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Beatriz Sorrentino Marques

Nossa entrevistada é graduada em filosofia pela Universidade Federal da Paraíba (2006), mestra em filosofia pela Universidade Estadual de Campinas (2009), e doutora em filosofia pela Universidade de São Paulo (2015). Como parte do doutorado fez um estágio de pesquisa na Florida State University (bolsa BEPE da FAPESP) sob a supervisão do Dr. Alfred Mele (FSU). Atualmente é professora efetiva do Departamento de Filosofia da UFMT, integra o quadro permanente do Programa de pós-graduação em filosofia da UFMT - PPPGFIL UFMT e é colaboradora do Programa de pós-graduação em filosofia da UFPE. Suas áreas de interesse são especialmente Filosofia da Ação, Livre-arbítrio e Responsabilidade Moral e Filosofia da Mente. É uma das administradoras da Rede Brasileira de Mulheres Filósofas desde 2019 e ocupa a vice-presidencia da Sociedade Brasileira de Filosofia Analítica (SBFA) desde 2023, com novo mandato até 2027. É líder do grupo de pesquisa Grupo de Escrita de Mulheres na Filosofia - GEMF (UFMT), e integra o grupo de pesquisa Mente em Ação (UNB) e o MORES - Grupo de pesquisa em Metaética, Psicologia Moral e Teorias das Razões Práticas (UFPB). É membro da comissão editorial da Coleção Filósofas (Ed. PUC-Rio). A entrevista foi realizada por Henry Rosa Xavier da Silva, estudante de graduação em Filosofia pela UFSM. Coordenação e revisão por Camila Palhares Barbosa, professora do Departamento de Filosofia da UFSM.

Por que Filosofia? Você se recorda de como e quando escolheu o curso?

Primeiramente, eu gostaria de agradecer pelo convite para participar desse projeto tão interessante. Nunca, nos meus sonhos mais remotos, quando eu era uma jovem graduanda, eu imaginei um espaço como esse. Então, fico muito feliz e agradeço. Por que filosofia? É uma pergunta sempre difícil, porque eu não tenho certeza se houve um momento exato em que eu escolhi filosofia. Foi um processo lento mesmo, de construção, de um certo entendimento gradual. Na época, eu não tinha estudado formalmente filosofia, foi só na graduação que eu passei a estudar de fato. Então, eu não sabia propriamente o que significava estudar filosofia. Quando a gente entra na graduação, é também uma descoberta e é preciso entender o que é realmente a filosofia como uma disciplina estudada academicamente. Eu não sei se houve um momento em que eu tenha tido certeza de que eu estudaria filosofia, em que eu tenha entendido que o que eu queria era filosofia. Acho que a escolha pelo curso resultou do meu interesse em questões filosóficas de uma maneira ampla e, na verdade, do entendimento de que se tratavam de questões filosóficas, o que foi uma compreensão mais lenta. Foi justamente isso que talvez tenha me tomado tempo. Como isso me chamava muito a atenção, filosofia acabou sendo uma opção evidente para mim.

Nos conte como foi sua experiência na graduação? Você consegue pensar em pessoas e autores que foram referências ou em algum momento marcante para sua trajetória acadêmica?

Acho que as experiências de graduação tendem, de um modo geral, a serem cheias de momentos marcantes, né? É uma fase muito especial da vida, da formação. Se a gente faz a graduação logo depois do ensino médio, é também um momento de transformação pessoal, pois entramos na vida adulta e passamos a ser jovens adultos. Então, vem misturado, eu acho que com muitos momentos marcantes. Para não me alongar demais, eu acho que, de fato, eu tive muitos professores que foram importantes para mim, mas se eu pudesse destacar alguma coisa, eu destacaria a importância das atividades extracurriculares. Porque essas atividades extracurriculares são excepcionais para a formação, e eu acho que elas têm perdido um pouco seu destaque nos cursos de graduação. Eu participei de atividades, como grupos de estudos liderados por professores, eu fiz PIBIC, eu participei de extensões, como, por exemplo, extensões que ensinam línguas. Claro, também com isso eu não quero diminuir o papel das amizades e das trocas com colegas durante a graduação e da participação em atividades culturais que acontecem na universidade. Isso também faz parte da formação na universidade, pelo menos na universidade pública, que foi onde eu fiz graduação. Eu participava desses diferentes projetos, diferentes eventos, diferentes atividades. Então, me parece que realmente vivi a universidade quando eu estava na graduação. Eu tive uma experiência que foi, de um modo geral, marcante, mas talvez uma que valesse a pena destacar seja o PIBIC. Para mim, em particular, foi uma experiência formativa importante que me ensinou o básico da pesquisa, que era algo para o qual eu me sentia muito inclinada na época. Na minha experiência, essas atividades extracurriculares me permitiram viver a instituição, mesmo quando eu não estava simplesmente assistindo aula. Eu acho que isso foi muito marcante.

Como você se descreveria enquanto estudante?

Hoje em dia eu acho que penso na graduação como uma espécie de panorama da filosofia, porque a gente tende a ver uma gama ampla de autores, autoras e temas. Claro, a gente pode questionar o cânone com o qual a gente trabalha, a gente pode questionar o que está sendo apresentado como História da Filosofia. Mas trata-se de um panorama, mesmo que a gente questione o que foi escolhido para fazer parte desse panorama. Então, eu acho que tentei aproveitar muito dessa visão ampla da filosofia, no que era possível naquele momento. Por exemplo, eu me lembro de fazer parte de grupos de estudos de Estética, algo que depois eu não segui, mas tive a experiência naquele momento. Eu fazia parte do grupo de estudos de Filosofia Antiga, Platão, enfim, coisas pelas quais eu me interessava por uma certa curiosidade com a área como um todo. Como eu mencionei, fiz PIBIC, estudei línguas nas extensões universitárias. Eu lia os textos das disciplinas e fazia as leituras que sugeriam em sala de aula. Eu era uma estudante curiosa. Isso me levou, eu acho, a aproveitar o tempo da graduação, porque eu tinha curiosidade, eu queria ver como é que era. Então, eu navegava diferentes espaços. Isso foi bom, eu acho. São aspectos que eu acho que contribuíram para eu ter uma experiência positiva na graduação.

E quanto à sua entrada na Pós-Graduação? O que você achou do processo de se tornar pós-graduanda?

Outra pergunta difícil. Olhando para trás, eu diria que foi intimidador para mim. Realizar uma pesquisa, produzir um texto meu, de minha autoria, por mais que fosse algo que, naquele momento, eu quisesse muito, parecia muito difícil de executar. Era um grande desafio. Eu não tinha muita clareza de como eu ia fazer isso. Além disso, eu pensava que havia muita coisa que eu não sabia, que eu não sabia fazer para conduzir uma pesquisa de uma maneira minimamente independente. Ainda mais uma pesquisa longa, como, por exemplo, uma dissertação de mestrado, e uma tese de doutorado. Provavelmente isso tudo era verdade, tinha muita coisa que eu não sabia mesmo, mas por isso mesmo eu estava ali em formação, não é? Então, eu acho que teria sido bom para mim se eu tivesse compreendido naquela época que não saber era parte do processo e que não saber era parte do processo para todos nós, e que eu viria a aprender muitas coisas, e que eu podia também pedir ajuda nesse processo. São as impressões que me voltam quando eu me lembro daquele tempo.

Como você se aproximou dos seus temas de pesquisa do Mestrado e do Doutorado? Como foi a experiência de pesquisa na sua área?

Eu sempre pesquisei as ações humanas desde a graduação, então, eu sempre estive próxima dos temas que eu eventualmente pesquisaria na pós-graduação. Um pouco mais de distância, claro, do que eu pesquisei no mestrado, que foi algo ao qual eu não dei tanto segmento depois, em algum sentido, mas ainda era uma discussão sobre ações. Eu me aproximei desse tema das ações humanas por meio do PIBIC que eu fiz na graduação, com orientação do professor André Leclercq, na Universidade Federal da Paraíba. A minha área então é a da filosofia da ação na tradição analítica. A minha experiência com essa área é um pouco solitária, não havia muitas pessoas nessa discussão na época, e isso tornava difícil manter diálogos sobre pontos mais específicos daquilo que eu pesquisava. Por mais que, em certa altura, já no doutorado, por exemplo, eu tenha participado de muitos eventos e eu tenha dialogado bastante com as pessoas à minha volta nesses eventos, era difícil ter uma interlocução sobre textos e questões específicas. Eu sou uma firme crente na troca de perspectivas para o enriquecimento do debate e da pesquisa. Acho que isso é fundamental para qualquer produção acadêmica em filosofia. Então, eu diria que essa era uma dificuldade da minha área.

Qual sua pior experiência acadêmica?

Se eu fosse falar do ponto de vista acadêmico, eu imagino que muitas experiências podem ser experiências difíceis. Mas eu acho que vou relatar uma comunicação que eu apresentei em um evento internacional, quando ainda era bem jovem, e ao final absolutamente ninguém me fez uma pergunta. Nem mesmo o moderador da mesa. Na época, isso foi difícil para mim, e reforçou a dificuldade de interlocução. Na época isso foi difícil porque eu achei que refletia que eu não sabia do que eu estava falando, que eu não tinha apresentado bem, que eu não tinha conseguido articular o que eu pretendia dizer. Hoje em dia, claro, eu não descarto que eu não tenha apresentado da melhor forma possível, mas eu imagino que também uma das coisas que pode ter levado a essa falta de diálogo tenha sido eu ter abordado um tema sobre ações humanas que raramente era tratado por aquele público, e, por isso, talvez aquele público em específico não conhecesse tão bem a discussão, pelo menos não naquele momento. Também, claro, não tenho dúvida de que eu poderia ter apresentado de outra maneira, talvez para facilitar mais o diálogo, mas esse é o tipo de coisa que a gente vai aprendendo com a formação.

Qual a sua melhor experiência acadêmica?

Vou dizer um clichê. Foi o período do sanduíche do doutorado. Eu acho que tem muitas razões para o sanduíche ser uma boa experiência. Há muitas razões que poderiam mostrar que um período sanduíche é uma coisa muito boa para a formação. No meu caso, fui para um departamento que tinha uma linha de pesquisa muito forte em filosofia da ação. Então, foi uma grande mudança para mim, porque foi um período em que eu tive muita interlocução. Além do meu supervisor na época, que foi o Alfred Mele, havia outros professores e colegas de pós que trabalhavam com esse tema. E havia um grupo de escrita na Florida State, para onde eu fui. Foi a primeira vez eu entrei em contato com um grupo de escrita em filosofia, e eu fiquei encantada com aquele espaço que era totalmente organizado por estudantes. Era uma iniciativa dos estudantes frequentado também por professores a convite, mas era voltado para discutir os textos dos pós-graduandos. Então, essa foi uma experiência importante para mim e que me ajudou no desenvolvimento da pesquisa.

Se você pudesse voltar no tempo e se dar um conselho naquela época, qual seria?

Uma das coisas importantes que eu fui aprendendo na pós-graduação, por exemplo, foi a compartilhar cada vez mais o que eu estava trabalhando na minha pesquisa. Eu acho que muitas vezes, quando somos jovens e estamos na graduação, somos um pouco tímidas para expor o que estamos pesquisando, esse era o meu caso. Então, um conselho que eu daria seria de compartilhar mais o meu trabalho. Talvez, fosse o caso de formar grupos de discussão, com pessoas com interesses próximos ou o mais próximos possíveis. Se eu tinha um pouco de dificuldade para encontrar pessoas que estivessem trabalhando o que eu estava trabalhando, tudo bem, poderiam ser pessoas com interesses o mais próximo possível. Assim eu acho que se toma um pouco mais as rédeas dessa dificuldade de encontrar interlocução. Se eu pudesse ter me dado um conselho talvez fosse esse: tomar um pouco mais as rédeas na resolução desse problema. Às vezes não dá para resolver da maneira que a gente considera ideal, mas dá para encontrar uma solução boa o suficiente.

Você fez seu doutorado sanduíche na Florida State. Você poderia falar um pouco sobre a experiência de realizar um período do doutorado fora do país? O que você diria a quem está pensando em fazer um doutorado sanduíche?

Diria que é uma ótima ideia. Eu já mencionei que tive uma boa experiência. Um dos pontos pelos quais eu acho que é muito recomendável, se for possível, é que se trata de uma oportunidade de conhecer uma outra realidade, outras maneiras de conduzir a pesquisa e novas perspectivas. Essa exposição a diferentes métodos de trabalho e outras perspectivas é extremamente enriquecedora para uma área como a filosofia. Num sanduíche é possível encontra isso, tanto no supervisor ou na supervisora, como nos colegas e em outros professores, que muitas vezes estão ali apresentando seus trabalhos também na instituição. Além disso, no meu caso, por exemplo, como eu fui pra Florida State, eu pude ver como funciona um departamento bem financiado, com acesso a uma ampla biblioteca, que conta com pesquisadores que tinham fomento amplo e assistentes de pesquisa. Eu acho que isso ajuda a gente a entender que há necessidades materiais fundamentais para a excelência em pesquisa, e não só em pesquisa, em ensino também. O ensino se beneficia muito de boas condições. Isso também é importante para compreender a nossa realidade e para pensar a pesquisa e a área no país. Então, é uma ampliação de contexto em diversos sentidos, na pesquisa propriamente dita, mas também nos recursos para fazer pesquisa.

Recentemente você tem trabalhado a filosofia da ação a partir de G. E. M. Anscombe. Como você conheceu a filósofa e por que decidiu estudá-la?

Bom, se eu me lembro bem, eu li o famoso livro “Intenção”, de Elizabeth Anscombe no final da graduação. Lembrando que eu já estudava a filosofia da ação no PIBIC, então, pensando sobre desdobramentos possíveis para a minha pesquisa, para um projeto de mestrado, eu resolvi ler o livro da Anscombe. Achei bastante difícil, em algum sentido era intransponível para mim naquele momento. Eu reconhecia as questões centrais da filosofia da ação, mas eu tinha dificuldade para “seguir o argumento”. Então, acabei não me aprofundando realmente na proposta da Anscombe. Quando eu já tinha terminado o mestrado, eu lembro que eu reconhecia paralelos, em algum sentido, com a filosofia da ação dela quando lia artigos, por exemplo, do Abraham Melden, do Georg von Wright. Tampouco me aprofundei nisso naquele momento. Mais recentemente, eu não lembro bem o ano, a Carolina Araújo com a “Enciclopédia Mulheres na Filosofia”, me pediu para escrever um verbete sobre Gertrude Elizabeth Margaret Anscombe. Não era o que eu vinha estudando, mas eu acabei aceitando porque obviamente é um verbete importante, considerando as contribuições dessa filósofa, que são enormes. A partir daí, eu fui obrigada a voltar a Anscombe, mas agora com a missão clara de compreendê-la melhor. E, curiosamente, encontrei bem mais bibliografia de apoio quando eu retornei ao tema mais recentemente. Muitas delas escritas por filósofas. O problema para mim foi, então, diferente. O problema foi que, quanto mais eu compreendi, mais me fascinou e me interessou. E isso gerou uma crise, porque me fez pensar nas ações a partir de outro caminho, que é diferente daquele que sempre me pareceu mais razoável, mais convincente, na minha formação e pesquisa. Como resultado, passei a pensar nas ações a partir de uma outra direção, e eu não voltei atrás até agora.

Dentro da filosofia da ação, daria para considerá-la canônica? No sentido de ela é imediatamente parte da bibliografia do campo? Porque nem sempre é o caso para filósofas, também é um caso interessante.

A Anscombe é uma filósofa interessante nesse sentido, porque ela é muito difícil de ignorar. É com o “Intenção” que surge a área acadêmica da filosofia da ação. Então, ela inaugura uma área que é uma área enorme hoje em dia na filosofia, especialmente fora do país. Fora isso, ela reintroduz a discussão sobre ética das virtudes na contemporaneidade. É com ela que surge a possibilidade de voltar a isso. Há grande interesse no século XX na ética das virtudes, que aparece a partir do artigo da Anscombe chamado “Filosofia Moral Moderna”. Então, você pensaria: "É impossível ignorar essa filósofa?" E, ao mesmo tempo, parece que não, porque ela é ignorada, sim. Ela inaugura a discussão sobre filosofia da ação, mas, pouco tempo depois, Donald Davidson lança um artigo que também recupera, de outras discussões, para o século XX, a filosofia causal da ação e essa passa a ser a ortodoxia em filosofia da ação. Essa maneira de ver ações se torna hegemônica no campo da filosofia da ação. Não que seja absoluto, claro, há teorias concorrentes, como em toda a área da filosofia, mas o que Anscombe propôs não é tratado como uma concorrência muito forte durante muito tempo em filosofia da ação. Então, essa filósofa vai lentamente sendo deixada de lado. Anscombe seguiu ativa e publicando, então não é que ela era simplesmente ignorada, pois havia, claro, estudantes que, por exemplo, seguem com o trabalho dela até hoje. Mas houve uma diminuição considerável de atenção ao que ela escreveu sobre ações. Já no caso das discussões da ética das virtudes, o artigo da Anscombe é comumente mencionado. Inclusive, o “Filosofia Moral Moderna” é um dos artigos mais citados do século XX. Mas em filosofia da ação, eu diria que ela foi deixada um pouco mais às margens. Eu acho que, muito disso se deveu a não se ter compreendido muito bem o que ela estava dizendo no livro. Da mesma maneira que eu inicialmente não compreendi, me parece que muita gente também não compreendeu inteiramente o que Anscombe estava dizendo, e acabou desconsiderando, em algum sentido, o quão interessante era o que ela estava propondo. Há uma espécie de recuperação da sua filosofia nos últimos anos, o que é muito positivo.

Em um artigo recente publicado na Revista Trans/Form/Ação você argumenta que Anscombe fornece uma alternativa à Filosofia da Ação Padrão. Em que sentido temos com Anscombe uma proposta diferente? Poderia nos dar uma breve explicação sobre essa distinção.

Difícil. (Risos) Eu vou tentar fazer uma distinção pontual. Então, Anscombe publica “Intenção”, em 1957. Isso é um pouco antes da retomada da proposta da filosofia causal das ações, que, como eu mencionei, foi feita pelo Davidson em 1963. A proposta de Davidson se torna a teoria ortodoxa em filosofia da ação. Claro, não exatamente como o Davidson propôs, porque outras teorias vão propondo versões da ideia, mas a ideia central é a de que há uma relação causal entre crenças e desejos, atitudes proposicionais, e a ação intencional. Crenças e desejos produzem causalmente a ação intencional, ideia que se tornou central para a filosofia da ação. Hoje em dia se discute muito mais, por exemplo, o conceito de intenção, que já está mais incorporado à essa linha teórica. Então, o que o Davidson escreve, se encaixa bem no que hoje em dia a gente chama de filosofia analítica. Tem essa abordagem que tenta analisar, ou seja, visa reduzir os conceitos às suas partes mais simples, e usa também bastante da oposição de ideias. Quando Anscombe propõe tratar do conceito de intenção por meio do método gramatical, ela não está buscando definições naquele sentido das condições necessárias e suficientes, que é tão próprio da filosofia analítica. Ela também não está propondo reduzir o conceito de intenção a partes mais simples. O que ela está interessada em fazer, é entender o conceito de intenção. Ela quer entender como ele existe, e não meramente no sentido de como ele é usado na linguagem, mas como ele aparece nas práticas da vida humana. Há uma diferença no método entre o que a Anscombe está propondo e o que o Davidson está propondo que é importante para como a gente aborda esse conceito central para ações. E essa diferença, resulta em teorias e propostas diferentes sobre esses conceitos centrais. Não sei se vale a pena explicar muito mais do que isso agora. Além disso, Anscombe foi influenciada pela filosofia de Tomás de Aquino, por exemplo, e pelo método gramatical de Wittgenstein, que foi professor e amigo dela.

Você lidera o Grupo de Escrita de Mulheres na Filosofia - GEMF, como surgiu a ideia do grupo? Por que pensar na escrita de mulheres especificamente?

Então, o GEMF, como a gente chama, surgiu de uma combinação, na verdade, entre a minha experiência com o grupo de escrita na Florida State e conversas sobre uma publicação que saiu no Daily Nuos sobre o desequilíbrio de gênero na filosofia, ou seja, a evasão das mulheres na filosofia. E isso instigou uma reflexão com alguns colegas da área. Esse texto era intitulado “What explain Female Under Representation Among Philosophy Majors”, do Justin Weinberg. Então, juntando essas duas coisas, a minha experiência no grupo de escrita da Florida State e as nossas questões sobre a evasão das mulheres na filosofia, nós pensamos que a maneira de ter um espaço para as mulheres da área discutirem as suas pesquisas, seria criando esse espaço. Claro, a gente também não conhecia tantas pesquisadoras assim na área, a gente ainda não tinha esse catálogo que está sendo produzido (o Mulheres Também Sabem Filosofia), também, há poucas mulheres na filosofia, se comparado aos homens. O GEMF foi se tornando especificamente um espaço para filósofas analíticas, aos poucos a gente foi desenhando esse perfil, e como a gente não estava na mesma instituição, a gente acabou recorrendo às videochamadas para se reunir. E aí, ainda antes da pandemia, a gente se reunia por vídeo, e foi assim que a gente começou, discutindo nossas pesquisas . Esse foi um espaço muito importante para as participantes, porque nessa época nós todas estávamos no doutorado, ou tínhamos terminado recentemente o doutorado, eu ainda estava no doutorado. Nós apresentávamos os nossos textos, mas não meramente como uma exposição oral, era realmente um grupo de escrita, nós enviávamos o texto escrito para as colegas lerem e depois discutíamos, como num workshop. Então, tinha esse modelo um pouco mais de workshop de escrita, a cada reunião, um texto, e foi uma experiência incrível, uma das grandes experiências da minha formação e da minha vida de pesquisadora. Mesmo como professora, acho que teve repercussões significativas para mim. O GEMF entrou no ano sabático no ano passado. As atividades estão interrompidas por excesso de atividade das participantes. (Risos) Estamos todas muito sobrecarregadas, mas é apenas um hiato.

Dentre seus trabalhos, quais você indicaria para quem quer conhecer melhor sua pesquisa?

Com essa mudança de enquadramento teórico, eu acho que os trabalhos que mais têm acompanhado isso são esse artigo da Trans/Form/Ação que vocês já mencionaram, o título é "G. E. M. Anscombe: uma alternativa à filosofia da ação padrão”, que saiu em 2024. Uma discussão que é um dos meus temas de interesse é a discussão sobre a condição epistêmica da responsabilidade moral. Tem um artigo que discute um pouco disso, que se chama "A condição epistêmica para a responsabilidade moral como uma forma de manutenção de estruturas de opressão", que saiu na revista Discurso em 2023. E como um dos meus temas de interesse no momento é a responsabilidade moral, justamente em torno dessa discussão da condição epistêmica, tem um capítulo de livro que saiu como parte do livro “Uma Introdução à filosofia da mente”, do professor André Leclercq, cujo nome é “Ação e responsabilidade moral”, em que eu explico um pouco dessas discussões em torno de responsabilidade moral na filosofia. Então, esses são os trabalhos que estão próximos aos meus interesses atuais.

Quais são seus projetos para o futuro? O que podemos aguardar?

Eu estou há um tempo interessada nessa questão, que ganhou força nas discussões de filosofia na última década mais ou menos, na filosofia analítica, que é a questão da condição epistêmica da responsabilidade moral. No sentido em que me interessa, é o problema de atribuir responsabilidade moral a um agente que não se dá conta de que a ação que ele realizou era errada, moralmente errada. Há filósofos importantes que defendem que o agente não pode ser responsabilizado nesses casos, o que tornaria difícil a responsabilização moral de quase qualquer agente, se a gente pensar bem, porque é raro a gente fazer algo acreditando que aquilo que a gente está fazendo é errado, não é? O tema da responsabilidade moral tem uma forte intersecção com a filosofia da ação e ela se apoia bastante na filosofia da ação padrão, essa que eu mencionei anteriormente, amplamente chamada de filosofia causal ou teoria causal da ação. Então, eu acho que parte da dificuldade pode ser resolvida com a adoção da filosofia da psicologia e da filosofia da ação da Anscombe, para tratar esse tema da condição epistêmica. É nisso que eu venho trabalhando, venho tentando discutir essa questão a partir da teoria Anscombe, e tentando me aprofundar cada vez mais na filosofia da Anscombe.

Para finalizar… como ser uma filósofa.

É muito bom, eu recomendo. Para quem sente curiosidade e interesse por temas da filosofia, eu acho que a atuação acadêmica na área é um caminho com muito propósito e em que é possível ter muita realização. Há desafios, claro, sem dúvida. Por exemplo, sabemos que há uma assimetria enorme entre o número de mulheres atuando na academia em relação ao número de homens, mas essa também é uma questão para ser trabalhada filosoficamente, por exemplo, com discussões sobre gênero. E em atividades ou coletivos, como a Rede Brasileira de Mulheres Filósofas (https://www.filosofas.org/), projetos e grupos como esse. Então, há muita coisa para se fazer e as contribuições são bem-vindas. Eu acho que ser filósofa é um desafio, mas também é bastante recompensador em muitos sentidos.