos assim, que existe dentro da filosofia nesse tratamento com as mulheres. Claro que não são todos os homens, tem homens que são absolutamente os queridos. Tem gente que é solidário às nossas lutas, mas tem muita gente que não diz que é machista, claro, porque eles sabem que é errado, mas são extremamente machistas. E eu diria mais, eu acho que há misoginia dentro da filosofia, na filosofia. Então, isso é uma coisa que a gente teria que tratar. Eu quis fazer algo sobre isso no meu mandato, na coordenação adjunta da área, mas infelizmente eu não consegui fazer o tanto que eu gostaria. Eu escrevi esse artigo, a gente adotou algumas medidas, mas o problema é que os homens nunca vão dizer que são machistas, ainda mais na filosofia. Sempre são os outros. Mas quando você vai ver, tem um machismo, tem uma toxicidade muito grande dentro da filosofia que a gente precisa romper.

Qual a sua melhor experiência acadêmica?

Felizmente tem uma analogia porque são muitas as melhores experiências acadêmicas que eu tive. E eu acho que até muito mais boas experiências do que experiências ruins. Mas eu selecionei uma que é a seguinte: eu gosto muito de pesquisar, gosto muito de orientar, gosto muito de escrever artigos, mas o melhor para mim são as experiências que eu tenho em sala de aula. As experiências de sala de aula, assim, eu sempre costumo dizer pros meus alunos que aquilo não é uma sala de aula, não faço uma sala de aula, é um laboratório. Sala de aula para mim é um laboratório, tanto na graduação quanto na pós-graduação. Então, claro, eu discuto os autores, mas também polemizo os autores, coloco as minhas ideias. Também tanto na graduação quanto na pós. Na pós até mais. Eu às vezes discuto as coisas que estou escrevendo. Também na graduação eu já dou essa palhinha ali para eles. Para mim, a sala de aula é um grande laboratório, as experiências são muito ricas, são muito boas. Às vezes eu chego na aula, aquela coisa, aí quando eu saio, eu saio revigorada, com uma ideia nova. E é importante, eu acho, ouvir as pessoas, ouvir os alunos, porque os alunos têm tantas coisas interessantes para dizer. Impressionante, assim, tem gente que dá aquela aula assim, que não escuta. Eu adoro ouvir os alunos, eu adoro essa coisa dialogada. Eu adoro ouvir o que eles acham, esse feedback dos alunos eu acho que ele é importantíssimo na filosofia. Por isso que eu digo que é um laboratório. É certamente um grande laboratório. As pessoas dizem: "Cadê o laboratório na filosofia?" Tá ali, na sala de aula!

Uma das marcas mais distintivas da sua trajetória é a proposta de uma convergência entre tradições frequentemente vistas como opostas, unindo a ética do dever à ética das consequências. Tendo em vista que muitos veem como impossível unir isto, como você fundamenta a viabilidade teórica de uma ética que sintetiza o rigor do dever kantiano com o cálculo de bem-estar de Stuart Mill?

Por conta dessa minha teimosia, em juntar. Isso é importante de falar para as pessoas, falando de más experiência, com essa teimosia de tentar juntar a deontologia kantiana e o consequencialismo de Mill, eu perdi uma bolsa de produtividade do CNPq lá nos anos de 2015. Essa é uma das histórias que seria uma das péssimas experiências, mas assim, o comitê na época, disse: "Mas como é que tu vai juntar duas coisas que são absolutamente distintas?”. Foi um projeto bem fundamentado, absolutamente fundamentado, mas é a questão do preconceito, que isso tem muito ainda na academia. Mas basicamente a minha ideia é a seguinte, eu penso que existe uma zona de convergência entre a deontologia kantiana e o utilitarismo, especialmente, o utilitarismo de John Stuart Mill. No sentido de que eu acho que existe, digamos assim, uma espécie de um núcleo básico de moralidade, básico da ética, que é formado exatamente por essa convergência, por essa intersecção das duas teorias. Então, seria como uma espécie, se você for pensar, de dois círculos que em algum momento ali no meio eles encontram, fazem a intersecção. Então é isso, é claro que há grandes diferenças, isso inegavelmente, nas teorias consequencialistas e as teorias deontológicas em muitas questões práticas. Quando você vê a questão da aplicabilidade, a resposta ética que o utilitarismo daria é uma resposta diferente, bem diferente, da resposta deontológica, mas existe ali no meio esse núcleo básico onde a resposta das duas converge. Essa é a minha ideia e é isso que eu estou tentando trabalhar. Então, você pensa, por exemplo, vamos pensar coisas básicas como a questão da extinção da humanidade, tá? Independentemente das diferenças que existem entre o utilitarismo e a deontologia em relação a outras questões, ambas as teorias vão dizer que é errado extinguir a humanidade, extinguir a vida no planeta. Vamos ampliar um pouquinho, destruir o planeta, que é uma questão que está na ordem do dia, como a gente tá vendo, há uma convergência clara das duas. A deontologia não diz que é para destruir, o utilitarismo diz que é. Não. Ambas dizem que a gente não deve destruir o planeta, que a gente não deve acabar com a humanidade. E, assim, as ações que conduzem a isso, então, seriam condenadas do ponto de vista das duas teorias. A minha ideia é essa. Temos uma divergência, digamos assim, entre várias questões. Aqueles de quem está acostumada com os Dilemas do Trolley. Você está indo, aí você vê quatro pessoas de um lado e você vê uma pessoa do outro, aí você tem opção de divergir. Matar os quatro ou matar um? Aí o utilitarismo diria: "Não, vamos pensar nas consequências". Então, você teria que divergir, desviar o trem e matar uma invés de matar quatro. A deontologia diria não. Então, quer dizer, essa discussão clássica, de matar para salvar mais pessoas, há uma divergência óbvia. Mas vamos pensar nessas coisas mais de fundo mesmo. Nenhuma dessas duas teorias diria: "Não, nós temos que destruir a humanidade". Nenhuma dessas teorias diria, bom, nós temos que destruir o planeta. Elas convergem nesse ponto. Na própria questão da verdade, da mentira, que hoje está super na ordem do dia em função da questão das fake news, da internet, as pessoas dizem mentiras e espalham mentiras. Se você for pensar, bom, o Kant disse que não devemos mentir nunca. E o utilitarismo vai dizer: "Não, em algumas situações, nós podemos mentir quando é para um bem maior". Mas mesmo assim, quando você vai lá ler o Kant, né, e na letra lá no Utilitarismo de Mill, ele vai dizer, eu acho que nisso inclusive tá no Sobre a Liberdade, nós temos que ter cuidado, nós podemos eventualmente, em função das consequências, mentir, por exemplo, para salvar a vida de uma pessoa. Mas nós temos que ter muito cuidado com os efeitos da mentira, nós temos que ter muito cuidado porque nós não podemos acabar com a ideia da veracidade. O termo que ele usou não lembro exatamente agora, mas assim, essa confiança na veracidade, ela não pode ser abalada, ele diz isso claramente. Então você vê, tem uma convergência ali. E essa, por exemplo, desse ponto de vista, a gente pode servir para analisar hoje o que tá acontecendo no ambiente virtual em que tem uma proliferação de fake news, de mentiras. E isso é muito perigoso, porque a humanidade sobreviveu afirmando a prioridade do verdadeiro sobre o falso. Se a gente começar de repente a transmitir o falso, a nossa própria sobrevivência, da humanidade, a sobrevivência da civilização, tal e qual a gente já construiu, ela se coloca em risco. Então, é um problema que a gente tem que enfrentar hoje, nos dias de hoje. Se isso tivesse acontecido antes nos nossos primórdios? A gente não teria construído a civilização que a gente construiu. É muito sério o que tá acontecendo, que as pessoas de repente dizem: "Ah, que a Terra é plana, que o holocausto não existiu", e passando essas informações, isso é muito sério. Isso ameaça, em última instância, a sobrevivência da nossa da nossa civilização. Então, assim, a filosofia que eu estou pensando, nessa convergência, eu chamo isso de um “deontutilitarismo”. Essa filosofia que eu estou propondo, que seria então formada a partir desse diálogo da filosofia de Kant e da filosofia de Mill.

Em seus trabalhos sobre as bases neurobiológicas da moralidade, a senhora discute como os avanços da ciência desafiam conceitos tradicionais de agência. Diante dos avanços da neurociência, como você redefine hoje os conceitos de autonomia e livre-arbítrio nas decisões morais?

Certo. E eu escrevi um artigo, acho que foi 2012, também sobre essa questão da neurociência, o título era “A neurociência não prova que o livre arbítrio não existe”, e assim eu assino embaixo ainda hoje. Eu assino embaixo totalmente aquilo que eu escrevi lá há 10 anos atrás. Inclusive, tanto eu assino ele embaixo que assim, ele foi publicado em inglês, se não me engano, e depois eu acho que eu republiquei ele em português. Quer dizer, esses estudos de neurociência, eles não ameaçam, me parece, que eles não ameaçam a ideia da existência de livre arbítrio, a existência da escolha, de que nós fazemos nossas escolhas. Quando a gente pensa na questão das neurotecnologias, elas podem ser emancipatórias, aliás, elas deveriam ser emancipatórias. Porque, na realidade, quando nós temos, a partir desses estudos da ciência, a capacidade, por exemplo, de mover a perna mecânica com “a força” do pensamento, isso é emancipador. Que é uma das coisas novas ali que surge de uns 10 anos para cá. Claro que não é só a questão do pensamento, porque daí você instala um equipamentinho ali, obviamente, que faz que você ative os circuitos neurais e que você possa de alguma maneira fazer mover, a ideia é essa, mover a perna a partir da ativação de certas áreas cerebrais. Eles conseguem mapear isso, quais são essas áreas. Isso é emancipador. Você imagina uma pessoa que não consegue se movimentar e que ganha perna mecânica, e ela consegue se movimentar tão bem quanto nós, e às vezes até melhor. Que é a ideia do aperfeiçoamento. Só que tem um problema ali que é a questão da manipulação que é possível de ser feita também. Porque, você veja, uma coisa é a pessoa movimentar a perna que ela está querendo movimentar, outra coisa é essas tecnologias acabarem sendo controladas e usadas de algum modo pelas grandes companhias. Essa é uma coisa que eu venho discutindo muito, a questão das bigtechs, para de alguma maneira mapear o teu pensamento ou controlar o teu pensamento. Isso seria desolador, se isso viesse a acontecer. E a gente tem que ter cuidado, porque, assim, em geral se faz essas pesquisas todas com uma intenção boa. Então, vamos devolver para as pessoas a capacidade de mobilidade delas. Mas tem exatamente o outro lado, porque a mesma pesquisa que faz com que você consiga mover as suas pernas com a “força do pensamento”, faz também com que você consiga jogar uma bomba só com o pensamento. A pesquisa básica está ali, a técnica, e pode fazer uso disso militarmente. Para você jogar uma bomba, exatamente do controle pelo seu pensamento, uma bomba que pode destruir cidades, enfim. Então, assim, a questão do uso da tecnologia. A tecnologia em si, se a gente for pensar na tecnologia em si, ela pode ser emancipadora. Isso entra numa discussão atual que eu estou fazendo, que é exatamente essa questão do duplo uso da tecnologia, especialmente do duplo uso da Inteligência Artificial, que vai pro bem ou pro mal.

Suas pesquisas recentes exploram as fronteiras do "Moral Enhancement", questionando o uso de intervenções biomédicas para o aperfeiçoamento das capacidades humanas. Quais seriam os limites éticos entre o uso de biotecnologia para o "aperfeiçoamento moral" e a simples manipulação da personalidade individual?

Essa pergunta é interessante, porque naquele artigo também que eu escrevi sobre Moral Enhancement, acho que tem uns dois ou três, mas enfim, que eu digo o seguinte, o aprimoramento moral, no sentido de uso das biotecnologias, não o aprimoramento clássico, mas o aprimoramento através das biotecnologias, ele deveria ser considerado um direito das pessoas, e não um dever. E nesse sentido, eu me distancio de uma discussão que, por exemplo, o Savulescu faz e o Ingmar Person, que o Savulescu escreve sobre a questão do aprimoramento moral por biotecnologia e eles dizem "Bom, em alguns momentos isso aí pode ser visto como um dever”, mas para mim, não. Para mim é um direito. Uma das questões que eu coloco, é que muitas vezes em função de pessoas que querem modificar o seu comportamento, isso eu digo nos artigos, por exemplo, das pessoas que são extremamente egoístas e que querem modificar o seu comportamento e não conseguem. Aquilo ali como se fosse da natureza delas. Esse é um exemplo que dou. E nesse sentido o uso das técnicas biotecnológicas, do aprimoramento biotecnológico, pode ser emancipador. Eu sempre dou o exemplo da fábula do sapo e do escorpião. É assim. Era uma vez um escorpião que queria atravessar o rio. Mas o escorpião não nada. Aí ele viu um sapo, e disse: "Seu sapo, você pode me dar uma carona? Eu quero atravessar o rio". E o sapo disse: "Você tá doido? Você vai me morder! Imagina, você é um escorpião, você vai morder”. E aí o escorpião disse para ele: "Não, mas espera aí, seu sapo, veja bem, se eu lhe morder no meio da travessia, eu não sei nadar, então nós dois vamos acabar morrendo”. Então, por que ele morderia? E o sapo disse: "Olha, é verdade, realmente, então tá bom, te dou uma carona." E aí, vai o escorpião montado no sapo atravessando o rio, e lá pelas tantas ele morde o sapo. E aí, claro, o sapo se afogando, pergunta: "Mas por que você fez isso? Nós dois vamos morrer agora." O escorpião diz “Era da minha natureza, não pude me controlar”. Então, é essa ideia, às vezes, quer dizer, essa malignidade, desse egoísmo exacerbado, às vezes é tão forte nas pessoas, que você não consegue se livrar disso. Então, nesse caso, o uso de técnicas de biotecnologia seria emancipador. Mas é o que eu digo, é importante que você garanta que é a pessoa que tem que decidir sobre isso. Eu seria contra essa ideia de dever. Companhias, empresas, que obrigam, digamos assim, as pessoas a adotarem essas técnicas, seria isso o pior. A gente tem que pensar, isso é uma coisa que eu penso sempre, na emancipação das pessoas, na emancipação do indivíduo, na emancipação da humanidade, sempre. Essa é uma coisa que atravessa o meu pensamento, um pensamento para a emancipação e não para escravidão. De denunciar toda a forma de escravidão, mesmo as contemporâneas. As bigtech são um problema que eu tenho trabalhado bastante.

Com passagens por centros de excelência como Oxford e Essex, sua carreira é marcada por um diálogo constante com a filosofia global. Como essa experiência internacional moldou sua visão sobre o papel do filósofo brasileiro diante dos dilemas éticos globais?

Eu tenho laços fortes, especialmente com filosofia inglesa, porque o meu doutorado foi lá, eu fiz dois pós-doutorados em Oxford. Mas eu acho que no geral a gente poderia estar fazendo muito mais, nós enquanto filosofia brasileira. Ela poderia estar fazendo muito mais nessa questão que você coloca da solução dos problemas globais. Mas eu acho que não é um problema nosso, sabe? Não é um problema nosso, é um problema do sistema tal como ele se coloca, porque a gente tem ideias excelentes, a gente tem pesquisadores excelentes que estão fazendo coisas interessantíssimas, mas isso não chega na prática. Vamos pensar agora em termos da ética, tá? Em termos de ética, por exemplo, a gente tem várias propostas em termos de políticas públicas, de ética e políticas públicas. E, isso aí não chega àqueles que são os tomadores de decisão em última instância. Porque também nós estamos vivendo numa época muito difícil, atualmente a filosofia e os filósofos estão sendo cada vez menos ouvidos. Quando a gente vê a conjuntura política, o que se tem hoje em dia é essa ideia do poder, você vê o que acontece ali com Trump, com as invasões, então, a questão da racionalidade que a filosofia trabalha, e ela trabalha fundamentalmente com a razão, e não com a questão da imposição do poder. A gente até detecta quando tem a imposição do poder, com o Hobbes, detecta isso muito bem. Mas a nossa luta na filosofia é emancipatória, em última instância. Então, é difícil para a gente num mundo como esse, em que cada vez mais aquele que tem poder faz aquilo que quer, porque ele pode em última instância. É horrível isso, pois a razão fica meio de lado. E a filosofia, como ela é eminentemente uma discussão racional, ela fica mais de lado ainda. Então, o que a gente produz, aí não é só nós enquanto brasileiros, da filosofia brasileira, mas o que tá sendo produzido pelas pessoas que são contra isso no cenário internacional, não chega, digamos assim, nos tomadores de decisões, e isso é um problema. Isso é um problema bastante sério. Então, assim, o que que a gente pode fazer em relação a isso? Conversando e trocando alguns e-mails com o Roger Crisp lá de Oxford, eu coloquei para ele a minha frustração, e ele me disse: "Cinara, talvez o que a gente possa fazer é tentar mudar, fazer essas mudanças naquilo que a gente consegue no nosso meio, no nosso meio micro, naquilo que a gente pode fazer, talvez seja só isso o que a gente consegue fazer”. Porque realmente, a nível de decisões, está difícil. E aí a filosofia brasileira tem um problema adicional, que é a dificuldade da publicação em grandes em revistas internacionais, e também o fato de que essas revistas internacionais, muitas delas, você paga uma fortuna para publicar. Quer dizer, o sistema está todo errado. Então, eu acho que uma coisa importante da gente fazer é exatamente estimular esse sistema nacional que nós temos, as nossas revistas, nacionalmente elas são todas de publicação gratuita, elas são aquilo que a gente chama de diamante, revistas diamante, ou seja, você não paga para publicar e quem tá lendo não paga para para ler. Tem que continuar assim esse sistema de transparência. Mas quando você vai para o exterior, aquilo se torna um negócio, essas revistas, muitas delas se tornaram um negócio. Então, você pagar $8.000 para escrever, e eu me recuso a fazer isso, sabe? Eu me recuso radicalmente a fazer isso, porque você pagaria para publicar e ao mesmo tempo quem é que se apoderaria desse conhecimento, em última instância? As bigtechs. Com o advento da inteligência artificial, essas bigtechs, esse conhecimento que eu, você, todos aqui estão produzindo, ele está sendo apropriado pelas bigtecs, que usam depois para formar os LLMs. Então, assim, além de você pagar um absurdo, você ainda tem o seu conhecimento, expropriado. Isso é uma coisa que a gente precisa discutir, esse modelo de fazer científico, isso precisa ser discutido. A gente discutiu muito isso na agora na CAPES, que como eu disse, estou acabando a gestão na coordenação adjunta, sobre a necessidade de haver mais incentivo às nossas revistas aqui, as nossas revistas nacionais, e também da gente se ler mais. Isso é um problema, que a gente não se lê, isso é um problema seríssimo. Mas eu acho que isso é um processo.

Dentre seus trabalhos, quais você indicaria para quem quer conhecer melhor sua pesquisa?

Eu indicaria para começar por qualquer dos meus inscritos. Na realidade, você quer conhecer, comece por qualquer um, porque aquilo que eu falei no início, o meu trabalho é um trabalho sistemático. Então, qualquer um que você pegar, na realidade, você vai ver que ele puxa para uma outra discussão que tá em outro artigo. Ele te estimula a fazer isso, de ver esse fio condutor, digamos assim, que está presente no meu trabalho. Então, comece por aquele artigo que você acha que vai lhe interessar mais, que vai lhe ajudar mais. Mas tem livros, tem artigos, aí começa por qualquer um deles. Tem, não é?

Quais são seus projetos para o futuro? O que podemos aguardar?

Bom, eu estou trabalhando, como projeto de pesquisa do CNPq, nessa questão da convergência ética normativa da sociedade, que é da humanidade, que é essa discussão do “deontutilitarismo”, da convergência. Mas, imediatamente agora, nesse momento, eu estou escrevendo uma trilogia em relação a IA, que é o duplo uso da inteligência artificial, para o bem ou para o mal. Dois já foram produzidos, eu estou revendo eles, revisando, para a publicação. O primeiro é esse que eu já apresentei em várias conferências sobre o duplo uso da inteligência artificial, pro bem e pro mal, que eu acho que pode ser usado tanto para o bem quanto para o mal. O segundo eu apresentei agora em um evento, que é muito mais a questão o uso para o mal, em como é que está sendo esse uso para o mal. E o terceiro que eu estou escrevendo é como seria o uso para o bem, porque há um uso possível, certamente, para o bem. Esse uso emancipatório que eu falo, toda a minha reflexão. Eu não sei se eu vou escrever ele na forma de três artigos ou se vai ser um livro. Isso aí eu vou ver ainda. Mas é o que eu estou fazendo nesse momento. E de olho nessa questão da convergência ética normativa da humanidade, porque se pode ser usado pro bem ou pro mal, isso traz uma discussão filosófica também muito grande, o que é, afinal, o bem? O que é o mal, em última instância? E eu acho que eu posso tentar responder a partir da concepção deontutilitarista que eu venho desenvolvendo.

Para finalizar…. Como é ser uma Filósofa?

É muito bom. Ser uma filósofa é muito bom, apesar de todos esses detratores que eventualmente você tem, que eu tive, é muito bom você ser uma filósofa. E assim, se você me perguntar o que seria importante no ser filósofo, eu acho que duas coisas são importantes. A primeira é o compromisso com a verdade. E aí eu acho que a gente resgata o Sócrates, e resgata os clássicos, especialmente, o Sócrates. A filosofia, em última instância, é um compromisso com a verdade. Ele morreu por isso, ele morreu para mostrar isso. E eu acho que hoje em dia, cada vez mais, exatamente em função dessa questão das fake news e da internet, do modo como isso está sendo tratado, que na realidade a gente está acabando com a ideia de de verdade. Estamos acabando com a ideia da verdade, então vale tudo, vale inclusive você reconstruir a história, isso é muito muito perigoso. E o segundo é, em última instância, o compromisso com a liberdade. O filósofo tem o compromisso com ser livre, com a liberdade, com a emancipação. Eu acho que é uma ideia de uma luta por uma sociedade melhor, uma luta por uma humanidade melhor, e uma luta, na maneira como as coisas estão se desencadeando, é uma luta contra a escravidão. A escravidão do século XXI que tá ali acontecendo, e muita gente não está não percebendo, muita gente está sendo escravo dessa confluência toda das bigtechs de alguma maneira. Elas escravizam e impõem o que elas querem que seja imposto, te controlam. Aí tem a discussão do controle. Então, isso está acontecendo e a filosofia é uma voz que se opõe a isso, é uma voz de emancipação, é uma voz de liberdade, é uma voz de de verdade. Eu acho que é isso. E aí, nesse ponto, por mais que a gente sofra, por mais que seja difícil de inclusive ser ouvido e tudo, tem esse lado muito bom. Então, é ótimo que programas como o seu, essa ideia que vocês estão tendo de fazer as mulheres filósofas serem ouvidas, isso é extremamente importante. E a paixão continua, a paixão continua viva. Eu acho que é isso, a filosofia é do bem, em última instância Embora existam tantos filósofos que são do mal, a filosofia é do bem.